Como uma onda…

“A onda”, de Dennis Gansel (2008).

Professor aloprado.

 

Hoje falarei de “Die Welle”, o filme alemão baseado no experimento do professor americano que criou artificialmente, em sua sala de aula, a submissão de um grupo a um regime totalitário. Já havia um filme americano feito para a TV, de 1981, conhecido no circuito “meio intelectual meio de esquerda”. Mas o filme alemão deu ares de grandeza à antiga anedota contada sem muito critério por aí.

A história verídica é a seguinte: um professor de História na California dos anos 1960, incapaz de explicar aos filhos do baby boom fordista/taylorista do pós-guerra como é que a população alemã se submeteu ao nazismo e permitiu que uma série de barbaridades acontecesse durante o Terceiro Reich, fez um daqueles experimentos psicológicos duvidosos simulando um regime autoritário e fascista em sala de aula, para mostrar aos alunos o quão próximos estamos (sem saber) dos alemães das décadas de 1930-40.

Ele não esperava, mas a juventude californiana cumpriu realmente o requisito. Primeiro, veio a disciplina. Sentar de maneira ereta, responder sucintamente, respeito ao líder. Depois, a idéia de comunidade. Surgiram uniformes, saudações e símbolos. Por fim, a ação. Logo, ele tinha em suas mãos um microcosmo da Alemanha nazista: a mesma capacidade de obedecer ordens sem questioná-las, a xenofobia, o sentimento de pertença a um coletivo e a certeza de que esse coletivo era superior. “Poder pela disciplina, poder pela comunidade, poder pela ação”. Claro que tudo saiu do controle do professor e ele teve que acabar com o RPG picareta de maneira traumática*. Em nome da pedagogia, claro.

Já o filme novo traz a história para a Alemanha atual. A estética é demasiadamente videoclíptica e a resolução da história bem menos impactante do que a do made for TV americano. Contudo, o filme traz vários elementos para pensar o nazismo e as conseqüências dele para a Alemanha e para o mundo.

Dá para relacionar ao Adorno e suas “obediência cega”, “razão instrumental” e objetificação da vida humana. Dá para lembrar do Elias e de sua descrição da disciplina, burocracia e militarização do povo alemão após o Bismarck. Dá para lembrar do Weber falando da racionalização do mundo. Dá até para entender a argumentação da Hannah Arendt por ocasião do julgamento do Eischman, “eu só estou cumprindo ordens”. 

Mas quero falar de outra coisa. Que é a inquietação, a angústia, o desconforto e o desespero da vida moderna, desgarrada e atomizada, sem sentido, hedonista e egoísta – aliada, é claro, à dificuldade socioeconômica de sobreviver no neoliberalismo-, que fez com que esses jovens se apegassem a algo maior do que eles próprios e sentissem prazer nesta pertença.

Para mim, se trata disso: a busca pelo sentimento de coletividade, de comunidade, de não estar sozinho. A dupla revolução do século XIX nos libertou dos grilhões que nos prendiam à tradição, à família e à religião. No entanto, nos deixou livres demais. Soltos. Sem nenhum senso de direção. A sociedade não substituiu a comunidade de maneira eficaz, e os laços que nos unem juridicamente sob a tutela de um Estado nação não suprem a necessidade social de pertencer a um grupo coeso e forte.

E, pasmém. O discurso da busca por algo maior que confira sentido à existência do indivíduo não é só dos conservadores. Está na boca de muitos humanistas da esquerda que aludem a um edílico coletivo, onde possamos viver sem as agonias individualistas do capitalismo.

No caso dos jovens alemães, o caminho se dá via um neofascismo. Finalmente, eles fazem parte de algo. O sentido daquilo está embutido no próprio pertencimento. “Eu faço parte desse grupo e sou mais forte por isso. Eles são iguais a mim”.

Sem correr o risco de dizer uma bobagem antropológica, quando criamos o Mesmo (diriam os filósofos), o diferenciamos do Outro e deixamos claro quais indivíduos não são iguais a nós. Simbolizar é diferenciar e, quase sempre, hierarquizar. “Somos melhores por pertencer a esse grupo, quaisquer outros não são iguais a nós e não merecem o mesmo tratamento”.

Aí está a receita para o desastre que eu acho que o filme mostra tão bem. Buscamos freqüentemente pertencer, nos encontrar, ver um sentido superior em nossas ações. Tribos urbanas (embora eu odeie essa expressão), religiões, hábitos de consumo, gosto musical, torcidas de futebol e até faculdades. Há uma miríade de pequenos grupos com um enorme potencial violentamente fascista.

Em 2005, eu fui a uma competição de jogos universitários. Esse evento é uma conhecida olimpíada entre estudantes de engenharia. Esportes são disputados e, por fim, uma escola sagra-se campeã. A cidade sede era muito pequena, portanto, caminhávamos constantemente. Todos devidamente uniformizados com as cores de sua escola. Havia torcidas organizadas, gritos de guerra e provocações aos adversários. Estava presente também o sentimento de superioridade de cada grupo. Um sábado a tarde houve uma confusão. Alunos da escola privada de roupa vermelha entraram em conflito com alunos da escola pública de roupa preta. Em uma cidade de pequenas proporções, logo me vi (acompanhando amigos da escola de camisa azul e amarela) em meio a uma espécie de Jihad desmiolada. Pensei, na época, que se tratava de estupidez engenharística. Ingenuidadade minha, era potencial fascista mesmo.

Não cheguei a nenhuma conclusão, é claro. Penso de maneira dialeticamente truncada. Nunca há o momento da síntese.

Só que estou com isso na cabeça. Da busca pelo coletivo. Da negação do individualismo. Que, em certos momentos, pode levar à supressão da individualidade ou ao fascismo. E o quão próximos estamos de sermos levados a situações como a dos alemães de 30 e 40.

 

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