Elizabetando, sobre cinema e História

“O passado é um país estrangeiro. Eles fazem as coisas de maneira diferente lá”.

L. P. Hartley, Mensageiro.

Animada com o post inspirado que o Rene escreveu sobre o delicioso “Amadeus” do Milos Forman, hoje eu vou reciclar um texto que escrevi para outro blog, em 2010, sobre um filme que gera bastante antipatia entre cinéfilos. Acho que isso se deve ao fato dele ter abocanhados um ou outro Oscar importante quando foi lançado, deixando gente muito mais carimbada de mãos abanando. Eu não vou dizer que o filme foi o melhor do ano (no contexto dos EUA), nem vou enunciar todos os aspectos nos quais ele perde para seus contemporâneos, nem vou falar das suspeitas de poderes escusos por parte dos irmãos donos da Miramax para levar as estatuetas, nada nisso. Só vou tentar apontar algo que me agrada nesse filme. Vamos ver se consigo defendê-lo, pelo menos em partes.

Eu vi “Shakespeare Apaixonado” , do John Madden, no cinema e gostei muito. Não sei por que, já que esse foi um ano profícuo para a indústria nos Estados Unidos, mas eu nutri de cara um carinho especial pelo o filme com o impressionante essemble de atores ingleses (com exceção de Gwyneth Paltrow e seu então namorado Ben Affleck). Só para mapear o cenário dos prêmios da Academia em 1999:

O favorito da disputa era “O resgate do Soldado Ryan”, que eu não gostei por causa dos quarenta intermináveis minutos de invasão da Normandia. Hoje, ironicamente, é justamente o que eu mais gosto no filme. Correndo por fora vinham “Além da linha vermelha”, do T. Malick, que na época eu achei bonito e mais interessante do que o concorrente bélico, e “Elizabeth”, de Shekhar Kapu, que alimentou minha esquisita obsessão por monarcas britânicos, sobretudo os Tudors. A zebra era o italiano “A vida é bela”, do Benigni, que eu achava lindo, mas ressentia, como todo brasileiro, pelo “Central do Brasil”. A outra aposta era “Shakespeare Apaixonado”, catapultado pela atuação elogiada da Gwyneth Paltrow e pelo Globo de Ouro de melhor comédia.  Foi justamente ele que acabou ganhando, o que muita gente considerou uma afronta.
Assim, o filme é uma bobagem histórica: mostra um Shakespeare galã mezzo afetado e uma fictícia história de amor proibido inspirando o mestre a criar sua obra prima “Romeu e Julieta”. É uma anedota sobre o processo criativo de um artista, a necessidade de uma musa, etc. E se for para ser chato e rigoroso, os problemas com a veracidade vão bem mais além, como a improbabilidade sociológica das pessoas transitarem pelos papéis sociais com uma enorme facilidade em uma Europa recém saída do medievalismo. Mas eu nem acho que a maior parte das críticas vem daí, certo? Acho que vem mesmo do enredo. Porque ao fim e ao cabo é uma comédia romântica bem nos moldes atuais. Não tem final feliz, mas isso não importa. O que fica marcado é o fato do filme não dizer muita coisa, não tem lá um grande argumento. É prosaico e ingênuo, com algumas tiradas boas do Geoffrey Rush, boas atuações, direção de arte impecável. E só.

Mas, olha, vou dizer, eu adoro justamente o fato do filme ser uma bobagem histórica. Porque veja. Ele se assume como algo realmente despretensioso. Não tem nenhuma intenção de retratar à imagem e semelhança a Inglaterra do século XVI. É tudo uma grande brincadeira.

É como aquele filme com o Heath Ledger e o Paul Bettany que toca David Bowie no baile medieval. Ou como o quando a gente vê um All-Star em meio aos adornos reais da monarca francesa no filme da Coppolinha sobre a Maria Antonieta.
Eu gosto muito dessa abordagem histórica no cinema, pois a considero honesta. Detesto filme que se pretende um fiel retrato de outro momento histórico. É impossível fazer isso, por mais neurótico ou James Cameron que seja um cineasta. É sempre um problema para mim. Convencer as pessoas de que “Coração valente” não é verídico. E que o conceito de liberdade, tal como o utilizamos, era desconhecido pelas populações que ocupavam, na Idade Média, o território da atual Escócia. Ou qualquer população do mundo mesmo. Porque este é um conceito da MODERNIDADE. E nós sabemos que modernidade só vem no século XVIII e dos franceses revolucionários. Portanto, é impossível que Mel Gibson grite por liberdade no mesmo sentido de emancipação política que temos hoje. Isso, para mim, é o maior pecado intelectual dos pretensiosos filmes históricos: anacronismo, isto é, desconsiderar que em outros momentos históricos os homens são guiados por outros valores, outras idéias e outros sentimentos. (Sem contar que o kilt também não existia na época, pois foi inventado, advinha? No século XIX!)
Não é simplesmente dizer que o filme é uma mentira. Não é. Mas é tão somente uma representação atual sobre um momento passado. O cinema não é reprodução da realidade, por mais que alguns desavisados acreditem que possa ser, mas representação sobre ela. Não importa o quanto o Mel Gibson (sempre ele!) acredite que ele possa recriar a paixão de Cristo atuada em aramaico.
Contudo, as pessoas realmente acreditam que foi daquele jeito que se deu a revolta de ‘Spartacus’ e tal e coisa. No senso comum, o filme histórico é verdade absoluta. E muita gente do cinema cai no engodo de ficar enlouquecendo buscando verossimilhança. E esquece que é preciso ter sempre em mente que tendemos a nos debruçar sobre questões regressas com a mente em nossos questionamentos presentes. Perguntamos sempre como o passado pode elucidar nossas questões. Com o cinema não haveria de ser diferente. O passado é sempre contado de forma a iluminar valores e idéias atuais. Serve de palco metafórico. Para problemas nossos e não deles. Além, é claro, de ter como principal objetivo, no caso dos EUA, o lucro comercial e o entretenimento.
Nesse sentido, “Shakespeare Apaixonado” é inusitado porque abraça o anacronismo. É como se admitisse suas limitações, sua intenção lúdica e despretensiosa. É apenas uma brincadeira. Uma brincadeira bem escrita, bem encenada, bem dirigida, sensível e divertida.

“Oi gata, quer tc?”.

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2 pensamentos sobre “Elizabetando, sobre cinema e História

  1. Bia, lindo texto. Estou convencido a olhar para este filme com mais boa vontade..eu, que torci para o “Ryan,,..” de Spielberg no Oscar e não suportei a tonta da Paltrow erguendo o oscar…Mas,eu concordo contigo sobre as intenções do diretor. Este nunca quiz fazer um retrato histórico (mesmo que muitas pessoas tenham saído so cinema versando teses sobre Sheakespeare), mas sim construir uma fábula romântica na carona de um personagem histórico. E cinema é a arte do disfarçe e da fantasia…então, vou procurar rever o filme bem mais desarmado, graças ao teu texto belíssimo…

    • Que bom, Rene! Fico feliz que o texto tenha te inspirado nesse sentido. O que mais gosto em “Shakespeare…” é justamente a ausência de qualquer pretensão. Acho que podemos interpretar sua vitória também como um posicionamento da Academia nessa diração.

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