“Em Hollywood, uma mulher pode ser uma atriz, uma cantora, uma dançarina, mas não deixam que ela seja muito mais do que isso.”(Barbra Streinsand)

Barbra e Kathryn, a “ex-mulher de James Cameron”, como diz-se em Hollywood. Ficou tão claro o “faux pas” machista do passado que a Academia chamou a veterana para anunciar a vencedora em 2010, rompendo o protocolo.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas hollywoodiana premiou em 2010, pela primeira – e única vez, uma mulher na categoria de melhor direção. De maneira política, muito me agrada que uma mulher tenha ocupado esse espaço tão restrito. Em mais de oito décadas de premiação, foram quatro as mulheres indicadas nesta categoria de prestígio. Quatro.

Longe de mim, então, desmerecer conquistas de mulheres em espaços simbolicamente masculinos, por vezes até misóginos. É uma vitória sim, a Academia sempre foi abertamente sexista. Até gente que não tem nenhum interesse militante já reclamou dessa incapacidade de seus membros em reconhecerem demandas feministas. Além disso, embora muito se alarde o crescente aumento do espaço da mulher na cadeia produtiva, pouco se discute as diferenças de nuances e status simbólico dos papéis ocupados pelas mulheres ‘libertas’ no mundo do cinema. Quase sempre é assim: mulher atua e homem dirige. Mulher é musa, homem é gênio. Mulher (as vezes) escreve, homem transforma em filme. Mulher faz o figurino, homem faz os efeitos especiais. Para elas a direção de arte, para eles a de fotografia. Há uma divisão de trabalho bem clara pautada pelo gênero aqui. E acontece que cada função vem recheada de valores simbólicos.

No cinema estadounidense, as mulheres quase sempre aparecem a partir de uma perspectiva masculina: são os homens que escrevem o roteiro, eles que produzem, eles que dirigem. Existe um ou outro filme que até tenta contemplar os papéis femininos, mas em geral mulheres são vistas através de um espelho, são quase um espectro do que representam para quem está contando a história: o rapaz. Lembremos do incrível Bechdel test, brincadeira que escancara o viés de gênero na cinematografia ianque. (Faça você mesmo: escolha um filme qualquer, veja se existem duas personagens mulheres que interajam entre si e conversem sobre algo que não seja homens. Viu? Quase nenhum filme passa). Sendo assim, o Oscar 2010 foi político, foi posicionado, foi mea culpa. O mesmo havia ocorrido em 2006 quando Denzel Washington e Halle Berry levaram as estatuetas douradas do Oscar reflexivo sobre a questão racial para casa.

Não há problema nenhum na Academia se posicionar. Ela deve, embora o faça com muito atraso, sempre correndo atrás do prejuízo com algumas décadas de diferença. Veja os números daquele instituto da Geena Davis que monitora a imagem e a presença de mulheres na mídia dos EUA. Em 2009, apenas 7% dos 250 filmes feitos em Hollywood foram dirigidos por mulheres. Foram também apenas 8% os escritos por mulheres. Uma estatística sexista até o último fio de cabelo. Então, a Academia premiou a Kathryn? Muito bem. Pois o fez tarde demais.

Na minha opinião, o Oscar de melhor direção para uma mulher já tinha dona. Sofia Coppola e seu ‘Encontros e Desencontros’ de 2003. Magistral. Sensível. Suave. Delicado. Um filme feminino por definição. Ou mesmo Jane Campion, em 1994, com o atordoante ‘O Piano’. Na verdade, deveria mesmo ter ido para Barbra Streisand, duplamente ignorada com “Yentl”, de 1984, e “O príncipe das marés”, de 1993. Embora ambos tenham sido rejeitos pelo Oscar (sequer foram indicados), eles foram agraciados com o reconhecimento da Imprensa Estrangeira no Globo de Ouro, tendo o primeiro deles sido o primeiro filme a premiar uma mulher diretora. Vinte  e cinco anos antes do Oscar, veja só. “Yentl”, inclusive, é um dos únicos filmes de lá que foi produzido, escrito, dirigido e atuado por uma mulher. O Oscar pode ser de Sofia. Ou de Jane. Até mesmo de Barbra. Mas não. É de Kathryn. Qual o problema disso tudo? Aqui vão os meus pitacos.

