Um dia da caça…

“A caça”, Thomas Vintenberg (2012).

A Dinamarca também tem problemas.

Inaugurando este blog, pensei em fazer um “pequeno” post sobre o último filme que vi no cinema, a mais nova película do dinamarquês Thomas Vinterberg, idealizador e realizador, junto com o Lars Von Trier, do movimento Dogma 95. Só uma ligeira constatação: eu não gosto dos rapazes do Dogma. Reconheço as contribuições estéticas do manifesto e que obras interessantes saíram sim da proposta. Eu gosto de Dogville, apesar dos pesares. É só uma daquelas coisas, sabe? Eu simplesmente antipatizo. Sobretudo com as patacoadas que o Von Trier anda dizendo por aí. E com a misoginia implícita – e em alguns casos explícita – em seus filmes. Só que isso é assunto para outro post, hoje eu queria falar desse filme do Vinterberg. Fiz essa pequena introdução para dizer que eu já tenho uma predisposição a não gostar do filme, então que fique bem claro.

“A caça”, em suma, é a história do comportamento de uma comunidade dinamarquesa diante de uma suposição abuso sexual contra crianças. O protagonista, Lukas, é um homem de meia idade, divorciado, pai de um filho, funcionário de uma escola infantil, inserido e respeitado pela comunidade e que de uma hora para outra que passa a ser objeto de escrutínio e repulsa coletiva quando uma das crianças insinua uma conduta libidinosa de sua parte.

Eu não tenho a pretensão de esgotar os significados do filme ou investigá-lo em suas nuances estéticas, só pensei em enunciar algumas reflexões que ele me causou. Mãos à obra. Não posso dizer que Vinterberg aponta sua câmera para um microcosmo da Dinamarca ou uma típica comunidade dinamarquesa, pois não faço ideia de como sejam comunidades dinamarquesas, mas acho que o Vinterberg se esforça para situar alguns símbolos que associamos aos germânicos do norte: a simbiose com o espaço físico natural, a relativa paz e estabilidade da realidade social e, de certo modo, a centralidade da caça como rito de masculinidade. Mas, germanicidades à parte, o filme poderia se passar em qualquer outro lugar, pois o que acredito que ele realmente queira passar como mensagem sejam dois pontos: 1) o quão rápido estamos dispostos a pensar como verdade incontestáveis algumas acusações dependendo de quem seja a suposta vítima e 2) a forma como concebemos a infância.

Vamos para o primeiro ponto: Lukas era um membro estabelecido na comunidade que, provavelmente, não tinha nenhum mancha em seu histórico criminal. Um divórcio litigioso e uma ex-mulher indisposta parecem ser seus únicos poréns. No mais, ele tem um cachorro e um filho, se dedicando integralmente a eles, além de ser extremamente querido pelas crianças da escola. Sem contar que Lukas não é xenófobo, o que descobrimos quando ele inicia um relacionamento com uma imigrante. Apesar de tudo isso, quando a pequena Klara insinua um contato sexual, ninguém questiona a veracidade de sua fala. Lukas se torna um pária, um “pedófilo”, um portador de uma doença.

Isso não é prerrogativa dinamarquesa. Quão frequentemente não nos apressamos e condenamos, moral e socialmente, baseados em indícios pouco sustentáveis? A mídia tem também um papel nefasto nessa construção de verdades apressadas. Sequer contestamos. A não ser, é claro, que as vítimas sejam consideradas pessoas de menor importância, cidadãos de segundo calão, como foi o caso dos mortos no Massacre do Carandiru. Casos de grande repercussão sempre me causam mal estar. Confesso que, até hoje, não tenho certeza da culpa do pai e da madrasta da menina Isabela. Me lembro de ter acompanhado o júri com afinco. Fosse eu jurada, absolveria. In dubio pro reo é um preceito jurídico brasileiro. Na dúvida, não condenamos. Pessoalmente, acho mais fácil ter dúvidas do que convicções em grandes casos de comoção nacional. Só que uma criança havia morrido, e de forma brutal, alguém deveria ser responsabilizado, alguém deveria pagar para restituir nossa já tão abalada crença em alguma forma de justiça. Certeza? Não tenho. Acho extremamente provável que tenha sido, mas não sei…

O segundo ponto que eu gostaria de mencionar é a naturalização da associação entre infância e inocência. Klara, a dinamarquesinha que deflagra a derrocada de Lukas, é claro, não tem muita clareza sobre as repercussões de seus atos, muito menos das consequências jurídico-policial e social de sua “travessura”. Klara é uma criança cheia de nuances. Vinternerg nos mostra seu TOC e a paixão infantil direcionada a Lukas. Curioso também que todos ressaltem que Klara tem tendências fantasiosas, mas no momento de acusar e condenar, quase como uma díade inseparável, Lukas, somente os elementos de pureza são trazidos à baila. Uma criança não mentiria sobre isso.

Não estou dizendo que, nesta situação, eu não faria a mesma coisa. Provavelmente sim, condenaria Lukas veementemente. Sentira nojo, repulsa, indignação. Aí jaz o triunfo – e talvez o problema – do filme do Vinterberg. Colocar a semente da dúvida. Vinterberg questiona o estatuto de nossas verdades. Questiona nossas crenças mais arraigadas. Questiona nossas crianças. Questiona acusações de violência sexual. Perigoso.

No entanto, tenho esse cacoete que é o de achar filmes anteriores sobre assuntos correlatos que me agradaram mais. Dessa vez sugiro o despretensioso “Infâmia”, de 1960, com (pasmém) Audrey Hepburn. O filme narra a história de duas mulheres que administram um internato para meninas e têm suas vidas destruídas quando uma das crianças inventa que elas sejam homossexuais. O diretor, William Wyler, é mais ousado do que Vinterberg em vários aspectos, escapa da cilada de questionar acusações de abuso sexual e sugere um final mais sombrio.

Não quero contar o fim do filme do Vinterberg, mas deixo claro aqui que foi o que menos gostei na experiência. Talvez esteja aqui a principal diferença entre nós e os dinamarqueses. Não consigo imaginar, em terra brasilis, uma solução como a dada pelo lenhadores das florestas do Norte. Bom, sobre isso eu falo pessoalmente para quem perguntar…

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8 pensamentos sobre “Um dia da caça…

  1. Bia, parabéns pelo texto, brilhantemente escrito. Espero que esta seja a primeira de muitas críticas suas. Eu, que não vi o filme, me senti verdadeiramente instigado…
    Bjs…

  2. Chegando agora….Gostei bastante da crítica, principalmente da proposta de associá-la a discussões antropológicas e sociológicas, que é algo que não se vê em nenhuma crítica por aí. Em lugar nenhum.

    Agora, preciso aprender a usar este espaço…e gostei bastante do template – e do título, que se destaca bastante em meio ao demais blogs de cinema!

      • Ah, queridos…estou com bastante receio de postar algo, principalmente em função das preciosidades que vcs já lançaram…isto, para dizer o mínimo. Não obstante, vou refletir sobre “O sopro do coração”, de Louis Malle, hoje à noite, e rascunhar algo. Certamente, no entanto, não vai ficar como as de vcs, mas vou me esmerar…

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