Sobre Brad Pitt, zumbis e a ONU

Pitt discursando na ONU. Ooops.

Brad Pitt, protagonista do filme que vi ontem, “Guerra Mundial Z” (2013, Marc Foster), conto tecnológico sobre um apocalipse zumbi, é um daqueles atores sobre os quais, em minha opinião, sabemos demais. Explico: não consegui assistir ao filme e entendê-lo sem me remeter à persona Pitt à qual tenho acesso. O filme todo parecia uma alegoria das escolhas políticas que ele vem desenhando nos últimos anos, o que me incomodou absurdamente, fazendo com que eu saísse do cinema com a impressão de que havia perdido duas horas sendo doutrinada a acreditar, por um singelo ator, que a ONU pode salvar o mundo.

William Bradley Pitt, típico americano do Meio Oeste, partiu para a California ainda nos anos 80 em busca do cálice sagrado hollywoodiano. Brad Pitt é bonito, poucas pessoas discordam disso, e construiu seu caminho no cinema a partir de papéis sedutores, como o cowboy que dá a Geena Davis seu primeiro orgasmo em “Thelma e Louise” (1991, Ridley Scott), o selvagem irmão do meio de “Lendas da Paixão” (1994, Edward Zwick) e o hesitante Louis em “Entrevista com o vampiro” (1994, Neil Jordan). Construi-se assim a persona meio difusa de homem bonito, mas não muito talentoso e/ou inteligente que passamos a ter de Pitt. Ele não é muito brilhante, mas também não é um mau ator, tendo colocado elementos inusitados em seus personagens, como um sutil sarcasmo e um evidente ar blasé bastante incomuns para galãs. Contudo, com a exceção de “Doze Macacos” (1995, Terry Gilliam) – e talvez de “Seven” (1995, David Fincher), suas atuações nunca chamavam muita atenção da crítica e Pitt era tratado como um ator vendável e carismático, mas mediano. Já a vida pessoal de Pitt, e suas muitas e famosas namoradas, sempre esteve em evidência. Dada minha idade e o considerável arsenal de revistas Capricho que consumi no início dos anos 90, posso recontar algumas das peripécias amorosas dele, algo do qual não me orgulho. Enfim, Pitt é um daqueles atores, talvez como Cruise?, que parecem manter acessa a chama da obsessão do público mais pelas personas do que pelas personagens. (Eu havia escrito uma introdução sobre a questão da persona dos atores em Hollywood, o Star System, mas fez o post ficar muito longo, guardei para outro momento.)

Em meados dos anos 2000, Pitt embarcou, ao se aproximar de Angelina Jolie, em uma jornada humanitária global e passou a estampar revistas não mais em tapetes vermelhos, mas em campos de refugiados no Camboja, em construções de casas populares na Índia, e até defendeu países socialistas em jornais televisivos. Pessoalmente, gosto muito mais dessa persona “boné-da-ONU” do que a do galã namorador dos anos 1990, e suponho que isso tenha se traduzido na escolha de papéis excelentes recentemente, como o pai tipicamente anos 60 em “A árvore da vida” (2011, Terence Malick), o tenente caipira caçador de nazistas em “Bastardos Inglórios” (2009, Quentin Tarantino) e o hilário funcionário de academia com agasalho da Adidas em “Queime antes de ler” (2008, dos irmãos Coen).

Em “Guerra Mundial Z”, último filme estrelado por Pitt, ele parece fazer um filme dedicado aos últimos anos de sua vida. Eu não gostei. Detestei, na verdade. Há algumas cenas visualmente impactantes, Pitt não decepciona na atuação, mas a história toda é uma bobagem política sem fim. Vamos lá, uma doença causada por um vírus não identificado e sem uma origem conhecida alastra-se assustadoramente pela humanidade globalizada, transformando seres humanos em predadores sanguinários. “É o fim da aventura humana na Terra”, cantaria aquela banda dos anos 80, Radio Taxi. Poucos lugares estão relativamente salvos, sendo este o caso de Israel, que lacrou seu muro anti-palestinos e se protegeu com o isolamento (faz-me rir, roteirista!). O filme não se complica com os israelenses, mas faz uma ligeira crítica ao sectarismo do Estado sionista, ao mostrar que a estratégia deles sai pela culatra.

Enfim, alguns bolsões de pessoas saudáveis são mantidos em alto mar (no caso dos Estados Unidos) e o clima é de desespero. Não temos notícias do que acontece fora do mundo do Norte, mas muito provavelmente as hierarquias politico-econômicas continuaram vigorando, suponho que ninguém se importe com partes do mundo consideradas mais descartáveis. Como nós, Radio Taxi, latino-americanos. Você não salvaria sua pequena Eva.

Em meio ao caos, Gerry Lane (interpretado por Pitt), antigo funcionário investigativo (que diabos é isso?!?!) da ONU é enviado em uma missão suicida para descobrir a origem – e uma possível cura – para a doença. O Exército dos EUA ajuda, é claro, mas a solução é oriunda de uma jornada internacional (que ignora a América Latina e a África) envolvendo combo formado por uma “soldada” israelense, militares americanos e da OTAN, um subsecretário negro e francófono da ONU, pesquisadores estrangeiros da OMS (um deles é italiano), um perturbado agente da CIA, um avião bielorrusso e Pitt, claro. Está aí a receita para salvar o mundo: um organismo internacional meio suspeito e dependente de potências econômicas e bélicas, cientistas com o rabo politicamente preso, esforços internacionais que ignoram partes do mundo e o Exército escondidinho, dando apoio para os bem-intencionados “internacionalistas” que visam defender a “Humanidade”.

Falo Humanidade, mas não temos informações sobre boa parte do mundo. Além disso, todo o enredo se desenrola com Pitt preocupado com sua esposa, suas filhas e um mexicaninho adotivo, que aguardam passivamente pelo retorno do herói. Veja aqui a supervalorização da ideia de família nuclear (mesmo que miscigenada e não biológica), pois Pitt sequer menciona estar preocupado com outros familiares, amigos, vizinhos.  Achei, no mínimo, estranho. Na linha de padrões antiquados, fica aqui também a minha crítica às personagens mulheres. Embora a soldada Segen seja importante e forte, ela é altamente andrógina e masculinizada, sendo o modelo de feminilidade ideal dado pela esposa de Lane, bonita mas inerte, o que reforça o clichê de que mães, femininas e adequadas, não podem salvar o mundo.

Resumo: o filme todo é uma defesa panfletária de uma instituição capenga, etnocêntrica e problemática, que há bons anos não justifica sua razão de ser e tem relações escusas com forças armadas e os Estados Unidos. Imperialismo disfarçado de ajuda humanitária.

Então, desculpa, sr. Pitt, continuo te amando, mas o senhor não vai me convencer que a ONU será nossa salvação.

PS. Preciso complementar: os zumbis são incríveis. Incríveis.

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2 pensamentos sobre “Sobre Brad Pitt, zumbis e a ONU

  1. Bia, a visão torta, preconceituosa é um dos grandes problemas do filme. Certamente é o maior. Como espetáculo de ação ele não justifica os milhões investidos…e Pitt, correndo pelo mundo e escapando das situações mais absurdas é uma reedição de “Duro de Matar”, agora com viés biológico…
    Os zumbis são “limpinhos”, sem a escatologia de Romero…e o filme usa e abusa de efeitos especiais que, ao digitalizar os Zumbis, sacrifica a “veracidade” do filme, mesmo considerando o argumento original absurdo…
    Você percorreu bem, muito bem, os dilemas éticos e históricos do frágil roteiro…

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