Teerã não é aqui, Teerã é aqui

“A separação”, de Asghar Farhadi (2011).

O filme do ano.

(Post originalmente escrito em fevereiro de 2012).

Vamos falar de “A separação”, o iraniano vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e do Urso de Ouro em Berlim. Confesso que, apesar do rebuliço, eu não tinha uma grande expectativa em relação à película, pois sou daquelas que nutre, não um preconceito, mas um certo distanciamento em relação ao cinema do Irã. Nunca consigo realmente estabelecer aquela relação primária: a sensibilização, o “rapport”, como diriam os franceses. Ironicamente, sempre me parece muito exótico. Bom, mas exótico.  

O fato é que nunca me sinto confortável para comentar com muito critério filmes de contexto que me são demasiadamente distantes. Verdade seja dita, a gente sabe pouca coisa do Irã. Há o regime oriundo da ascensão dos aiatolás, há a questão da mulher e de outras minorias em um ambiente religiosamente ortodoxo – sempre tenho dificuldade de me movimentar por terrenos não ocidentais -, há o Ahmadinejad com suas incursões internacionais e o polêmico plano nuclear, há uma importante e relevante oposição que toma forma, em alguns momentos, em artistas com alguma inserção no ocidente. Tô pensando em Persépolis, por exemplo. Enfim, é mais ou menos o que sei. É alguma coisa, mas não é muito.

Mas não foi isso que aconteceu com esse filme. Saí fisgada, completamente. Esse filme, “A separação”, parte de uma premissa até banal. Um casal está se divorciando por um conflito de interesses: a esposa quer imigrar para o exterior com a família, que inclui uma filha de 11 anos, e o marido, embora não avesso à imigração, sente-se no dever de cuidar do pai, um idoso que sofre de Alzheimer.

Só a respeito desta sinopse já li algumas críticas que, ao meu ver, são ruidosas e perigosas: o fato da filha só poder sair do país com a autorização do pai serviria como prova da “submissão da mulher iraniana”. É óbvio o equívoco. Acho mesmo que são os olhares ocidentais “democráticos” que chapam e simplificam uma realidade mais complexa. Ora, pois até no Brasil, terra da suposta isonomia jurídica entre homens e mulheres, não é possível que um menor de idade viaje para o estrangeiro sem a autorização de ambos os pais. Não conheço o sistema judiciário iraniano, e não estou dizendo que não exista um claro favorecimento da parte masculina em um litígio, mas, no caso da separação de Simin e Nader, este talvez não seja um ponto central. Tudo indica que a filha do casal, Termeh, opta por ficar com o pai muito provavelmente na expectativa de uma possível reconciliação.

Outras críticas que li pela Internet ressaltam o teor crítico do filme e se questionam de que maneira ele conseguiu ser feito apesar das sanções do regime. Pessoalmente, eu não entendi o filme como uma peça essencialmente política. É lógico que há, afinal cabe a máxima quase infantil: tudo é política, política é tudo, mas não me parece ser este o cerne da questão. Então, qual seria este?

Ao longo da história, vemos o conflito se desenhando: Nader, na ausência da mulher, contrata uma espécie de empregada doméstica para cuidar da casa e de seu pai que necessita de cuidados especiais. A contratada é uma mulher religiosa, de origem pobre e que tem uma filha pequena que a acompanha no trabalho.

Neste momento, fiquei bastante inquieta e com vontade de entender melhor esse possível corte de classe, chamemos assim por falta de outro nome. A trabalhadora doméstica diz ao patrão que vem de muito longe, e que demora cerca de três horas no trânsito entre sua casa e o trabalho. Aí já vemos um dilema tão comum em metrópoles ocidentais, sobretudo aqui no antigo Terceiro Mundo. Não há nada de exótico ou de inusitado nessa relação. Parafraseando Gil e Caetano, “Teerã não é aqui, Teerã é aqui”.

Olhando a casa do casal central do filme, logo vemos que eles pertencem a uma camada com certos privilégios. Ambos possuem carros relativamente novos (são dois Peugeots), a filha é muito aplicada na escola e os pais se mostram muito empenhados em sua educação (há até uma tutora que auxilia a menina com os estudos), há livros e instrumentos musicais, a esposa é professora, o marido é bancário e podemos ver alguns referenciais ocidentais no apartamento. Esses elementos não estão lá à toa: é óbvio que estamos olhando para uma determinada elite.

