A felicidade custa pouco, em Reais ou Tomans. Pouco?

Balão BrancoO balão branco (Badkonake Sefid, 1995) foi o primeiro filme para cinema produzido pelo cineasta Jafar Panahi¸cuja estética, até por ter sido concebido com recursos reduzidos, nos remete às produções neorealistas italianas, principalmente Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette) dirigido em 1948 por Vittorio de Sica.

Porém, enquanto na película italiana a câmera acompanha a angústia e tormenta atravessadas por um pai e seu filho tentando recuperar a bicicleta que lhes servia de meio de transporte e trabalho,em O balão branco, cujo roteiro é de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi, com seu instrumento de trabalho, segue uma obstinada e angustiada menina de 07 anos e seu irmão mais velho para recuperar os 500 tomans dos quais 100 seriam utilizados para aquisição de um peixe amarelo que, segundo as tradições persas, traria prosperidade para o Nowru, o ano novo que se iniciaria dali a 01 hora e 28 minutos.

Jafar Panahi domina sua arte como poucos. Durante toda a projeção nos apresenta, em detalhes aparentemente banais e dissociados da narrativa principal, elementos constitutivos fundamentais para compreensão do microcosmo iraniano, desde a desigualdade estabelecida entre o homem e a mulher no ambiente familiar até as relações estabelecidas nos espaços destinados para tal – a rua, o comércio. Ao priorizar as expressões faciais da protagonista, torna inevitável ao espectador o estabelecimento de vínculos emocionais com ela, tornando impossível não desejar adentrar a tela para ajudar a jovem garotinha a recuperar os 500 tomans.

Jafar Panahi domina sua arte como poucos. Permite ao espectador compreender que o filme é uma metáfora sobre a busca intransigente e obcecada pela felicidade, qualquer que seja para cada um – a felicidade não precisa exigir vultosas somas e varia em função da perspectiva da qual a observamos.

Mas é em vista da pena aplicada a ele por ter sido crítico ao regime iraniano – 06 anos de reclusão e, durante duas décadas, proibido de produzir, filmar, escrever e dar entrevistas – é que O balão branco, ao ser revisitado, permite apreender, de seu plano médio final, um argumento crítico essencial nele oculto, de forma magistral, pelo cineasta e que, por óbvios motivos, este humilde escriba não revelará. Não é por menos que este Sr. Cineasta – permitam-me a elogiosa deferência – foi agraciado com o prêmio Caméra D´Or em Cannes.

Jafar Panahi domina sua arte como poucos.

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4 pensamentos sobre “A felicidade custa pouco, em Reais ou Tomans. Pouco?

    • Vergonha nada…se for assim, também seria precisa eu desliza por um tobogã de gilette aterissando numa bacia de álcool, já que ainda não assisti a “Ace in the hole”…

      Tenho sim…

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