Byron com açúcar (e MTV)

“Crepúsculo”, de Catherine Hardwicke (2008).

Não se fazem mais ultrarromânticos como antigamente.

Finalmente assisti Crepúsculo. E achei, realmente, a pior coisa de todos tempos da última semana.

Cinematograficamente, o filme todo é uma bobagem e tem toda uma identidade visual/fotografia esverdeada que é para lá de esquisita. Não consegue ser nem previsivelmente bom. Nem isso. A Direção de Arte é patética, inexistente. Maquiagem, nem se fala. E os efeitos especiais, então, quando o vampiro cintilante leva a namorada para pular em árvores? Pff. Sem contar com as atuações sofríveis. (E olha que eu nem apliquei minha escala Brando-Sir Laurence Olivier para avaliá-los, porque seria uma sacanagem.) Mas o pior de tudo mesmo, para mim, é o enredo.

Vamos começar pelo vampiro. Eu até entendo que o ator seja atraente, mas qual é? Nem de longe parece alguém nascido no alvorecer da era vitoriana (supostamente, ele tem 109 anos), tampouco um adolescente contemporâneo. O tal do Robert Pattinson não achou o tom e eu fiquei me perguntando porque diabos a menina se apaixonou por ele. Bonitinho por bonitinho, o lobisomem-índio estava por lá dando sopa. Não sei se o problema é do ator ou do roteiro, mas considerando a falta de desenvolvimento emocional de todos os personagens, considero um furo do próprio enredo. Ou alguém realmente entendeu a família do vampiro na história? Por que eles são vegetarianos? Como ninguém percebe que eles são esquisitos? Por que não passam um blush naquela fuça branca?

Para alguém que, como eu, desconhece a história, não há nenhuma informação sobre o Edward. Só se sabe que ele estava morrendo de gripe espanhola. Mas morrendo onde? Quem era ele? Por que o pai-vampiro o “salvou”? O que aconteceu com ele nos últimos 80 anos? Por que ele se comporta daquela maneira?

Acho que a menina, tirando o inexplicável amor-Camilo-Castelo-Branco que ela sente pelo vampiro, talvez seja o personagem mais verossímil da trama. É uma adolescente normal, mezzo deprimida mezzo perdida e muito entediada, não tem muitas aspirações e absolutamente nenhuma profundidade emocional ou intelectual. Pais separados, cidadezinha do interior, classe média baixa americana. White trash. Ok, entendo, afinal qualquer coisa, até um vampiro que brilha, é mais interessante do que pensar no provável futuro como atendente do Wall Mart. Escapismo mode on. E até que a atriz convence, apesar de fazer uma Bella muito, mas muito, chata.

Por fim, tem o lobinho, de quem eu simplesmente não entendi a função. Ele é bonzinho e tal, mas, que cagada hein, sra. Meyer? Ir mexer com população indígena que tá lá quieta na reserva? Puta que pariu, hein? É por essas e outras que Brando recusou o Oscar…

Mas o que mais me incomodou no enredo todo foi não ter ligado a mínima para o romance dos dois protagonistas. Eu, francamente, diria Rhett Butler, “don’t give a damn”. Não consegui entender mesmo daonde saiu aquele amor sem fim. E como os adolescentes engoliram isso?

Daí eu fiquei lembrando que quando eu tinha 15 anos eu li o tal Amor de Perdição. E achei uma droga. Costumo dizer que era um romance que acabava por falta de personagem. É, porque é uma coisa bem doida, todo mundo vai morrendo de tristeza por não ter o grande amor. Tem gente até que se mata. Minha professora de Literatura então falou que eu tinha que entender o contexto do ultrarromantismo. E falou da “geração perdida”, que levara ao exagero os ideais do Romantismo, como a exaltação da subjetividade, do individualismo e do idealismo amoroso. Eu entendi, mas continuei não gostando. Mas eu tinha uns amigos, pelo menos uns três, que se identificaram mesmo com esse negócio de ultrarromantismo. Eles declamavam Byron e Fagundes Varela, e liam Álvares de Azevedo no cemitério da Consolação, além de ouvir Smiths e The Cure. E se apaixonavam perdidamente, também. Muitas vezes à primeira vista. E muito mais por uma idealização do sofrimento do amor romântico do que pela própria pessoa amada.

O Roland Barthes diz assim, no “Fragmentos do Discurso Amoroso”, que um grande exemplo dessa disposição romântica é o Werther do Goethe, que se apaixona mais pela tragédia de estar apaixonado e não ser correspondido do que pela própria Charlotte. E a Charlotte fica lá, uma personagem apática e vazia, sendo rodeada por um pavão macho doido.

Na minha adolescência, eu, bichinho racional e esquisito, achava uma bobabem tudo isso. Tanta coisa acontecendo no mundo, tanto problema para resolver, tanta injustiça e os caras lá querendo se matar por amor. Ah vá. Acho que por isso que fiquei com essa birrinha do Crepúsculo. Porque me parece a presunção byroniana dos meus amigos. E a maluquice do Werther. Essa coisa ‘amor-sem-fim-ai-meu-Deus-que-tragédia-e-agora?-Romeu-e-Julieta’ que o vampiro e a menina ficam vivendo sem nenhuma explicação. Mas, é claro, nem aos pés do Castelo Branco, do Byron ou do Álvares de Azevedo.

E o filme? Bom, o filme é totalmente descartável. Uma boa aula sobre o que não fazer no cinema.

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