As fragmentações do indivíduo

"Nunca estamos realmente vivos ou mortos. Apenas existimos."

“Nunca estamos realmente vivos ou mortos.
Apenas existimos.”

O festival de Sundance é mundialmente conhecido por ter sido fundado por Robert Redford; o que poucos fora do meio cinematográfico sabem, porém, é que o festival também está associado ao Sundance Institute, criado para fomentar a produção de filmes encabeçados por novos nomes, talentos em potencial, mas que, por estarem fora do mainstream, não conseguem financiamento, inclusive, para distribuição.

Algumas produções conseguem notoriedade. É o caso de Adorável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, de 2012, dirigido por Benh Zeitlin). Contudo, o objetivo neste momento é traçarmos algumas malfadadas linhas a respeito do filme ao lado, pouco conhecido, mas, ouso escrever, qualitativamente superior.

Martha Marcy May Marlene, de 2011, é o filme de estreia de Sean Durkin e tem por premissa a história de uma jovem recém-egressa de uma seita cujo líder, Patrick, protagonizado pelo brilhante John Hawkes (de Inverno na Alma), preconizava o amor, livre e compartilhado, como forma de reforçar os vínculos entre seus membros – homens, mas, principalmente, mulheres dilaceradas psicologicamente. O sexo com o líder era o passaporte de acesso à família. Desnecessário dizer, portanto, que esta seita tem semelhanças extremas com a Família Manson.

Durkin, no entanto, foge do lugar-comum, ao estabelecer uma narrativa, temporalmente elíptica, não somente sobre o cotidiano da seita, mas sim sobre àquelas – sim, pois o diretor não se furta a escancarar o machismo e misoginia inerentes ao culto – que, diante da impossibilidade prática da concretização da imagem mentalmente constituída a respeito do grupo, decidem tentar retomar a vida, sem a devida consciência das implicações futuras deste gesto. A jovem, protagonizada por Elizabeth Olsen (a irmã talentosa das gêmeas Mary-Kate e Ashley), é incapaz de discernir o passado vivido do tempo presente, representado pela convivência com a irmã e seu cunhado, alternando momentos de lucidez e loucura.

Ela é, portanto, múltipla, quase que infinita em si mesma. Ela é Martha, jovem traumatizada pela morte (?) da mãe e pela relação fria e distante com sua irmã mais velha. Ela é Marcy May – nome dado pelo líder, em mais um característica da seita de Charles Manson – submissa e alienada ao que lhe cerca, aceitando, sem questionar, a dominação masculina.

O filme, além disso, é inovador não somente pela abordagem a um tema tão delicado, para escrever o mínimo. Ele o é, também, por ser, em mais uma singela ousadia deste escriba, um Filme de Editor. A edição de Zachary Stuart-Pontier, ao conferir invisibilidade às transições entre os momentos experimentados por Martha (ou Marcy May?), consegue, com propriedade, garantir consistência e materialidade às suas dores e angústias.

O final abrupto, quase anti-climático, suscita discussões que, ao não chegarem a qualquer conclusão unânime, nada mais fazem do que reforçar a percepção fragmentada acerca da realidade da protagonista.

E isto, por si só, já o torna um filme merecedor de ser experimentado.

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4 pensamentos sobre “As fragmentações do indivíduo

  1. Jorge, muito bom…estou (já estava) inclinado para assisti-lo. Que elegância a sua para escrever, não é??? Poxa rapaz, muito bom !!!!!

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