Cinema-paixão: um manifesto de cinéfilos

A posposta que fazemos é a de adotar uma determinada abordagem em relação ao Cinema. Abordagem própria, que desenvolvemos a partir de nossas trajetórias individuais e relação com os filmes. Abordagem apaixonada, porque somos, acima de tudo, apenas sujeitos encantados com as diferentes formas encontradas para contar histórias a partir de imagens em movimento. Histórias que comovem, sensibilizam, chocam, entendiam, enojam, indignam e interagem com nossas emoções, visões de mundo e verdades mais arraigadas e escondidas.

Aqui propomos, quiçá radicalmente, uma abordagem construída a partir de reações a filmes, e de que maneira muitos deles nos tocaram tão profundamente a ponto de realizarem verdadeiras jornadas internas em nossa postura diante da vida, diante do mundo. Aprendemos a sentir, a pensar e a existir com eles. Buscamos ser outros dentro de nós. Caminhamos com eles por apartamentos, pelo espaço, pelas barricadas, pelo o que de mais íntimo e sorrateiro em seres imaginados. No cinema, somos nós e somos muitos. O cinema é a quarta pessoa do plural.

Existem diversas e distintas – mas não incompatíveis – maneiras de pensar o Cinema e sua produção. Podemos, por exemplo, eleger um modelo de parâmetros cinematográficos formais para entender quais filmes e/ou cineastas imprimiram mudanças neste campo artístico ao trazerem inovações estéticas que romperam com padrões e narrativas anteriores. Essa é uma forma bastante próxima daquilo que fazem alguns acadêmicos e críticos de Arte. Não estamos recusando, tampouco criticando, essa abordagem, mas não é dela que nos aproximamos. Não vamos fazer essa espécie de Elogio da Vanguarda. Nem poderíamos nos permitir tamanha ousadia.

Há a possibilidade, também, de fazer um apanhado histórico sistemático de escolas e tradições cinematográficas, mostrando um processo evolutivo, que começaria, acredito, nos primórdios das invenções técnicas, passando pelo cinema silencioso, vanguardas estéticas, avanços e retrocessos, culminando em peripécias atuais. Essa também não é uma possibilidade menor, só não é, novamente, aquela que propomos.

É claro que lançaremos mão, muitas vezes, dessas duas abordagens. O intuito não é rejeitar, muito pelo contrário. Quanto mais as dominamos, mais expandimos nossa experiência sensorial e reflexiva com os filmes. Avançamos em camadas e os compreendemos de maneira mais holística, mais rica, mais engrandecedora. Contudo, nossa relação com os filmes não permite que façamos nenhuma das duas com excelência e acaba por reprimir nossas melhores possibilidades.

Não somos pensadores do Cinema. Nós pensamos (e sentimos, dado que não são excludentes) com o Cinema. O que podemos oferecer, então, é essa obsessão – que Truffaut chamou de neurose – por se emocionar, se construir e se modificar a partir do Cinema.

Portanto não espere aqui uma história do cinema ou meras apresentações assépticas sobre obras pioneiras e inovadoras. Não espere que reiteremos a separação entre baixa e alta cultura. Não espere cinismo e presunção. Alguns filmes e cineastas ficarão de fora. Outros parecerão inusitados e descabidos. Discordaremos sim, e enfaticamente. Perderemos o fio da meada. E nos emocionaremos. Penso que o que caracteriza um cinéfilo seja a impossibilidade da indiferença. Assistir a um filme pode – e deve- ser uma atividade criadora, ativa e dinâmica. Um jogo de emular sensações, procurar referências e tentar se deslocar. Se apaixonar. Catarse.

Esse é o nosso Cinema, com maiúscula sim, posto que entidade, mas não somente um punhado de regras, planos, campos, contracampos, closes, sequências, linguagens, formatos e escolas. Cinema-paixão.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Cinema-paixão: um manifesto de cinéfilos

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s