O Mestre (The Master) – 2012, Diretor: Paul Thomas Anderson

o mestre

Confesso que, ao final de “O Mestre (The Master)”, filme de 2012 dirigido por Paul Thomas Anderson, minha sensação era de desconforto. Acabara de assistir uma produção diferente, estranha, que durante todo o seu tempo de projeção não se preocupou em estabelecer conexões fáceis com o espectador. Um filme simples em seu argumento aparente, mas complexo e sofisticado em seus objetivos. De uma economia de cenas admirável, mostra da segurança de seu diretor. Uma obra indigesta, que acompanha a relação de amizade e adoração nada convencional de um homem perturbado e alcoólatra, Freddie Quell (numa soberba interpretação de Joaquin Phoenix) por um líder de uma seita mística e filosófica, cheio de contradições e idiossincrasias, Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman).

É o sexto filme da carreira do Brilhante diretor, cada vez mais proeminente num oceano de aparente conformismo e mediocridade. Seu talento arrebatador, e aparentemente sem concessões, faz com que ele consiga fazer um cinema tão diferente e autoral em Hollywood. Tornou-se um diretor de bilheterias discretas, mas prestigioso para atores e produtores. Alia-se a um contingente diminuto de realizadores que, através do seu talento, salvam Hollywood da sua indigência intelectual. Uma espécie de reserva artística (e moral??) do cinema americano recente.

Mostrando uma evolução absolutamente coerente e inventiva do seu estilo de direção, procurando novos caminhos narrativos para os seus filmes, Anderson dá ao seu “O mestre” a mesma frieza e distância perturbadoras de “Sangue Negro” (There will be blood – 2007), escolhendo personagens indigestos e solitários, amorais e encastelados em seus universos. Se, no seu último filme, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um homem obcecado pela riqueza e o poder, ignorando o convívio das pessoas com absoluta amoralidade, em “O Mestre”, Freddie e Lancaster atravessam uma década imersos num universo particular da “Seita”, o primeiro amando e detestando o segundo, numa relação que “só Freud” poderia explicar…

Acompanhar a evolução de Anderson desde Boogie Nights (1997) é um deleite. Neste filme ele retrata o ocaso do universo da indústria de filmes Pornôs (em película) com energia e um certo carinho, realizando travellings fantásticos (a cena da festa onde a câmera segue uma garota que se atira na piscina é antológica), em claras referenciais à Scorcese e Altman (que ele reforçaria no seu trabalho seguinte, o igualmente brilhante “Magnólia” de 1999). Portanto esta sua fase atual compreende um arco temático muito coerente da sua obra, elevando-o como artista.

Voltando ao filme, a trilha sonora hermética e dissonante de Jonny Greenwood confere com precisão o mundo caótico deste universo em que todos os personagens aparentam investir na convivência em grupo (recurso que o diretor também usa em “Sangue Negro”), motivados por um objetivo prático e absolutamente individual. Personagem importante no filme, Peggy Dodd (Amy Adams, ótima), a esposa de Lancaster e matriarca da família, parece motivada, fundamentalmente, pela unidade (mesmo artificial) que “A Seita” confere à família, preocupada em mante-la em funcionamento, vigilante às bebedeiras do marido e na sua oratória durante as apresentações, sem nunca questionar sobre os caminhos e dilemas morais da trupe. E, em nenhum momento, o filme se esforça para aplicar uma moral, um sentido, um viés para aqueles personagens. São, todos, reprimidos e cheios de contradições, roçando na falta de ética de suas ações. E, mesmo assim, não vemos uma única ação narrativa do filme que nos incline para julgarmos os personagens, num exercício de direção admirável. Obviamente, ao violentar o senso comum de uma história, o filme se arrisca, pela sua estranheza, em não capturar a atenção do público.

Terminei de assisti-lo em meio a um sentimento de melancolia e vazio. A experiência humana nesta terra, errática e imprecisa, faz com que nos atiremos nos braços do conforto moral de crenças que possam, à sua forma e estrutura, nos oferecer respostas e caminhos que nos aliviem de nossa dor existencial. E, à medida que se torna complexa e angustiante a aventura humana, no contexto de individualismo crônico do nosso atual estágio “civilizatório”, maior  a necessidade de formas específicas e individuais de crenças e fés. Minha visão, sobre “O Mestre” é essa: sobre a solidão e a angústia de nossas vidas…

Um filme difícil. E essencial…

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Um pensamento sobre “O Mestre (The Master) – 2012, Diretor: Paul Thomas Anderson

  1. Ainda bem que ando um tanto omisso neste espaço…desta forma, não preciso encarar diretamente a minha mediocridade cinematográfica, em face do que você e Beatriz escrevem…parabéns! 🙂

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