“Eu não falo a verdade. Falo o que deveria ser verdade.”

“Um bonde chamado desejo”, de Elia Kazan (1951)

Leigh e Brando imbatíveis.

Estou aqui para falar de novo dele, o meu “muso” absoluto. Li a biografia do Marlon Brando (Songs that my mother taught me, 1995) com tanto entusiasmo que até esqueci que foi tudo ditado para um ghostwriter. Relevei completamente, eu dou a Brando prerrogativas que não dou a ninguém. O livro tem passagens assombrosas para quem gosta de cinema, uma das minhas prediletas é quando ele conta sobre a primeira montagem teatral de “Um bonde chamado desejo”, dramaturgia do Tennessee Williams laureada com o Pulitzer em 1947.

Tanto a peça quanto o filme subsequente, de 1951, foram dirigidos por Elia Kazan e estrelados por Brando, Karl Madden e Kim Hunter. Só aí já dá para escrever uma dissertação. Eu podia perder um bom tempo falando do Kazan, diretor de origem grega que conseguiu unir Broadway e Hollywood com sensibilidade e rigor estético de maneira inédita (até hoje, eu diria), introduziu a atuação metódica entre os atores norte-americanos ( ele foi cofundador do Actors Studio), e foi protagonista de uma contenda política mal resolvida ao ser acusado por alguns colegas de ter corroborado com a perseguição macarthista à “ameaça vermelha”. Eu podia falar sobre a importância dele para o cinema dos EUA e do mundo (Kazan era considerado por Kubrick o melhor cineasta nas terras do tio Sam), sobre os filmes com temáticas sociais e psicológicas, sobre o enfoque realista, blablabla. Só que não vou. Deixarei para falar disso depois, quem sabe, com “Sindicato de ladrões”, de 1954.

Hoje eu quero falar de “Um bonde chamado desejo”. Eu acho que esse é meu filme favorito de todos os tempos. Isso, por si só, já é bastante esquisito, porque nunca fui afeita a escolher predileções. A maior surpresa, entretanto, é por não ser pelo Brando, mesmo ele estando estupidamente bem sucedido como aquele  biltre polonês, o Stanley Kowalski. Mas é por causa da Vivien Leigh. E da Blanche DuBois, personagem que ela interpreta no filme. Eu só vou delinear aqui algumas reflexões que as memórias do Brando sobre ambos peça e filme me suscitaram.

Talvez faça mais sentido para quem é sensível. Talvez faça mais sentido para quem conheça o desequilíbrio, o deslumbre, o faz-de-conta, a carência e o escapismo. Talvez faça mais sentido para quem conheça a negação da brutalidade do mundo. Talvez faça mais sentido para quem entenda que a frivolidade pode ser um casulo, uma forma de autodefesa. Talvez faça mais sentido para quem se apega à delicadeza. Talvez faça mais sentido para quem compreende a mentira. De qualquer forma,  “Um bonde chamado desejo” é quase um tratado sobre o estatuto que damos à vulnerabilidade, à cortesia, à gentileza. Coisas de menina.

É importante ressaltar a questão de gênero. Porque todas as características da Blanche são associadas ao extremo feminino. Ela é sensível, sonhadora e apegada a ideais de beleza, delicadeza e refinamento. E o tempo inteiro, e esse é o papel do Stanley, vemos como essas características são ineptas para o mundo, porque denotam fragilidade e hipocrisia. E maluquice também, por supuesto.

O Brando conta no livro sobre a delicadeza e suavidade do Tennessee Williams e como isso foi brutalizado pela sociedade norte-americana da sua época. “[Tennessee] nunca mentia, nunca dizia nada ruim sobre alguém, e sempre foi inteligente, mas viveu uma vida de dores. Se nós tivéssemos uma cultura que desse suporte e assistência para um homem delicado como Tennessee, talvez ele tivesse sobrevivido.” Esse foi o jeito sensível e delicado que Brando encontrou para falar da repressão heteronormativa que Tennessee sofreu em toda sua vida.

E aí vem a importância da Viven Leigh para isso tudo. Na primeira montagem teatral, foi a Jéssica Tandy que fez o papel da Blanche. O Brando, apesar de admirá-la e respeitá-la, sempre achou que ela deu o tom errado ao personagem. “ Eu não acho que a Jessica tinha a finesse e a feminilidade cultivada que o papel exigia, nem a fragilidade que o Tennessee imaginou. Na sua visão, havia algo puro em Blanche DuBois, ela era uma borboleta machucada, macia e delicada, enquanto o Stanley representava o lado sombrio dos seres humanos. É verdade que a Blanche era uma hipócrita mentirosa, mas ela mentia para salvar sua vida, mentia para manter suas ilusões vivas.”

A ideia do Tennessee, o Brando conta, é que o público sentisse pena e compreendesse a Blanche. Porque ela só é culpada de ser sensível, frágil e doce em um mundo masculinamente brutalizado e cruel. Por isso, ela se torna patética.

A Vivien Leigh está perfeita. Todo mundo sabe que ela era bipolar e que sofreu por toda a vida com seus transtornos. O Laurence Olivier, que foi seu marido, conta que ela conseguia saber quando perdia a lucidez e isso a angustiava horrores. Todo mundo também acha que ela não soube separar muito bem a Vivien da Blanche. Isso não a desabona como atriz metódica, eu acho, e eu nunca vi nada parecido com a atuação da Vivien no filme. Porque ela entende realmente o que significa ser a Blanche DuBois. O Brando concorda, “[Vivien] era Blanche. [Sua vida] tinha tantos paralelos com a de Blanche, especialmente quando sua mente começou a enfraquecer e sua consciência de si mesma ficou vaga.”

O Brando também conta no livro um pouco sobre como o Tennessee Williams concebia o Stanley. Ele queria fazer do Stanley um exemplo de como a guerra havia corrompido os jovens meninos americanos. Então, aquele jeito bruto, violento e incoerente seria mais ou menos um efeito de desumanização causada pelo ambiente de batalha na construção da masculinidade. E também pela sociedade brutalizada como um todo, mas que tenta moldar os meninos à sua imagem e perfeição. Então, olha que coisa, apesar de tudo o Tennessee não queria que odiássemos o Stanley. Ele não é vilão, é uma espécie de vítima também. Veja você.

E a Stella, né? Você me pergunta. Eu destesto a Stella, mas sinto pena. Porque ela está de mãos atadas. Ela sabe que o Stanley é um pulha, um grosseiro violento, mas não consegue romper com o fascínio. Nenhum de nós consegue.

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