AMADEUS (1984) – Diretor: Milos Forman

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É com um grito, um estribilho quase impronunciável, que o filme “Amadeus” de Milos Forman se inicia. A paisagem invernal e um sombrio acorde inauguram a cena – e o filme. Entendemos, aqui e ali, palavras soltas, desconexas: “Mozart, Mozart, perdoe o seu assassino “.

Este maravilhoso introito diante de nós e, assustados, constatamos que em apenas um minuto de projeção já nos sentimos inseridos no passado, em algum momento do século XIX. Pelas três horas seguintes, acompanharemos a culpa lacerante de um velho, editadas virtuosisticamente por Forman. O velho em questão é o compositor Antonio Salieri (interpretado magistralmente por F. Murray Abraham), Italiano radicado na corte Austríaca, quando o império era governado por Leopoldo II, conhecido por sua predileção pela música e o teatro. Viena, naquela época, era conhecida como a cidade da música. Logo, ser reconhecido ali como músico importante equivaleria à fama em toda a Europa.

A estrutura da história é toda centrada na “confissão” de Salieri para um jovem padre (no começo do filme o compositor tenta um desesperado suicídio), interessado em aliviar a culpa na alma do pobre velho. Somos apresentados, então, sem rodeios, ao plano maléfico de Salieri para a destruição de Mozart, considerado por ele como uma aberração divina. Começa ali uma das viagens mais memoráveis do cinema pelo universo destrutivo da inveja e do ego.

Mozart, interpretado de forma enérgica e inspirada por Tom Hulce (que não teria o mesmo sucesso ao longo de sua errática carreira), na lente de Forman é retratado como jovial, irresponsável e absolutamente, miraculosamente genial. E o filme tem várias e sucessivas jornadas no tempo, sendo a história narrada por Salieri no futuro. E, ao passar dos minutos, acompanhamos o plano do compositor Italiano consumir a alma leve e infantil de Mozart.

Mesmo sem fundamentos históricos concretos (o filme é baseado na peça teatral homônima de Peter Shaffer, inspirada na peça de Pushkin, “Mozart x Salieri”), o diretor não tem a pretensão objetiva de traçar um painel rigoroso de uma época. Para Milos, o interesse óbvio é outro: Dissecar a alma humana e suas contradições. Deus e Diabo estão próximos, disputando a alma humana e a consumindo no processo.

A direção de arte de Patrizia von Brandenstein é linda e suntuosa, retratando a opulência da Corte Austríaca. A fotografia de Miroslav Ondricek, compatriota do diretor, é igualmente uma força do filme, e, em alguns momentos, o filme dialoga na estética com Barry Lyndon de Kubrick, ao fotografar cenas internas e iluminadas à luz de velas de forma bela e visualmente impactante. As locações externas todas elas filmadas em Praga (poupada das duas grandes guerras), cenário perfeito para retratar a Viena do século XVIII.

Mas a grande força do filme são os lindos takes onde a elegância de Forman dialoga com a música espiritual de Mozart. Em especial, as cenas onde Salieri “descreve” sua emoção ao ouvir Mozart. Nunca, antes e depois na história do cinema, a música foi tão bem comentada, encenada e homenageada. Passagens belas (vindas do texto de Shaffer) e verdadeiramente antológicas.

Leve e divertido em sua hora inicial, o filme vai gradativamente tornando-se soturno, à espera da tragédia que ao final se anuncia. A evolução do filme, em seu arco dramático, é perfeita. Aos poucos o tom leve do filme dá lugar a um clima de opressiva angústia. A direção de atores é soberba e, Abraham e Hulce brilham (não a toa, ambos concorreram ao oscar de melhor ator, rara indicação de dois atores de um mesmo filme para o prêmio – disputa essa vencida por Abraham). O filme acabaria por dominar o oscar daquele ano (8 ao todo), inclusive o de melhor filme e direção, para Milos Forman

No final, ao som do segundo movimento do concerto nº 20 para piano e orquestra de Wolfgang Amadeus Mozart, não conseguimos esconder nossa garganta presa e os olhos úmidos.

Fomos capturados pela magia do cinema e da música…

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Um pensamento sobre “AMADEUS (1984) – Diretor: Milos Forman

  1. Renê, adorei seu olhar sobre o Amadeus, é um filme especial para mim, sobretudo por abraçar o anacronismo. Tenho um texto antigo sobre o “Shakespeare Apaixonado” que flana nessa linha, não sei se é o caso de postar.

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