A Argentina também é América Latina (ainda bem)

Elefante Branco, de Pablo Trapero (2012).

As veias abertas da Argentina.

É fácil de esquecer. Não vou entrar aqui nos meandros, nem acho que conseguiria, mas quando pensamos na capital hermana, em especial, enfatizamos outros elementos mais facilmente. Ora, não são os argentinos conhecidos como a Europa ao sul do Equador? Um suspiro moderno e mediterrâneo em meio aos caos organizado de seus vizinhos mais atrasados? Para além do clima temperado, dos panelaços na Plaza de Mayo e da neve, a Argentina tem Oscar, Nobel, Papa e até Rainha da Suécia. Sim, é fácil esquecer de que estamos em um país latino-americano, com todos os vieses que isso acarreta. Economia capenga, democracia instável, turbulência social e política, fraturas internas e profundas desigualdades. Não seriam essas, em resumo, as chagas de nosso subcontinente? Está tudo lá, de certo modo, no novo filme do Trapero, o “Elefante Branco”.

Não pude evitar. Apesar de saber de tudo isso, foi a minha reação ao ver os takes iniciais de uma Buenos Aires periférica, pobre e violenta: “existe favela assim na Argentina?”. Esse talvez seja o primeiro grande triunfo do filme, nos trazer imagens assombrosas de um contexto portenho pelo qual não caminhamos com muita destreza. Sim, a Argentina é América Latina, e profunda. Suas veias estão abertas e pulsantes para quem desvia o olhar das grifes da calle Florida, do luxo da Recoleta e das sorveterias italianizadas do “gentrificado” Puerto Madero. Na Argentina tem favela (ou “villas”, que não são exatamente a mesma coisa), miséria, narcotráfico, crime organizado, violência policial, juventude apartada de quaisquer oportunidades, usuários de crack, descaso e/ou falta de vontade do poder público, ruas não pavimentadas, tímidas mobilizações e algumas boas intenções. Na Argentina há Cidade de Deus, há Zé Pequeno, há Dadinho, há capitão Nascimento. Na Argentina há medo, insegurança e malandragem. Buenos Aires é a Rocinha, é a Cidade Tiradentes, é o Capão Redondo. Lá na “villa”, como aqui na quebrada, já falou Mano Brown, “malandragem de verdade é viver”.

Talvez esse seja um cacoete da minha formação em Antropologia. De buscar o particular e o universal em tudo o que vejo. Aproximar-me do estranho e estranhar o próximo. Foi essa sensação que carreguei comigo durante todo o filme, a suspeita de que eu olhava para algo muito parecido, mas tão diferente. Essa dualidade do cinema, essa capacidade de te colocar no centro agitado de uma realidade que ora te pertence ora te escapa é, provavelmente, o que mais me fascina na dita sétima arte. Trapero faz isso com maestria: seus corajosos, longos e tremidos planos sequência pelas sinuosas vielas, a câmera na mão no sobe e desce de escadas estreitas e inacabadas, o foque-desfoque de sua linguagem fotográfica, o jogo entre enervantes planos abertos e contraditoriamente plácidos close-ups que nos desconcertam por quase duas horas.

Grosso modo, “Elefante Branco” conta a história de dois padres inseridos na cruel realidade de uma favela miserável na periferia de Buenos Aires. Lá há um esqueleto de concreto abandonado por diferentes regimes e governos da conturbada história argentina do que viria a ser um hospital, e que foi ocupado por uma população sem acesso a moradia. Os padres seriam próximos, ao que tudo indica, a uma espécie de teologia da libertação argentina, articulando tanto um contato mais humano e próximo a seu “rebanho” quanto uma imberbe atuação política visando construir um conjunto habitacional popular que garanta casas mais dignas àquela população.

Em meio a dilemas de cunho pessoal , como doenças, desejos e crises de consciência; e coletivos, como dúvidas em relação à natureza de sua relação com narcotraficantes, dificuldades em lidar com a burocracia estatal e católica e a busca por encontrar uma atuação que acalante a rotina violenta daquele povo, Júlian e Nicolás oscilam entre o desesperador entregar de pontos, a sensação de um trabalho inócuo e a fé na possibilidade de melhora.

O caráter cíclico e repetitivo da desigualdade social escapa à visão religiosa dos clérigos, a quem sobram duas opções: desistir ou acreditar no metafísico. Para eles, homens de Deus, apesar dos momentos (meus favoritos) de uma humanidade mais incrédula, quando Júlian admite ter vontade de mandar todos aqueles miseráveis à puta que pariu ou quando Nicólas se rende aos prazeres do amor romântico, prevalece a fé, a abnegação e o coletivo. Um coletivo cristão, claro.

Para mim, a quem falta otimismo cristão, a sensação é que ambos enxugam gelo. Não importa o que façam, a realidade se reproduz em um looping infinito de catástrofe. A resposta não está em Deus. No meu caso, sobra a convicção de que ser latino-americano não pode ser reduzido a negativas, isto é, ao que não somos. Não somos subnações. Há um potencial incubado de luta, forjado na experiência coletiva de intensas opressões e explorações. Somos resilientes, fortes e combativos. Não somos subalternos. Só precisamos de outras construções de coletividade para mudar isso.

Quando eu visitei Buenos Aires, me lembro de uma sensação incômoda, sobretudo quando caminhava pelos bairros mais abastados. Se eu olhasse para o alto, veria imponentes construções neoclássicas, símbolos de riqueza e distinção, e ratificava a noção de que Buenos Aires era a Europa sul-americana. Se eu olhasse para baixo, entretanto, via calçadas desformes, sujas e mal cuidadas, e me lembrava que, mesmo maquiada, a latinidade se esgueira pela realidade argentina. Trapero me fez olhar para as calçadas novamente. Ainda bem.

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