O despojar da inocência

“Eu avisei para não mexer com alguém importante como ele.”

“Eu avisei para não mexer com alguém importante como ele.”

Obliterado em seu próprio país, Samuel Fuller nunca teve seu valor devidamente reconhecido, exceção feita aos jovens críticos dos Cahiers Du Cinéma na década de 60 e aos cineastas que constituíram o hiato revolucionário – em termos técnicos e argumentativos – durante os anos 70 nos EUA. “O beijo amargo” (The naked kiss, 1964), parte da seguinte premissa: mulher, que só consegue garantir o seu sustento por meio da prostituição, decide mudar de vida e, para tanto, muda-se para uma cidade do interior, passando a trabalhar com crianças deficientes em um hospital, o que já seria um indicativo do estado emocional da personagem, que sonha em levar uma vida suburbana, convencional e pacífica – casada, com filhos.

Seria um melodrama de matizes bastante convencionais, não fossem por detalhes que, quando analisados, comprovam com precisão os motivos que o fizeram merecedor do apreço dos cineastas da Nouvelle Vague e dos jovens conterrâneos da Nova Hollywood: a maestria da mise en scène, a desobrigação da protagonista estar, sempre, no centro do plano e a presença de jump cuts¸ precisos e abruptos os quais, além de serem inéditos no cinema dos EUA de então, garantem a quebra do ritmo e a sensação constante de desconforto, como que a prenunciar uma mudança radical na trama a qual, não obstante, poderia nunca ocorrer (Jean-Luc Godard, por exemplo, utiliza-se muito disso em “Acossado”). Mas a mudança ocorre, no último quarto da película, e é nele que Fuller promove uma desconstrução do gênero, algo que também se tornou marcante na geração de cineastas estadunidenses que o sucedeu.

A inocência perdida em sua geração e nas seguintes é destacada em vários momentos – seja saindo simplesmente pela porta entreaberta, seja brincando em frente ao cárcere no qual a personagem principal é enclausurada. Ainda sobra tempo para proporcionar uma discussão breve sobre a desigualdade entre gêneros perante o poder judiciário e como a Mulher era (é?) reconhecida enquanto tal pela sociedade.

Já não somos inocentes, nas palavras do crítico e cineasta Jacques Rivette. Ao Cinema, portanto, também não é dada a oportunidade de sê-lo e a constatação disso faz de Samuel Fuller um cineasta à frente de seu tempo e imprescindível na formação do cinéfilo.

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