Comparativamente, temos a família da trabalhadora, sobre a qual vamos descobrindo detalhes aos poucos. A mulher é muito devota e por isso usa um xador, o marido está desempregado e têm muitas dívidas, eles moram em um lugar distante, a criança fica com a mãe durante o trabalho, o marido tem uma moto. Parece óbvio que estamos olhando para uma determinada classe popular.

“Teerã não é aqui, Teerã é aqui”.

Engraçado que, até reconheço que eu possa ter um viés de esquerda, mas não li em nenhum momento algum comentário (em português) sobre essa diferença. Nas críticas que li ao filme a tinta é sempre carregada: estamos olhando para o Irã, um retrato desse país tão indesejado ao Ocidente, vendo a situação da mulher e as arbitrariedades de um regime. Discordo.

Estamos olhando para uma história cotidiana, tão comum ao nosso universo, mas que se passa no Irã. A sociedade iraniana é pano de fundo, fornece importantes conflitos e complicações, mas não se trata em absoluto de uma crítica ao regime.

Existem momentos em que o fato de a história se passar no Irã se evidencia. Por exemplo, quando a empregada se vê na necessidade de limpar o senhor com Alzheimer após um acidente fisiológico, ela liga para um número telefônico e pergunta se aquela situação pode ser considerada um pecado. Uma espécie de disque-Haram, talvez. Ela ouve que sim, que não lhe é permitido tocar em um homem, mesmo em uma situação emergencial. Contudo, ela opta por fazer a higiene do senhor, mesmo contra a interdição religiosa, mostrando que há alguma margem de manobra sim, e que precisamos olhar para esse elemento.

Há toda uma lista de questões pertinentes ao Irã: as audiências no suposto fórum são indicativos de um sistema ainda não muito racionalizado, o fato de a empregada ter que esconder do marido que está trabalhando, algumas falas sobre a moral sexual feminina, a importância da religião e da tradição -que não são a mesma coisa-, o juramento sobre o Corão. Enfim.

É claro que o filme se passa no Irã, e é claro que há elementos daquele contexto, mas é importante desnaturalizar essa crítica rasa que pressupõe que tudo que vem do Irã é: a) uma crítica ao regime. b) uma prova irrefutável do “atraso islâmico” em relação à situação da mulher. O filme é muito mais.

Em suma, é um filme sobre motivações, acredito. E, no fim, não conseguimos entender nem condenar nenhuma delas. Taí o grande mérito da película. Que fenomenal. E, olha, feita no Irã. Para mim, a melhor do ano.

 

Obs: Algumas coisas eu queria entender mais. Há uma cena em que Termeh traduz o árabe para o persa e se desenha um conflito ali, pois a filha diz que a professor a ensinou errado e Nader tem uma reação de forte defesa do persa. Significa alguma coisa? Além disso, para mim, pareceu haver uma diferença étnica entre as famílias, mas pode ser só impressão.

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4 pensamentos sobre “Teerã não é aqui, Teerã é aqui

  1. Bia, maravilhosa crítica. Sensível, como aliás é o filme em questão.Não importa, portanto, onde o ser humano está. Seus dliemas são tão…humanos.
    O filme é importante, ao meu ver, por mostrar um país “desmitificado”, sem o esteriótipo horroroso que cerca tudo e todos que vem dali…
    Uma observação: Acredito que a questão do Árabe se dá pelo costume muçulmano de se relacionar com o Corão. A norma culta diz que é somente através do Árabe que se lê a palavra do Profeta. Não importa se você é um turco e ou um Persa.

    • Obrigada Rene, concordo com você sobre a desmistificação do contexto iraniano. Há, é claro, o subtexto do regime, sobretudo no desejo da família de emigrar para a Europa e na forma pela qual a religião incide sobre alguns grupos sociais, leia-se a não-elite.

      Sobre isso do idioma: então, exatamente nisso que eu pesquei essa coisa do pai defender mais o persa do que o árabe, um conflito etniaXreligião que eu queria entender mais. 😦

  2. Bia! Cliquei acidentalmente no seu nome e eis que fui transportada, tal qual Alice, a esse mundo maravilhoso dos seus posts sobre cinema. Por que você estava escondendo isso de mim?!?! Estou encantada.

    Diz que você vai explicar o que diabos é o Rosebud, diz, por favor!

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