E por falar em Zumbis…

Os Zumbis de Romero não são "coxinhas"...

Os Zumbis de Romero não são “coxinhas”…

Esses anos de cinefilia me trouxeram algumas simples regras de convívio com a arte. Uma delas, talvez a mais fundamental, é que não se deve criar expectativas. Para nenhum filme. Vá assisti-lo de coração aberto, sem pré-julgamentos. Torça, verdadeiramente, para que o filme seja bom (confesso que para os filmes do Michael Bay essa regra é posta em cheque). Mas não espere, pelo tema ou predicados da produção (diretor, atores, valores investidos na produção) um bom filme. Arte (mesmo o industrial cinema) não é ciência exata. Não “se fabrica”… O engenho técnico, quando destituído de um projeto artístico consistente, não consegue por si só salvar um filme de um resultado menor e insatisfatório.

Essa introdução se fez necessária. Assumo aqui o meu desrespeito para uma das leis fundamentais do amante de cinema, expressas lá no primeiro parágrafo. Estava com alguma esperança quando fui ver World War Z, com Brad Pitt (que atua e produz o filme), dirigido por Marc Forster, afinal sou daqueles “fãs” do universo Zumbi, pelas muitas possibilidades do tema, cujo diretor George Romero é, inquestionavelmente, o realizador que mais soube utilizar das leis deste universo para sua visão ácida do mundo e os seus recados diretos contra as injustiças sociais, o consumismo e outras mazelas de nossas sociedades contemporâneas.

Apostava na carreira de um diretor polivalente e relativamente promissor (de filmes diferentes no tema e na linguagem  como Mais Estranho que a Ficção – 2006 e o Caçador de Pipas – 2007), com algumas boas ideias no seu repertório e facilidade para gerenciar grandes produções. E quanto a Brad Pitt, no que pese considera-lo muito mais carismático do que propriamente bom ator (e não que ele seja ruim), tem indiscutivelmente um poder na indústria que lhe dá o direito, ao menos em tese, de escolher os projetos que deseja se engajar.

Mas paro  por aqui…você, que eventualmente tenha se aventurado pelo meu texto até este momento, prometo não avançar mais pelas ofensas históricas e políticas do filme, brilhantemente explorados no texto da Bia (aqui neste blog).Me atenho aos zumbis…Que zumbis são esses? Nos tempos atuais o zumbi corre como um velocista, dá pulos e saltos no ar como um trapezista. São diferentes dos zumbis dos filmes de George Romero. Estes são pútridos, lentos, emitem sons guturais. Movem-se com sofreguidão, errantes…

O terror está na aproximação desta onda macabra, fétida, avançando sobre os vivos, que horrorizados, observam toda a corrupção sofrida pela carne. Nos filmes de zumbis atuais (ou quase todos eles), eles são fortes, rápidos como cães raivosos. No filme de Foster, o “efeito” dramático das ondas de mortos vivos em disparada só poderia ser reproduzido com o auxílio de efeitos digitais. As criaturas do filme são artificiais, portanto. Essa é uma fraqueza imperdoável do filme.

Não é segredo que Romero utiliza o universo do apocalipse Zumbi para versar sobre temas bastante atuais. Em “A noite dos mortos vivos” (1968) ele trata corajosamente dos preconceitos encrustados na alma da sociedade americana e em “Amanhecer dos Mortos” (1978), ele aponta seus “zumbis” para a sociedade consumista (e são inesquecíveis as cenas rodadas no shopping onde se passa a ação), a representação fantasmagórica do clássico Zumbi “Romeriano” tem um papel central,  uma analogia perfeita às massas alienadas, infantilizadas e manipuladas. Por isso, não raro nos muitos filmes do universo de Romero o seu olhar condescendente e quase piedoso para as criaturas. Porque elas…somos nós….

E se cada geração tem o zumbi que merece, estes atuais (assim como no remake “Amanhecer dos Mortos” de 2006 dirigido por Zack Snyder) podem ser vistos, também, como uma representação de nossas populações urbanas, cada vez mais apressadas, estressadas e nervosas. E no mundo pleno de paranoias atuais, cabe muito bem a gênese do ataque Zumbi dar-se no Oriente, numa espécie de “clash of civilizations” macabro, originado de um…vírus??!! (eu prometi que não atiraria no filme, uma vez que a Bia descarregou sua metralhadora nele…mas não resisti).

Com orçamentos espartanos, criatividade e afiado olhar social, os Zumbis de Romero sempre serão essa força renovadora (e moralista???) do cinema fantástico, com os seus passos trôpegos, vísceras à mostra e fome interminável…

Já os Zumbis de Word War Z passarão, céleres, para os rincões mais distantes e gélidos de nossas memórias…

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