Bom, sabemos que o filme de baixo orçamento de uma mulher bateu a grande aventura tecnológica smurf-alienígena de cifras bilionárias de seu ex-marido. Que bonito, logo um dia antes do Dia Internacional da luta pelos direitos das mulheres! Agora, a parte problemática da história toda, ao meu ver, seria justamente o fato de Kathryn Bigelow ter forjado sua carreira dirigindo filmes classificados como “masculinos”, vide “Caçadores de Emoção”, “K-19: The Widowmaker” e “Guerra ao Terror”. Veja, a questão que eu quero colocar aqui não é a incapacidade de uma mulher abordar temas masculinos. Kathryn pode e deve falar dos temas que bem entender. O problema aqui é de outra natureza. O prêmio é de uma mulher diretora. O filme, entretanto, é masculino. A temática premiada é masculina, mesmo que dirigida por uma mulher. Esse é um padrão que se repete continuamente.

(Eu também tenho problemas com o filme em si, devo avisar que não gostei. Apesar de não achar a Kathryn uma má diretora, eu torci para os “Bastardos Inglórios”, do Tarantino. Um filme delicioso, cheio de nuances, referências, novidades. ‘Guerra ao Terror’ talvez faça mais sentido para os norte-americanos sedentos para colocar no divã sua disposição bélica. Eu, particularmente, achei clichê, achei mimimi do agressor, achei que glorifica e vitimiza o soldado estressado, achei uma bobagem.)

Mas voltando à questão de gênero. Por que o conteúdo do filme dela importa? Porque discutir gênero não significa somente se ater ao falso par dicotômico homem X mulher. Existem outras chaves. A luta por uma sociedade mais justa para mulheres também envolve que elementos associados ao feminino sejam respeitados e não tidos como inferiores, subalternos, vulneráveis. Na verdade, masculino e feminino não devem se opôr, não são essências exclusivas, e isso deve estar sempre bem claro. Tendo isso em mente, fica evidente que a maioria dos filmes agraciados pela Academia é estritamente masculina, pois fala de temas tipicamente associados ao homem na “sociedade ocidental”. O Oscar, em sua categoria Melhor Filme e Melhor Direção, é um festival de épicos, filmes de guerra, dramas violentos, máfia, homens heroicos como protagonistas, aventura, sangue, tiros. Já temas associados ao feminino, como a delicadeza, a sutileza, a sensibilidade, a maternidade, as relações, são raríssimas vezes laureados.

Algumas exceções ocorrem, é claro, mas são exceções, com o perdão da redundância. Eu lembro dos magníficos ‘Laços de Ternura’ (diretor homem, é claro) e ‘Kramer vs. Kramer’ (idem), este último um filme que vitimiza o marido abandonado pela mulher que tem predisposições e questionamentos feministas, interpretada pela maravilhosa Meryl Streep. Entretanto, para cada ‘Laços de Ternura’ temos uns três gladiadores, cinco filmes de máfia e por aí vai.

O Oscar, portanto, está ainda bem distante de ser mais plural e inclusivo. Mulher às vezes, feminino não. Feministas, ainda menos. É isso que parece prevalecer. A única diretora abertamente feminista indicada, Lina Wertmüller, em 1977, perdeu para “Rocky- o lutador”. Não vou nem comentar. Das mulheres com temáticas mezzo-femininas, Campion perdeu para Spielberg e “A Lista de Schindler”. No ano anterior, foi premiado o masculiníssimo – e conservador republicano – Clint Eastwood e seu filme macho-alfa “Os Imperdoáveis”. Já Sofia perdeu para Peter Jackson e seu filme de elfos, hobbits e anéis. (No ano anterior, a Academia premiara o estuprador condenado Roman Polanksi na maior cara dura. Para você ver!)

Me parece que ainda são necessários muitos anos de reflexão – e luta – para a Academia acertar no ponto. Do jeito que a banda toca, só daqui a algumas décadas. Até lá, fiquemos satisfeito com Kathryn Bigelow e seu filme ‘Comandos em Ação’, o quê, nossa, já é um enorme passo e um bom começo.

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