ROBOCOP – 1987, Diretor: Paul Verhoeven

Robocop

Existem filmes que não envelhecem. Existem filmes que ficam melhores com o tempo. O jovem clássico “Robocop” de 1987, dirigido com fúria por Paul Verhoeven, enquadra-se nesta categoria. Lembrei-me do filme ao ler a curiosa notícia da “falência” da cidade de Detroit. Parece-nos bizarro a falência de uma cidade, mas a crença americana nas leis do monetarismo (na verdade fé travestida de racionalismo econômico) torna factível uma situação aparentemente descabida. Detroit, cidade símbolo do progresso industrial Estadunidense e sede de inúmeras e poderosas empresas, morre lentamente. Na década de oitenta inicia-se sua derrocada, com a fuga de empresas e o desemprego em massa. O esgarçamento do tecido social traz consigo a violência física e moral. Se na idade média possuir uma relíquia religiosa (e elas eram criadas e mercantilizadas por toda Europa) definia a viabilidade de uma cidade, por atrair romeiros e o comércio resultante disso, no capitalismo dos nossos dias, desfaz-se de uma cidade quando está não oferece mais “condições de competitividade” (salários menores, isenções fiscais maiores…).

A Detroit retratada por Verhoeven é caótica, à beira da irrupção social, tomada pelo crime e abandonada politicamente. A Polícia, privatizada, recebe ordens de uma grande corporação, a OCP, com tentáculos em vários segmentos da economia, de hospitais e presídios à indústria bélica. É a Aventura neoliberal na sua investida mais radical. Sabia-se, na oportunidade, que a União Soviética balançava. Formulava-se o Consenso de Washington, loucos pelo decreto do fim da história…

O futuro retratado no filme é sujo e desolador. O diretor carrega em cores cinzas e metálicas, o que acentua o ar industrial e impessoal de forma quase opressiva. Dou muito crédito à Verhoeven, natural da Holanda e que fazia com este filme sua primeira investida em Hollywood, pelas claras mensagens políticas do filme, muitas delas contra o tipo de capitalismo concebido pelo consórcio Reagan e Thatcher e que ele certamente crítica, ainda que de forma alegórica. Mas algumas associações são óbvias: Tanto o traficante quanto o executivo vilão da OCP usam a mesma expressão (“Onde existir uma oportunidade faremos bons negócios”), Policiais ensaiam uma greve contra a falta de condições e as mortes frequentes de oficiais; numa outra sequência, perguntado pelo Traficante se o executivo teria armas de grosso calibre para fazer frente à Robocop, este responde, certeiro: “nós somos praticamente os militares…”

O Futuro cético de Verhoeven foi obra de um ficcionista criativo? Claro que não. Hoje se sabe que existem exércitos particulares. Que presídios são um negócio lucrativo nos Estados Unidos, além dos sistemas de saúde e educação mundo afora. Vivemos num mundo onde TUDO é negociado e negociável. As experimentações radicais dos Chicago Boys (liderados por Milton Friedman, inspirado pela ficcionista Ayn Rand e o economista austríaco Hayek, que lecionou em Chicago no pós guerra) já deixara marcas na alma e na carne da América Latina. Sabemos que a teologia da ortodoxia neoliberal continua viva e combatente, ao menos nos jornais. A Detroit de “Robocop” saiu da película e ganhou vida, mesmo que não em toda a sua Hipérbole…

E o filme? Continua visceral, com o seu humor pervertido (as inserções dos telejornais são impagáveis), além da aventura brutal e ação ininterrupta. A forte trilha sonora de Basil Poledorius é um hit. E os charmosos efeitos especiais ”stop-motion” comandados por Rob Bottin (responsável pelos efeitos especiais de “O Império Contra ataca”, dentre outros), em especial nas sequenciais com o Robô militar ED-209,  ainda são eficientes e sua presença de cena, muitas vezes, suplanta em realismo o “digitalismo” asfixiante das produções atuais.

Comprova nossas suspeitas do caretismo que tomou Hollywood de assalto, tendência que recrudesceu depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

Sabemos que o diretor Brasileiro José Padilha, dos questionáveis “Tropas de Elite”, prepara um remake do filme, em sua estreia em produções internacionais. E, mesmo considerando um contexto social e político igualmente provocador para novas e cortantes analogias, duvido muito que essa produção ouse e transgrida como o filme original. Não existe espaço no cinema atual para essas liberdades, e o público hoje, mais infantilizado e entorpecido de roteiros mastigados, decerto exige soluções mais “fáceis”…

O Filme, na sua metade final, pode ser interpretado também como uma busca de Murphy, policial sequestrado pela eficiência tecnocrática da corporação-estado, pela sua humanidade perdida. Brutalizado e “reinventado” como arma, ele responde de forma direta quando perguntado, ao final do filme, “quem era ele”: “meu nome é Murphy”, responde. A vitória da alma, do sangue e da natureza humana, sensível e brutal, bem ao gosto de seu diretor.

Resta, ao menos, o grande filme de Verhoeven, que ainda faria bons filmes em terras americanas antes de voltar para a sua Holanda.

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