Marvel e Política Externa

Escrito por Veridiana Domingos.

“Os vingadores”, de Joss Whedon (2012).

Nick Fury diretor da agência de espionagem SHIELD, chega a um centro de pesquisa remoto durante uma evacuação. O Tesseract, uma fonte de energia de potencial desconhecido, já ativada, abriu um portal através do espaço, do qual o deus nórdico Loki ressurgia. Loki leva o Tesseract (conhecido nos quadrinhos como Cubo Cósmico), e usa suas habilidades para controlar as mentes de várias pessoas da SHIELD para que eles ajudassem na fuga.

Em resposta ao ataque, Fury reativa a Iniciativa Vingadores. A agente Natasha Romanoff é enviada até a Índia para recrutar o Dr. Bruce Banner enquanto o agente Philip Coulson , vai até Tony Stark. Durante seu exílio, Loki encontrou os Chitauri, uma raça alienígena buscando conquistar a Via Láctea com o Tesseract. Em troca da Tesseract, os Chitauri concordam em ajudar Loki a dominar a Terra.
Capitão América, Homem de Ferro e a Agente Romanoff viajam para a Alemanha para exilar Loki, o qual está exigindo que os civis se ajoelhem diante dele. Depois de uma batalha com o Capitão América, Loki se rende e é escoltado de volta para um avião da SHIELD. E dai em diante o filme vai se desenrolando entre batalhas dos Vingadores versus Loki.

“Os Vingadores” poderia receber diversas análises críticas. O que me pareceu mais saliente é Os Vingadores como representação dos Estados Unidos, que, na história recente vêm ‘se vingado’ daqueles que (possivelmente) os ameaçaram. Em oposição aos EUA estaria a figura de Loki como uma representação das ‘ameaças’ dos Estados Unidos que hoje, certamente são vários dos países árabes.

O interessante é notar que inicialmente os super heróis estão em discórdia. Podemos fazer aqui uma analogia ao forte individualismo econômico do povo americano. Contudo, o espírito de união entre eles se acende quando um dos ajudantes da SHIELD (um senhor que colecionava figurinhas) morre morto por Loki. Isso gera um sentimento de comoção coletiva entre Os Vingadores que só aí, então, resolveu definitivamente se unir contra Loki, para acabar com ele. Muito parecido com o que aconteceu com os americanos sempre que se colocaram em “guerra” contra aqueles que “mexeram” com eles.

Em contrapartida, a figura de Loki pode ser vista como um terrorista que tentava ameaçar o mundo e contra o qual Os Vingadores vão se voltar e o derrotar. O motivo da disputa entre as duas partes é o poder sobre o Tesseract – que pensando na nossa realidade poderia ser as armas nucleares.
Loki possui as características de o que os EUA denomina como “terrorista”: alguém que está lutando sem motivo algum, que ameaça a paz mundial e que procura dominar e submeter os outros (o que o Islã faria, de acordo com o discurso norteamericano). Para isso,

Loki submete dois agentes da SHIELD para trabalharem a seu favor. Isso fica claro nas falas de Fury (o diretor da SHIELD) quando diz que não quer guerra, mas a partir do momento que alguém ameaçou o seu povo, ele deve tentar protegê-lo. Para empreender o que ele chama de “proteção” acaba arrasando cidades (no final do filme, a batalha se desenrola na cidade de Nova York) e matando civis. Esse é o mesmo discurso proferido pelos EUA desde 2001, quando uma aparente ameaça (os eventos de 11 de setembro) puxou o gatilho para que os EUA empreendesse a “Guerra ao Terror” aos países árabes. Somado a isso, tanto os EUA em relação aos países árabes, quanto Os Vingadores em relação ao Loki, se apoderam de um discurso que coloca o “inimigo” como um outro, perigoso e que “não pertence a este mundo” e por isso deve ser banido*.

Nesta tentativa de fazer uma ponte do filme com a Guerra entre EUA e países árabes, acho válido lembrarmos que o Homem de Ferro (Stark) em seu filme original, é sequestrado no Afeganistão, aparentemente por Talibãs, que o obrigam a construir algo para eles. É nesta situação que ele acaba por construir sua própria armadura.

O filme termina com uma batalha final entre Os vingadores e Loki na cidade de Nova York (coincidência ou não, foi onde se sucederam os ataques de 11 de setembro). A batalha arrasa a cidade e mata vários moradores. Ao longo da batalha, os policiais não conseguem ajudar os civis e o exército surge no meio da cidade. É válido utilizar essa passagem para falar sobre a constante militarização urbana que estamos vivendo hoje em dia. As cidades passaram a ser o alvo e o campo das guerras, sobretudo cidades árabes. Desta maneira, a polícia (que deveria proteger as cidades e manter a ordem em interna) tem sido sistematicamente colocada de lado em detrimento dos exércitos (que deveriam cuidar das fronteiras e das situações de guerra) que cada vez mais, adentram os espaços urbanos.

A ideia de que “vale” qualquer guerra e qualquer morte quando se trata da “proteção da humanidade” aparece novamente no final do filme quando civis dão seus relatos sobre a importância de Os Vingadores terem os salvados, embora terem arrasado a cidade e matado vários civis.

*Vale lembrar que esse conjunto de discursos que essencializam o “Outro”, gerando uma série de representações errôneas e distorcidas sobre ele, é o que Edward Said chama de “orientalismo” e é longamente utilizado para compreender as relações e os discursos empreendidos pelo Ocidente a respeito do Oriente.

 

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3 pensamentos sobre “Marvel e Política Externa

  1. Quando eu assisti o “Capitão América” eu tinha escrito umas coisas também, mas acho que perdi os textos. Os super-heróis são ótimos para pensar….

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