Aprendendo com o cinema industrial

Cuidando da Srta. Scarlett.

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
(Manuel Bandeira)

Sempre gostei muito de ‘… E o vento Levou’ (1939, de David O. Selznick). Eu tenho uma coisa inexplicável desde pequena com cinema em tecnicolor. Acho lindo, um espetáculo. E esse é o épico dos épicos mesmo, auge do cinema industrial e do star system. Filme de produtor megalomaníaco. Tudo em proporções elizabetanas. A Scarlett é super mimada. Ela acha que ama um cara que se casa com uma pamonha e fica de butuca para atrapalhar. No meio do caminho vão se dando tragédias pessoais e coletivas. Eu morro de amores por aquele dramalhão todo, pela cena da derrocada em Atlanta, o incêndio. Enfim.

Daí que, no filme, além das antológicas cenas do “nunca mais passarei fome” e do “frankly, my dear, I don’t give a damn”, eu gostava por demais da relação da Scarlett com a Mammy, né? A Mamy é a escrava gorda, intrometida e bem humorada da família O’Hara. Amo absolutamente tudo na cena em que Scarlett faz um vestido com a cortina. “Não, sennhorita Scarlett, essa cortina era da sua mãe!”, ouvimos Mammy bradar. O filme todo é um tal de “ai, senhorita Scarlett” para lá, e “ai, senhorita Scarlett” para cá. Eu adorava, na maior ingenuidade.

Por que fiquei pensando nisso? Porque li uma entrevista com a Mo’Nique na qual ela mencionou o Oscar  que ganhou por “Preciosa”, em 2010. Ela ganhou o Oscar de atriz coadjuvante, e agradeceu a Hattie McDaniel, eterna Mammy da Scarlett, primeira atriz negra a ganhar um prêmio da Academia, por ter aberto portas.

Saí lendo tudo que encontrei sobre Hattie e a Mammy. Descobri que eu não sabia quase nada. Não sabia que Hattie tinha sido empregada doméstica na vida real. Não sabia que ela não pôde comparecer à premiere do filme em Atlanta devido às leis segregacionistas. Não sabia que Clark Gable bateu o pé e disse que se ela não fosse, ele não ia. Mas, sobretudo, não sabia que Hattie enfrentou (e ainda enfrenta) uma enorme oposição por parte da comunidade negra norte-americana pelos papéis que interpretava.

Primeiro vou falar o seguinte sobre ‘..E o vento levou’. A história se passa ali em meados do século XIX e a Guerra da Secessão estava em vias de acontecer. Tanto o romance quanto o filme são extremamente conservadores ao mostrarem uma sociedade sulista idílica aonde os homens brancos são honrados, mulheres brancas são bondosas e escravos negros são felizes e fiéis à família que os possui. É um revisionismo mal intencionado mesmo. Tanto que o filme começa com a tal história da ‘civilização’ que “o vento levou”.

Por isso, o livro e o filme fazem parte de uma corrente chamada pelos norte-americanos de Lost Cause, a causa perdida da confederação, caracterizada pela defesa da ideia de que o sul escravista, na verdade, defendia de maneira nobre e heroica a sua terra contra o avanço industrial e moderno (não obstante condenado) vindo do norte. Dessa corrente faz parte também aquele famoso filme racista ‘O nascimento de uma nação’, de 1915, do D. W. Griffith. Bem, esse filme aí começa com o linchamento de um negro, para você ver, mas falemos dele em outra ocasião.

Voltando para a Mammy. Li alguns artigos do Museu Jim Crow de Artefatos Racistas, segundo os quais os movimentos políticos e intelectuais que se debruçam sobre as relações raciais nos EUA enfatizam justamente uma dura crítica à figura da ‘mammy’, vista como uma caricatura mentirosa e perigosa da situação das escravas domésticas americanas bastante difundida pelo cinema, pela literatura e pela publicidade. A ‘mammy’ não é só a escrava de Scarlett, ela é uma figura associadas às escravas no sul dos EUA. ‘Mammy’ é a escrava doméstica em geral. Prendada, obesa e dedicada,  ela vive para a família dos senhores, muitas vezes, se opondo até mesmo à sua própria. ‘Mammy’ atua como mãe de leite, cria as crianças brancas, cuida da casa, atura chiliques dos brancos e serve de conselheira à senhora. Além disso, é associada a uma mulher feia e gorda, quase assexuada. Hattie McDaniel era especialista em retratar tal personagem.

