As lágrimas justificadamente amargas

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“Mesmo para um assalto você tem que se disfarçar de homem para ser levada a sério.”

Fogo de Palha (Strohfeuer, 1972) foi dirigido por Volker Schlöndorff (diretor do aclamado O tamborde 1979), em parceria com Margarethe Von Trotta (também a protagonista) e,  ao lado de R. W. Fassbinder, W. Herzog, Wim Wenders, entre outros, compuseram a vanguarda do cinema alemão na década de 1970, caracterizada por produções de baixo orçamento; porém, com extremo rigor técnico e apuro estético. Tinham, como prerrogativa básica, a criação de uma nova indústria cinematográfica, calcada fundamentalmente na qualidade em detrimento dos ditames comerciais vigentes no cinema europeu. Não por menos, este geração, que ficou conhecida como Neuer Deutscher Film, buscou suas influências nos Jovens Turcos franceses – François Truffaut, Jean-Luc Godard e demais companheiros – mas, também, nos mestres do neorealismo italiano, em especial Roberto Rossellini.

Os alemães, no entanto, ao contrário da Nouvelle Vague (sobretudo Truffaut), não se abstiveram de expressar suas críticas à sociedade por meio de suas produções. Fogo de Palha assume este compromisso.

Ao apresentar-nos a história de Elizabeth Junker, voluntariamente recém-divorciada, Von Trotta e Schlöndorff nos trazem um olhar sobre o feminino e a sociedade patriarcal. A economia, as interações sociais, a arte, enfim, tudo é instrumentalizado para salvaguardar e reproduzir as relações de poder capitaneadas pelo Homem. No entanto, não se limitam apenas a demonstrar o problema; ao contrário, por meio do diálogo travado entre Elizabeth e sua advogada, os diretores apresentam do quê a Mulher não pode prescindir para conquistar sua emancipação, indicando, inclusive, que, ao tê-lo feito outrora, consolidou a opressão da qual ela é vítima. Reconhecem, ainda assim, que seria praticamente impossível fugir desta situação, dada a forma como ela foi constituída historicamente.

Optando por manter certo distanciamento da personagem e suas relações – mérito, também, dImagee Sven Nykvist, diretor de fotografia de boa parte das produções de Bergman – os cineastas, acertadamente, fogem dos clichês, demonstrando, de forma dura, realista, angustiante e melancólica (vide a trilha sonora, fiel às condições emocionais de Elizabeth, e o claustrofóbico final, no qual a personagem se rende ao inexorável), o quão falacioso é o discurso de que não há desigualdade nas relações de gênero. A violência não é física, não é passível de ser constatada objetivamente; mas está lá, ainda que de forma simbólica e não menos traumatizante.

Há quem diga que um filme que se proponha universal precisa abstrair de questões locais características pertinentes a toda e qualquer sociedade. Fogo de Palha, ao retratar sem eufemismos a violência à qual a Mulher ainda hoje é submetida, sem sombra de dúvida, merece esta qualificação.

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2 pensamentos sobre “As lágrimas justificadamente amargas

    • Fico feliz com seu comentário, pois ele me assegura que pude processar, adequadamente, o que conversamos a este respeito ao longo deste anos…

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