FLIGHT / O VOO (2012) – DIRETOR: ROBERT ZEMECKIS

O VOO

Após um longo período filmando animações na tecnologia Caption-Motion, como Expresso Polar (2004) e A lenda de Beowulf (2007), Zemeckis volta a filmar um filme convencional, ao menos em seu formato narrativo e técnico, entregando o Drama O Voo. O Diretor não filmava com atores reais desde O Náufrago (2000), e após entregar este último filme mostrou-se obcecado pelas tecnologias de animação, criando um estúdio (ImageMovers), e dedicando quase 12 anos de sua produtiva e marcante carreira investindo em tecnologias inovadoras que pudessem ampliar o potencial do cinema. Decerto contribuindo para a evolução científica da arte (e como James Cameron, Zemeckis sempre se mostrou confortável com o aspecto técnico-científico da indústria), o seu estúdio criado especificamente para este fim acabaria falindo em 2011, resultado dos últimos projetos malsucedidos, principalmente o último, Marte Precisa de Mãe (2011).

Voltando ao filme, a história começa numa manhã qualquer para o piloto Whip (Denzel Washington, em grande atuação), num caótico e bagunçado quarto de hotel. Econômico, num pequeno plano, Zemeckis nos mostra a vida de um homem desequilibrado através daquilo que está em volta: garrafas de bebidas, móveis deslocados, roupas jogadas pelo quarto. O Plano termina em Denzel, cansado, com olheiras e terrivelmente desleixado para quem vai pilotar um avião comercial dali poucas horas. Com o seu extraordinário talento narrativo, o diretor, nos 5 primeiros minutos do filme, inicia os primeiros traços do estudo de personagem de um homem aparentemente perdido e consumido por uma vida errática.

Mostrando que os 12 anos sem dirigir atores não lhe deixaram enferrujado, Zemeckis entrega um eficiente drama através de um arco dramático eficiente e simples, acompanhado a viagem de um homem, perdido em seu labirinto, que, mesmo após a extraordinária façanha de ter salvo dezenas de pessoas de um acidente aéreo aparentemente fatal, revela-se durante a trama, fraco e quebrado emocionalmente, apoiando-se na bebida e na vida errática que leva.

Como procedimento padrão, as autoridades que investigam o acidente acabam descobrindo garrafas de bebidas na lixeira do avião. Após um tempo, o óbvio acontece e Whip acaba sendo investigado sobre uma possível negligencia no exercício da pilotagem. E mesmo considerando seu heroísmo ao salvar as vidas dentro do avião valendo-se da sua habilidade incomum de pilotagem, Whip de fato voava, no momento da crise, alcoolizado. E esse é o grande dilema moral do filme (e esse moralismo do diretor se acentua no final numa cena dispensável).

E aqui Zemeckis mostra seus diferenciais: como excelente diretor de atores que é, devolve Denzel no trilho das grandes interpretações. E como tem faro para bons castings, escolhe coadjuvantes afiados para segurar a estrutura narrativa, onde Don Cheadle e John Goodman (este último, hilário) servem de tabela dramática para vários bons momentos. Não acreditei, no entanto, na tensão romântica do Whip por uma mulher, igualmente viciada, que se desenvolve durante o filme. Os melhores momentos são quando Whip visita sua própria consciência, onde ele revisita os sentimentos e relações que ele destruiu ao longo da sua vida: Com a ex-esposa, com os filhos, com os amigos, com a profissão, consigo mesmo…

Digno de nota é a espetacular sequência do acidente aéreo. Zemeckis realmente sabe filmar acidentes aéreos como ninguém (como não se lembrar da assustadora sequencia de O Naufrago??), em planos inusitados, inteligentes e até econômicos (ele mostra o choque do avião no solo pela perspectiva do retrovisor de um carro, e não próximo do avião, o que seria a decisão convencional  – e consideravelmente mais cara – a ser feita). Nem o desafio lógico de virar um avião de ponta cabeça (uma fantasia técnica: um avião, em iguais circunstancias, desmembrar-se-ia ainda em voo, uma vez que os esforços estruturais de uma nave como aquela resistem a torções infinitamente menores) estraga ou compromete o filme, narrado por Zemeckis como uma fábula adulta de autodestruição e redenção, na estrutura narrativa mais americana dentre todas as outras.

Filme primoroso tecnicamente e de sólidas interpretações, O Voo teve lançamento tímido no brasil, mas  que merece ser explorado e visto.

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