Contudo, analistas históricos argumentam que nada poderia ser mais longe da verdade. Não há registros da existência de ‘mammies’ no sul escravista. Para começo de conversa, raríssimas eram as escravas domésticas no contexto norte-americano. Além disso, há ainda a questão da maioria das mulheres negras ter sido utilizada como objeto sexual dos senhores. Nada mais distante, portanto, da assexuada ‘mammy’. Tem mais um monte de argumentos que se estendem, mostrando que ‘mammy’, enquanto personagem social, é tão (ou mais) fictícia quanto Scarlett e Rhett Butler.

Por que ‘mammy’ existe, então? Para os intelectuais ligados ao movimento negro, ‘mammy’ foi criada pelo próprio imaginário branco justamente para atenuar a violência e as atrocidades cometidas durante a escravidão. ‘Mammy’ não é escrava, é parte da família. Segundo esses estudiosos, foi somente após a Guerra de Secessão e a abolição da escravidão que mulheres negras passaram a ser empregadas domésticas de brancos, trabalhando como assalariadas. Contudo, foi nesse momento que ‘mammy’ surgiu enquanto estereótipo histórico, justamente quando não mais havia escravidão. A partir de então, ‘mammy’ esteve (e está) presente na publicidade, no cinema e no imaginário norte-americano. O site do Museu Jim Crow tem anúncios de farinha, filmes hollywoodianos, etc, mostrando a força da ‘mammy’.

[Veja, até hoje não são raros os personagens de mulheres negras maternais, gordas e assexuadas. Sem contar com o esterótipo da empregada-amiga. Lembro muito daquele filme horrível, ‘Crash’, numa cena em que Sandra Bullock abraça sua empregada mexicana que não fala inglês e diz ‘você é minha melhor amiga’. Tão parecido com a mentalidade classemedista brasileira que acha que a ‘serviçal’ deve carinho e lealdade a uma relação de exploração. ]

Por conta disso, ‘mammy’ é extremamente combatida nos EUA por aqueles que entendem o que ela significa: dominação, violência e mentira. E também por isso, Hattie foi bastante criticada. Até mesmo Malcolm X chegou a falar que, quando via interpretações de ‘mammy’, tinha vontade de “to crawl under a rug”, tamanho o disparate que via nessa figura.

Isso tudo eu aprendi, né? Com o Museu Jim Crow. Lá tem também outros estereótipos associados aos negros: a mulher promíscua, a mulher grosseira e violenta, o homem animalesco e perverso, etc.

E se a gente refletir um pouco, ‘mammy’ deu as caras por terras brasileiras também. A Tia Anastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, talvez seja o melhor exemplo da negra bondosa e maternal. Tem também o poema de Manuel Bandeira, um menino do Nordeste açucareiro, sobre a Irene, que está lá de epígrafe.

É claro que eu não pretendo confundir as coisas. Sei que, no Brasil, há diferenças nas relações entre escravos e senhores. No entanto, não posso deixar de me perguntar se seria mesmo tão diferente? Se ‘mammy’ realmente existiu por aqui? Se ‘mammy’ não seria, por aqui também, uma caricatura que serve para fins políticos e ideológicos de minimizar a violência da escravidão, o preconceito e a discriminação contra os negros. Serve de limpeza de consciência, né? Afinal se eu amo a tia Anastácia, como posso ser racista?

Mas isso tudo, é claro, sou eu especulando. Baseada no que eu aprendi hoje com ‘… E o vento levou’.

PS.  Hattie chegou a responder às críticas, dizendo que não se envergonhava de fazer papéis de empregada ou de ‘mammy’. Disse que era melhor ser empregada no cinema do que na vida real. É uma lógica imbatível essa…

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Um pensamento sobre “Aprendendo com o cinema industrial

  1. Bia, você já nos contou as idéias e descobertas oriundas deste texto. Brilhante, reflexivo e agudo…O cinema, talvez mais do que qualquer outra manifestação artística (mesmo mais que a Literatura) oferece a possibilidade de conectar assuntos desconexos ou não, aumentando nossa percepção sobre o meio, numa construção neural que nos consome…Brilhante o teu texto Bia….

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