Algumas dores se transformam em água, e também em filme.

“Elena”, de Petra Costa (2012). 

Pensei muito se seria prudente escrever algo sobre o filme que vi ontem. Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Brasília e muito elogiado nos círculos mais consagrados do cinema nacional, suponho que muita gente mais gabaritada vá analisar “Elena”, e com maior propriedade, por supuesto, mas resolvi encarar o desafio, uma vez que o filme me foi avassalador, um tsunami sinestésico. Ainda estou dormente e cheia de adrenalina. Espero lhe fazer jus.

Um dos impactos causado por “Elena” é a dificuldade de entendê-lo somente como filme somente documental. Mesclando gravações caseiras feitas por sua família com encenações e atuações; depoimentos verídicos com técnicas tradicionalmente associadas ao cinema de ficção, Petra nos presenteia com um mosaico lírico difícil de limitar a uma categoria fixa e rígida. Abusando dos desfoques, da profundidade de campo, do jogo entre real e invenção, da narrativa não linear, o que temos é uma abordagem extremamente inovadora em um gênero tão  interessante quanto desgastado. Abrindo mão da convenção pedagógica comum aos documentários, Petra entrega um sensível e intimista diálogo monológico, com o perdão do paradoxo, cheio de planos fechados, objetivos e/ou abstratos.

“Elena” borra fronteiras, expõe e esconde, escancara e protege a intimidade mais angustiante de uma família mineira. Petra nos concede corajosamente o direito de tatear vestígios, rastros e dúvidas acerca do suicídio de sua irmã mais velha, uma aspirante a atriz que sucumbe à depressão aos vinte anos. Treze anos mais nova, Petra busca reconstruir a trajetória, os sonhos e as dores de Elena, simultaneamente se aproximando  e se afastando das memórias e da presença da irmã.

Para mim, o filme é sobre Petra. Elena é um espelho a partir do qual a irmã caçula tenta delinear sua identidade e pensar sobre a dor e a vida, porque estas são inseparáveis. O suicida é um enigma social, ele embaralha as cartas do jogo, expõe nossas frágeis convicções, se torna autor daquilo que somos personagens. O suicida não mata só a si próprio, o suicida mata a própria morte. No caso de Elena, mata também todos a seu redor, que continuam a sobreviver, mas arrastando as correntes da culpa, do medo e da dor. E da dúvida, por que não? Quanto de Elena está em Petra? O quanto Petra pode se aproximar da irmã sem encontrar o mesmo desfiladeiro emocional? A arte que as une em vida também as unirá na morte?

O filme é essencialmente feminino. Em inspiração, execução e temática. As protagonistas são duas meninas, artistas, potências. As realizadoras são mulheres, da produção executiva à fotografia e montagem. Os assuntos são abismos das almas associados ao feminino.  Relegamos socialmente às mulheres o árduo fardo de manejar o luto, o amor, a família. Sinto muito pelos homens, então. Encarcerados em um universo bem menos sensível, bem menos humano. “Elena” é, portanto, uma lufada de ar e protagonismo de mulheres em uma arte tão masculinizada – e por vezes misógina – como o cinema.

Em “Matadouro nº 5”, um dos meus livros favoritos, o escritor estado-unidense Kurt Vonnegut faz um esforço metalinguístico, borrando real e ficção, de entender sua experiência como soldado na Segunda Guerra Mundial. Como alegoria para pensar o olhar para um passado doloroso, Vonnegut menciona o episódio bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra:

E a mulher de Lot, claro, foi orientada a não olhar para trás, onde todas aquelas pessoas e suas casas um dia estiveram. Mas ela olhou para trás, e eu a amo por isso, porque foi uma atitude muito humana.

Então ela se transformou numa estátua de sal. Coisas da vida.

Petra, assim como a mulher de Ló, foi humana, olhou para trás, mas não se transformou em estátua de sal. Pelo contrário: encarou e dançou com a perda, a morte, a memória e a dor. Seu primeiro filme é um primor. Estou dilacerada, mas encantada.

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2 pensamentos sobre “Algumas dores se transformam em água, e também em filme.

  1. Linda análise, Bia! Sensível e, ao mesmo tempo, impactante do ponto de vista formal e argumentativo. Quando da Mostra SP do ano passado, não tive a oportunidade de vê-lo, falha grave que será corrigida ainda nesta semana.

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