Se Deus é menina e menino…

“XXY”, de Lucía Puenzo (2007).

No meio do caminho tinha uma pedra.

O argentino “XXY” é dilacerante. Não há outra maneira de descrevê-lo. Há tempos o cinema argentino vem dando provas de sua sagacidade, inovação e absoluta sensibilidade no tratamento de questões pungentes na vida contemporânea. Não é diferente com esse filme de 2007 (vencedor do prêmio da crítica em Cannes) sobre não uma menina, não um menino, mas uma pessoa “intersexo”.

Eu ousaria dizer que nada, absolutamente nada, é mais aceito socialmente do que a crença na diferença NATURAL entre os sexos. É verdade absoluta: seres humanos se reproduzem sexuadamente e se diferenciam em duas categorias (a partir de sua genitália sexual, hormônios e genes) entre homens e mulheres. “Meninos têm pênis e meninas têm vagina”, diz o aluninho do Schwarzenegger em “Um tira no jardim da infância” (1990, Ivan Reitman), clássico da Sessão da Tarde nos anos 1990. Um tanto incômodo, para mim, que uma frase dita por um fictício menino de 5 anos oriente a visão de mundo de (quase, ainda bem) todos nós.

Eu poderia, mas não vou, entrar na discussão sobre a desnaturalização dos sexos biológicos, Thomas Laqueur, Foucault, Judith Butler, etc, só vou dizer que isso é altamente questionável do ponto de vista científico e epistemológico, e que variamos historicamente em nossas concepções sobre os corpos sexuados. Há muito pano para manga aqui. Mas trabalhemos com a ideia de que sim, homens e mulheres são inexoravelmente distintos pela natureza, pólos opostos e complementares da espécie humana. O que fazemos, então, com quem está no meio?

Alex nasceu com genitália ambígua. Não sabemos exatamente como, mas entendemos que ela teria sido diagnosticada, ao nascer, como uma menina que teria elementos do sexo masculino, sendo recomendada uma cirurgia de “correção” que extirparia traços não-femininos de sua anatomia. Não sabemos exatamente por que, mas seu pai se recusa a submeter a criança à intervenção cirúrgica, mudando-se com a família para uma aparente pacata cidade na costa do Uruguai para evitar o julgo agressivo e hipócrita que ele acredita materializar-se na experiência metropolitana. Mais perto da natureza, mais longe do social, estaria Alex mais segura?

Agora Alex tem 15 anos, e passa por um ambíguo processo de amadurecimento ao entrar na puberdade: tem seios, mas precisa tomar medicações para que não se masculinize, é uma menina, mas tem pênis. Andrógina, Alex para de tomar seus remédios, permitindo que características aparentemente contraditórias coabitem seu corpo.

O filme se desenrola colocando o dedo em nossa ferida. A mãe de Alex não sabe lidar com a ambiguidade sexual da filha e convida um amigo cirurgião para convencer seu marido a operar a adolescente. O pai parece optar por esperar, não sem angústia e medo, que Alex se decida se será menino ou menina. Outros moradores da cidade espantam-se e tratam com violência, física e psicológica, a “aberração”. Alex, assustada e confusa, cresce à margem de todos, sozinha, e questiona, “e se eu não quiser escolher?”.

E se Alex não quiser escolher? Por que há de ser uma coisa ou outra? Por que Alex é menos “natural” do que eu? Estamos prontos, enquanto sociedade, para a escolha-não escolha de Alex? Conseguimos conceber uma identidade sexual e de gênero que exista transitando entre esses dois pólos aparentemente opostos? Autorizamos Alex a não ser uma coisa nem outra? Entendemos que existem diferentes maneiras de ser humano ou medicalizamos e “normativizamos” tudo que parece escapar ao nosso modelo explicativo e reiteramos o binarismo, condenando e perseguindo indivíduos que estão no meio e tensionam nossa frágil crença no que é “natural”?

Infelizmente, para Alex, parece que caminhamos no sentido de impedi-la de não escolher. Macho ou fêmea? Menino ou menina? Hetero ou homo? O tempo inteiro exigimos que as identidades se fixem, se apartem, se oponham. Sexo-gênero-sexualidade como condenações excludentes.

O mundo é cruel, Alex, eu sinto muito por isso. Pelo menos temos o cinema que pode – e deve – deslegitimar verdades e desconstruir identidades, mostrando o quão ingênuas e não obstante nocivas são as nossas convicções.

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