As feridas abertas

“Nessas montanhas há um povo inteiro que perdeu tudo. Eles não têm mais lugar para esticar os cobertores. Eles foram insultados, contaminados,tornaram-se bêbados e motivo de piada.Você chama os responsáveis de cristãos e confia neles. Eu os conheço como brancos e não confio.” – John Russell

O cinema dos EUA, além de ter sido o precursor na divisão de suas produções em gênero (e , provavelmente, o único que ainda consegue fazê-lo com propriedade e clareza), sempre teve, desde sua gênese, o inerente objetivo de, por meio de uma boa parte delas, reconciliar-se com sua História, seja de forma apologética ou crítica, vide produções como O franco-atirador (The Deer Hunter, 1978, de Michael Cimino) e, indo um pouco mais adiante, Wall Street, poder e cobiça (Wall Street, 1987, de Oliver Stone).

O ano de 1967, em particular, nos trouxe uma película bastante representativa disto, dirigida por Martin Ritt, chamada Hombre, baseada em obra de Elmore Leonard (autor, também, de Jackie Brown, de Tarantino).

Quando assistido de forma descompromissada, é inevitável chegar à conclusão de que se trata tão somente de um western, sobre um homem branco – John Russell, também conhecido pela alcunha Hombre – o qual, após anos vivendo em uma comunidade apache – é comunicado de que seria o único herdeiro de seu pai adotivo, a quem abandonou anos antes para permanecer vivendo com os índios.

Ao dirigir-se à propriedade herdada – um hotel – decide vendê-la e, durante o trajeto de retorno para onde escolhera, deliberadamente, viver – é importante termos clareza de que esta deliberação foi voluntária – compartilha a diligência com elementos bastante representativos da sociedade preconceituosa de então, sendo, inclusive, obrigado a prosseguir viagem junto do cocheiro, quando são atacados por um grupo de ladrões. Cabe a Hombre, tentar recuperar os bens subtraídos.

À exceção de algumas lindas panorâmicas, registradas maravilhosamente em Technicolor, em cores vibrantes e imagens recheadas de textura, e da abertura magistral com fotografias de populações indígenas ao som da trilha de David Rose (compositor do tema da série de TV Bonanza), não há qualquer inovação em termos estéticos ou na condução do roteiro, o qual, por sua vez, é bastante linear em sua estrutura e condizente com a linguagem da época retratada (o que não poderia ser diferente). Não há, à exceção de Paul Newman no papel-título, em sua quarta parceria com o diretor, nenhum outro expoente em termos de atuação. Seria, portanto, um western, aparentemente, de pouca expressão, e convencional. E bastante, por sinal.

Mas Cinema é feito de múltiplas camadas e qualquer produção, por pior que seja, pode vir a se tornar interessante quando analisada algumas delas. E aqui Hombre se enquadra de forma inquestionável, quando analisada a trajetória de seu diretor.

Martin Ritt testemunhou o contraste, pós-Depressão, entre o Sul e a opulência de sua Nova York. Por seu viés ideológico de esquerda (apesar de nunca ter sido membro do partido comunista), foi perseguido e teve seu nome incorporado à lista negra, destinada a apoiadores de regimes comunistas. A desigualdade, a subjugação do indivíduo, o racismo, a discriminação fizeram com que toda sua produção tivesse como denominador comum a crítica ao Estado e à forma como este tratava sua população indígena e, também a parcela “branca” desfavorecida economicamente.

Percebe-se, portanto, que Hombre contém todos os elementos constitutivos da cinematografia deste cineasta, ao apontar a câmera para um homem branco, cujo desapontamento com a sociedade branca, racista e injusta, fez com que escolhesse viver entre a população indígena, tão aviltada e expropriada de seus direitos básicos, sendo condenado por aquela. Passando a ser considerado – e tratado – como um índio, denota-se outra característica marcadamente norte-americana: a Identidade constitui-se socialmente, independente das escolhas do indivíduo. Ironicamente, é aos despossuídos e desterrados a quem esta mesma sociedade recorre quando em risco de fenecer.

Hombre merece ser assistido em função destas observações. Ainda que não esteja entre os melhores de Martin Ritt, ao contrário de O mercador de almas (A Long Hot Summer, de 1958) e Norma Rae (Norma Rae, de 1979, Oscar de Melhor Atriz a Sally Field), é um filme necessário, principalmente pela pungência de alguns de seu diálogos, como demonstrado pela epígrafe acima.

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Um pensamento sobre “As feridas abertas

  1. Nunca vi “Hombre”, mas sou apaixonada por Norma Rae. Agora fiquei curiosíssima. Devemos aproveitar experiências mais combativas que se desenham no (quase sempre) ideologicamente previsível (mas não menos interessante) cinema estado-unidense.

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