O pior das melhores coisas

Pôster_As_Melhores_Coisas_do_Mundo“E lembre… pra acertar, primeiro a gente precisa saber o que que tá fazendo de errado.”

Laís Bodanzky, podemos dizer com certa segurança, revelou-se ao mundo como cineasta com o brilhante e claustrofóbico Bicho de Sete Cabeças (2001), inspirado na obra autobiográfica de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos, protagonizado por Rodrigo Santoro. Nele, a diretora apresenta os anos de internação compulsória de um jovem em uma instituição manicomial, pelo simples fato de ter sido flagrado com um cigarro de maconha. Desde então, ela é presença garantida nos festivais e mostras realizados no Brasil e foi produtora do longa-metragem de animação nacional, Uma história de amor e fúria (2012), realizado por seu marido, Luís Bolognesi.

A despeito de tudo isso, é uma das poucas mulheres cineastas no cenário nacional, historicamente masculino. O que já a faz merecedora de ter todos os seus filmes distribuídos e assistidos. Mesmo quando de qualidade – bem – discutivel.

Em 2010, ela retorna ao universo juvenil com a película sobre a qual se refere este post, As melhores coisas do mundo. Inspirado na série literária Mano, escrita por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, o filme mostra um período na vida de um adolescente da classe média paulista chamado Hermano e todas as suas angústias e dilemas característicos de seus 15 anos e as relações por ele constituídas em uma escola particular típica da classe média paulistana. Agrega-se a esta existência, já tão sofrida, um pai de família que, após um casamento, dois filhos, se assume homossexual em uma relação com seu orientando de mestrado.

Em uma primeira leitura, o filme é ruim.

E é mesmo. As movimentações de câmera são convencionais, ainda que haja algumas boas tomadas da cidade de São Paulo. A edição não faz feio; a edição e mixagem de som, no entanto, deixa bastante a desejar (pelo menos na cópia a qual tive acesso). Há o talento de Denise Fraga (a mãe), Zé Carlos Machado (o pai) e Gustavo Machado (o orientando) – como curiosidade, ambos atuaram juntos, desta vez como protagonistas, do também deplorável Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, de Beto Brant. Há também Caio Blat (no papel do professor jovem, alvo de paixões platônicas, em clara referência ao personagem de Louis Garrel em A bela Junie, de Christophe Honoré), Fiuk (o irmão mais velho, em processo de desfragmentação amorosa) e Paulo Vilhena (o professor de violão, conselheiro de Mano, bicho-grilo sempre a bater palmas diárias para o pôr-do-sol). E só.

O elenco adolescente merece um parágrafo à parte. E não porque ele atue mal. Longe disso. É visível, pela forma como ele protagoniza o roteiro, que ele não está atuando. A discriminação de gênero, a objetificação das relações, o vocabulário limitado e, principalmente, a total alienação a tudo que lhe cerca, presentes no roteiro, nos faz perceber que a juventude contemporânea da classe média paulistana dificilmente, quiçá nunca, lutará pela correção das desigualdades sociais e econômicas de seu município e, principalmente, do país. E se tornará, ou melhor, já se tornou, mera reprodutora de preconceitos e padrões de comportamento conservadores e reacionários historicamente estabelecidos.

Laís Bodanzky se exime do papel de tocar o dedo na ferida e de apresentar um viés crítico que atingisse o público-alvo de seu filme, tirando-o da letargia mental em que se encontra. Pelo contrário; ao fazer planos amplos, distantes, pelo buraco da fechadura ou mesmo a partir da caixa do violão, maltratado sem piedade pelo protagonista durante sua tentativa, bem sucedida, de estraçalhar com a música Something, dos Beatles, Bodanzky deixa bem claro que seu intuito não era fazer a crítica mas, tão somente, apresentar as coisas como são.

Em determinado momento, o personagem de Paulo Vilhena, em carta entregue ao protagonista, apresenta a citação deste post – Laís Bodanzky não seguiu seu próprio conselho, fazendo com que seu filme, em uma segunda leitura, permaneça ruim.

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3 pensamentos sobre “O pior das melhores coisas

  1. Bravo, Jorginho! Só discordaria que a escola do Mano seria uma “típica escola particular de classe média paulista”. Aquela imitação “prafrentex” do Equipe é um cacoete muito comum na Zona Oeste, esse pessoal da linha verde do metrô, mas totalmente diferente das demais experiências escolares menos “papai tem doutorado” que encontramos por aí, mesmo entre a elite. 😀

  2. Você tem toda razão…refletindo melhor, eu deveria ter escrito que se tratava de uma escola progressista, segundo “o que a classe média entende por progressismo”, mas que, na prática, só desenvolve aprendizes do Zagallo!

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