Suspenso na tradução

“Amor sem escalas”, de Jason Reitman (2009).

“George, cadê o tradutor da porra do nome do nosso filme?”.

Existe uma coisa que eu não tolero. Que são traduções mal feitas. Eu nunca esqueço, aquilo martela na minha cabeça para sempre. Há o famoso caso do filme da Coppolinha, cujo título ficou literalmente perdido na tradução. Eu tenho pesadelos com isso ainda. Acho uma injustiça. E agora tem esse filme do Jason Reitman. “Up in the air”, algo como “suspenso no ar”, que ganhou nome de comédia romântica com a Cameron Diaz. Pouca coisa é mais injusta cinematograficamente.

Tem um livro que eu gosto muito, um livro sociológico. ‘A corrosão do caráter’. O sociólogo, um americano, Richard Sennett, faz uma análise das relações entre o sistema capitalista contemporâneo e o tipo de personalidades e questões que ele tende a criar para os indivíduos. Ele, o Sennett, argumenta que a nova fase do capitalismo, caracterizada pela flexibilidade, ataca energicamente a rigidez da burocracia da sociedade moderna, as conseqüências da rotina e do controle dos tempos tayloristas, e os significados do trabalho tradicional capitalista.

Isso traz conseqüências gravíssimas para os indivíduos. O novo capitalismo acaba criando uma enorme ansiedade nas pessoas, uma vez que elas não sabem os riscos que estão correndo e não sabem onde poderão chegar, não sabem que valores defender, mas sabem que não existe longo prazo e que devem as vezes comprometer partes de suas crenças pessoais em prol de terem uma certa “segurança na instabilidade”, o quê acaba colocando em xeque o próprio senso de caráter pessoal.

De maneira geral, é o seguinte: o mundo do trabalho nos incita à mudança, à flexibilidade, ao desapego, à concentração em metas de curto prazo e à realização de pequenas tarefas sem o questionamento dos valores intrínsecos a essas atividades. Todas essas características são contrárias à nossa idéia de caráter, que envolve a construção de uma narrativa pessoal linear e de longo prazo baseada em valores éticos e morais e em relações duradouras.

O outro filme do Reitman pega em cheio uma situação que o Sennett fala no livro, o “Obrigado por fumar”, de 2005. Que é a situação do pai que não quer que o filho aprenda os valores que ele tem que defender no trabalho. O Aaron Eckhart é lobbista da indústria do tabaco. E ele é muito bem sucedido. Tem sucesso porque justamente abre mão de seus valores éticos pessoais em prol de sua meta no trabalho. Ele é cínico, no sentido oscarwilderiano mesmo. Ele só consegue pensar no objetivo de curto prazo: convencer que fumar é bom.

Veja, ele nem fuma. E ele sabe de todas as pessoas que morrem por causa do cigarro. Sabe de toda a calamidade. Não quer que o filho filme por nada no mundo. Mas esse é o emprego dele, é o que ele precisa fazer. E ele tem que ser bem sucedido, independentemente da natureza do seu trabalho. Veja, que para ser um bom profissional e ter dinheiro ele tem que ter flexibilidade moral. Ele acaba criando subterfúgios morais, né? Explicações. Ele pensa, “eu só uso da oratória, as pessoas têm livre arbítrio”. Ou, “se há demanda, por que não deve haver oferta?” E assim ele vai vender cigarro. Sem peso na consciência.

Isso acontece o tempo inteiro com as pessoas. De ter que pensar, “só estou fazendo meu trabalho”. Imagino que é o que pensa quem trabalha na Philip Morris. Ou presta serviço para ela. Eu sei que meu ex-chefe, um consultor de pesquisa, disse isso em uma reunião. Ele é um cara correto, bem intencionado. Mas prestou serviço para a Philip Morris. Ele disse, “tive que me desprender, né? De tudo que eu acredito”. Uma verdade sociológica. Ou como minha tia que tem que oferecer empréstimo para pobres. “É a lógica do mercado financeiro. Todos devem ser investidores”. Duas verdades sociológicas.

Nesse filme com o George Clooney, o Reitman acerta de novo. De pegar outro lado da instabilidade trazida pela flexibilidade. O desemprego, as demissões em massa. E o efeito devastador que isso tem nas pessoas. Nas suas vidas pessoais. Nas suas esperanças. No seu caráter.Na atualidade, o fracasso é o um fenômeno social abrangente, embora se insista no contrário. Mas as pessoas não estão aptas a lidar com esse processo. Sennett argumenta que, para superar o fracasso, é necessário buscar reconstruir a narrativa do eu, buscar coerência na própria identidade e no próprio caráter.

É uma situação horrível essa de ser demitido por motivos econômicos de força maior. Saber que não há outros empregos, que a vida só vai piorar. Que existem pessoas que dependem de você. E, pior, que você é provavelmente um bom funcionário. E pode até ter aberto mão de alguns valores pessoais em prol da empresa. É uma verdadeira tragédia contemporânea. Se você fez o que, normalmente, não faria, quem você é?

As pessoas, então, recorrem à família. Tem esses depoimentos no filme. “Só não desisti de tudo porque tenho o amor de minha mulher/filhos/pais/amigos”. A família acaba sendo o único laço coerente, durável, de longo prazo. É a família que segura um pouco o caráter, do ponto de vista sociológico. Pelo menos, por enquanto.

Olha a ironia. Sociologicamente, a família acaba sendo a base de tudo. O maior clichê dos álbuns do facebook.

E repare, o Clooney também tem um emprego horroroso. Assim como o cara do cigarro. Ele, o Clooney, demite pessoas. Só que ele é mais humano, em um sentido. Ele entende o que está fazendo, mas ao mesmo tempo ele nem se importa. O foco deve estar nos resultados. E ele tem sucesso. Mas quando ele se sente perdido, suspenso, sem direção, sem laços, sem caráter, é na família que ele vislumbra um relance de quem ele é. Só que é tarde demais para o Clooney. Não dá mais para ele voltar atrás.

Então, o filme do Reitman, para mim, é o melhor do ano. Deveria ter ganho tudo no circuito estadunidense, tudo mesmo. Só que tinha “Guerra ao terror”, que vitimiza os algozes soldados e o “Avatar”. Aquela bobagem 3D do James Cameron. Uma mistura de Pacahontas com Star Wars. Que reproduz clichês mentirosos sobre “populações nativas” e suas relações com o “meio ambiente” (um conceito bastante ocidental). Essa é outra injustiça que não tolero.

 

This land is our land.

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