32 curtas sobre Glenn Gould (32 short films about Glenn Gould) – 1993 Diretor: François Girard

ggould

Glenn Gould, genial Pianista Canadense, morto prematuramente com a idade de 50 anos, em 1982, marcou a música de forma permanente. Sua técnica ao teclado era inventiva, brilhante e até meio excêntrica. Na audição particularmente famosa das “Variações Goldberg” de Bach, é possível ouvi-lo, na forma de estribilhos cantarolados conforme avança a música. Mas, diferente do incomodo gerado, sentimos uma energia  única e emocionante, de um artista em sua absoluta entrega com a música.

E essa é a tônica do semi-documentário de François Girard. Ele entrecorta trechos encenados (e o ator Colm Feore faz um admirável trabalho, contido e respeitoso para com a memória do músico) com testemunhais de pessoas próximas à Glenn, fazendo uso de uma edição bem construída, o que, aliás, é mandatório num documentário.

E o filme percorre os aspectos mais lúdicos e cerebrais do gênio canadense. Seus dilemas artísticos e sua entrega à arte. Ficamos sabendo, durante essa viagem encenada, de algumas idiossincrasias do músico: sua ojeriza em voar, o que limitava suas encenações em público, e que provavelmente acelerou sua decisão de não mais se apresentar ao vivo em concertos, ainda jovem (na casa dos 30). Sua forma peculiar e estranha para os incautos de interpretar, cantarolando durante a execução das músicas, o que significava o terror dos engenheiros de som. E essa é uma característica única do seu estilo, que não recusava a emoção em pró de um rigor disciplinado e que, suspeito, tenha promovido um distanciamento progressivo da música de concerto com o povo neste último século.

O Diretor acerta nos enquadramentos lentos e elegantes. Dá muito tempo para a música em vários momentos, sendo acompanhada por imagens que remetem ao estado mais contemplativo e solitário do seu protagonista. Por essa razão, já na primeira cena, enxergamos a silhueta de alguém (supostamente Glenn) num descampado de gelo, onde só podemos ouvir o silvo do vento cortante e uma sonata de Bach, numa alusão perfeita à existência do gênio Canadense, isolado e distante dos assuntos terrenos, entregue ao universo complexo e acolhedor da música. Aliás, o filme termina com essa mesma imagem, mas com a silhueta do homem se afastando e se perdendo no mar branco e solitário dos seus pensamentos. Lindo.

Sua personalidade complexa, de poucos amigos, mas nunca sisuda ou refratária, é explorada pelo filme, mas sem alardes ou interpretações jocosas e fantásticas. O filme pretende nos oferecer uma viagem à imaginativa natureza de um homem que ousou mergulhar na música e dela se tornou amante, sem concessões. Existe uma moral artística, no fundo. Do artista que não se corrompe, e que se entrega na loucura da vivência e experimentação do seu ofício. É a entrega para a Arte total. É viver da Arte. É morrer por ela. Talvez por isso François, ao nos apresentar a família Gould (protestante, que mudou o sobrenome da família para fugir do antissemitismo que grassava no Canadá nos anos 30), compõe a cena ao som de “Morte de Amor”, da ópera Tristão e Isolda de Wagner.

Emocionante e recomendável para aqueles que amam música e músicos, “32 curtas sobre Glenn Gould” é um filme que merece ser redescoberto.

Lembro-me da frase da minha Lu sobre os músicos, onde ela diz que “existem três tipos de pessoas: as mulheres, os homens e os…músicos”.

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