Sobre peixes no liquidificador

“O último tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci (1972).

Quem tem medo do Bertolucci?

Dia desses revi “O último tango em Paris”. Não sei se é mais interessante assistir ao filme ou assistir às pessoas assistindo ao filme. Dá para entender?  Se você reparar bem, a maioria das pessoas assiste franzindo a testa. No-jo. Incompreensão. Tá lá. Quiprocó psicanalítico. O sexo. Todo o sexo. Tudo imoral. Libertário. Libertino. Desespero. Suicídio. A tal da manteiga. Tudo isso vai contra tudo, mas *tudo tudo* que a sociedade judaico cristã supostamente acredita.

O limite. Para mim, é a palavra chave da experiência. O filme fica se equilibrando nas beiradas. Quais os limites? (E olha que eram outros limites no auge da tal revolução sexual). Sempre achei que aqueles personagens estavam testando limites. Pushing boundaries. Tipo, “até onde eu posso ir sem que me matem ou eu me mate?” ou “até onde a sociedade aguenta?”.

Só que, holista que sou, eu nem fiquei martelando muito a análise mais formal. Se é que é possível, né, enveredar pelo formalismo nesse caso. Tipo, utilizar parâmetros cinematográficos (roteiro, fotografia, edição) . Porque eu realmente acho que para ver “O último tango em Paris” é preciso saber como foi feito “O Ultimo tango em Paris”. Contextualizar mesmo. Sabe quando a gente tá na faculdade e aprende que não adianta só ler o texto? Que tem que saber quando foi escrito, qual era o público alvo, quem era o autor e por que ele escreveu sobre aquilo? Então.

Meu fascínio com “O Último Tango…” flana mais nesse sentido. De ser um filme pós-maio de 68. Da revolução sexual. Do contexto histórico mesmo. Mas também do caos psicológico que foi o set. Das mágoas guardadas pelos atores. Não é nenhum segredo que tanto a Maria Schneider quanto o Brando sofreram horrores antes/durante/depois de terem feito o filme. Tanto que é que Brando ficou muitos anos (talvez décadas) sem falar com Bertolucci.

Tem essa citação dela que eu gosto, sobre o filme. “Ele (Bertolucci) manipulava a todos no set. O próprio Brando disse depois que se sentiu estuprado pelo cineasta. Ele tinha 48 anos. E era Marlon Brando!”. Ela odiava o Bertolucci, diga-se de passagem.

Tem também uma anedota que todo fã de cinema conhece. Que anos depois do filme ter feito, Bertolucci encontrou o Marlon Brando e disse, “consegui tirar sua máscara, não foi?”. E Brando, divo absoluto, respondeu com um riso surpreso, “você acha que aquele sujeito era eu? Aquele era você!”. Sem palavras para Brando, invertendo a lógica de uma das coisas que mais me incomoda no cinema autoral dos anos 1960 e 1970, que é esse endeusamento do diretor.

Então que o Brando falou mil vezes, né? Que aquele Paul não tinha nada a ver com ele. Que ele mal conhecia aquelas sensações, aquelas explosões, aqueles limites. Sei lá se é verdade, Brando era bem maluco, mas ele disse que achava, ou melhor, tinha certeza que o filme era uma análise psicanalítica do sadismo do próprio Bertolucci.

Tudo isso para dizer que eu me peguei pensando no Bertolucci. Alucinado, né? Enlouquecendo os atores com seu método em prol da arte. Ou do seu ego, sei lá o quê. Porque era o auge do cinema autoral. E porque diretor podia tudo, tudo. E ele estava lá, testando os limites. Sei lá, “até onde eles me obedecem? quão longe eles vão?”. E eles foram longe. Tanto Brando, ator estabelecido e respeitado, homem maduro, propondo a fatídica cena da manteiga e contando memórias pessoais em cena, quanto a Maria Schneider, tão jovem, se submetendo a uma enorme humilhação. A Maria Schneider também já disse várias vezes. O quanto a enojou a cena da sodomização. E que as lágrimas dela eram de verdade.

Mas sobre a fala do Brando. Porque eu realmente acho que seja isso. Toda a sordidez, a violência e a hostilidade do roteiro estiveram presentes no set. O que o Brando fazia (enquanto personagem) era o que o Bertolucci fazia no set. Manipulava, violentava, destruía.

E o Bertolucci testava tudo. E ainda testou o público, né? Que cumpriu o requisito. E ficou chocado. “Ah, pornografia, que horror!”. Não aguentou a provocação. Mas não entendeu de verdade, eu acho. Ficou se apegando ao óbvio.

Daí que me lembrei aquela instalação do peixe no liquidificador. De um artista dinamarquês. Ele colocou peixes em liquidificadores. E as pessoas podiam ligar o botão. E matar os peixes, claro. Daí que tem essa história, não sei se é verdade, de que uma pessoa pegou o peixe, colocou na sacola e foi embora, horrorizada. E quando perguntaram para o artista o que ele pensava, ele disse que era isso que tinha em mente. Que as pessoas não simplesmente aceitassem a arte se ela envolvesse violência. Que as pessoas interviessem. Gosto da metáfora. Isso é algo que me incomoda bastante no cinema, dizer que cena de estupro que é estetização da violência… Mas isso é assunto para outro dia.

Ninguém interviu no Bertolucci no set. Nem Brando. Nem Schneider. Nem ninguém. E ele venceu. As pessoas matam peixinhos coloridos se for pela arte. Puta artista o Bertolucci, então. Eu acho, mesmo discordando dele. Mas quem tem razão mesmo é o Brando, né? Nenhuma novidade, ele era tudo aquilo mesmo.

Peixinhos no liquidificador.

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2 pensamentos sobre “Sobre peixes no liquidificador

  1. Bia, que bárbaro. Li que a Schineider (que morreu ano passado) nunca se recuperou, psicologicamente e artisticamente, da experiência deste filme. Morreu atormentada por um Bertolucci “Dulce”, no alge de sua tirania. Texro maravilhoso. Você é irritantemente talentosa…risos

    • Você que é um amigo generoso. 😀 Pois então, muitos acreditavam que ela embarcou numa espiral descendente justamente por causa das filmagens do “Tango…”. Uma das crueldades que o cinema imputa aos seus protagonistas.

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