O bom selvagem do espaço

“Avatar”, de James Cameron (2009).

Smurf cibernético.

Não gostei do Avatar. Não gostei do 3D, embora eu não tenha desenvoltura técnica para discutir isso, e não ache que ele seja um problema em si. É uma linguagem e pode ser bem manipulada. Aqui até que foi, mas não compensa os outros limites do filme. Não gostei dos homens azuis. Não gostei das atuações digitalizadas. Não gostei. Não concordo com as opiniões acerca do filme. Não vejo revolução.

Avatar é mais do mesmo do ponto de vista formal: estrutura linear, enquadramentos, arco dramático, trilha sonora. Não inova em nada, a não ser na técnica. Eu admito que James Cameron fez um esforço herculano na tentativa de entregar uma obra inovadora. Reconheço os louros. Mas forma pela forma, técnica sem conteúdo, bom, a tudo isso eu me rogo o direito de não gostar.

Já do ponto de vista político-ideológico, todo o enredo faz parte de um estupro histórico e antropológico: a forma como o Ocidente desmiolado tende a abordar tudo que não seja ocidental.

Há todo um problema nos próprios termos escolhidos para falar de qualquer população não-ocidental: “primitivos”, “tribos”, “nativos”. Todos com uma conotação de atraso, de ingenuidade, de pejorativo. E que indicam que existe o Nós, ocidentais, racionais, evoluídos, destruidores e superiores; e eles, os Outros, ilógicos, menos evoluídos, ligados à natureza, vulneráveis e fáceis de destruir. Avatar não é diferente. A história segue uma lógica pocahontasiana. Sem tirar nem pôr.

Exploradores gananciosos chegam a um paraíso natural e começam a extrair suas riquezas de maneira predatória. Um dos exploradores, o mais sensível, se envolve amorosamente com uma das “nativas”, curiosa e corajosa, filha de um líder político-espiritual local. Em meio à mata, perto do coração selvagem, o explorador aprende com o dominado que “homem” e “natureza” fazem parte do cosmos, estão ligados de forma intrínseca. Explorador, então, compreende e passa a contestar seu próprio mundo.

Com essa singela fórmula Cameron fez história. Supostamente.

E aí entra o meu problema maior. Porque dói tanto essa visão tacanha, oitocentista, etnocêntrica de que o “nativo” vive em comunhão com a “Natureza”. Essa imagem rasa do “bom salvagem” rousseauniano mesmo. Não é preciso ser antropólogo para saber que é uma construção. E DATADA. ULTRAPASSADA. A gente aprende lá nas aulas de literatura quando lê “O Guarani”, lembra? Que Peri não representa nenhum povo nativo brasileiro. Ele carrega em si valores europeus, tidos como perdidos no decorrer da história ocidental. Peri é uma idealização. É quase um cavaleiro da Távola Redonda. Só que sem roupa.

Então, não me venha com lero-lero. Não, Avatar não é uma metáfora da colonização. Não, não tem nada de novo. É só mais do mesmo, um filme que reforça nossa exotização e infantilização de outras culturas.

Sim, outros povos entendem a divisão Natureza X Cultura de maneira distinta. Assim como possuem outros modelos de desenvolvimento. Os sistemas de produção não são necessariamente baseados na acumulação, nem na circulação de capital.  Sim, dessa maneira, é lógico, não causam impactos tão profundos aos recursos do planeta. No entanto, isso não quer dizer que sejam atrasados, mais próximos da natureza, nada disso.

Exotizando o outro, o mundo “não-ocidental”, supostamente questionaríamos que o problema está no modelo. O nosso. Na acumulação. No excesso. O problema é todo nosso.

O homem ocupa de maneira predatória o planeta desde o surgimento dos primeiros hominídeos. Escreve nas cavernas, derruba árvores, mata animais para comer e usar o seu couro. No entanto, o homem destrói racionalmente e em escala global os recursos naturais há pouco mais de dois séculos, dentro do contexto do desenvolvimento capitalista comercial e industrial. Agora financeiro, né? Mas não é porque nós destruímos de maneira sistemática em prol da produção e do consumo que outras sociedades possuem uma ligação USB com a “Mãe Natureza”. Não é. Não é. Não é.

Por isso odeio Avatar. Contribui para o estereótipo negativo de outras sociedades como ingênuas e ligadas à natureza. Veja, a avó da Pocahontas é uma árvore.  Assim como a tal floresta no Avatar. E a gente não discute a questão. Que é nossa. Do nosso modelo. E que se embrenhou pelo mundo. E que não vai ser salva por nenhum “nativo”. Não vai ser mesmo.

Avatar 2D. Música melhor.

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