Vidas que seguem

"Corra, Frances, corra..."

“Corra, Frances, corra…”

Na concepção hegeliana de arte, o classicismo representaria a amálgama perfeita entre forma e conteúdo sendo, portanto, o objetivo-fim de qualquer manifestação que se predispusesse a eternizar-se na memória. Analogamente, os livres pensadores franceses sobre a sétima arte, em especial Michel Mourlet, classificavam que, no cinema, isto passou a ser verificado somente nas produções estadunidenses realizadas em sua Era de Ouro. De certa forma, é também este raciocínio que conduz o pensamento crítico desenvolvido pelos então jovens turcos dos Cahiers du Cinéma e que explica toda a ênfase que deram, no momento em que tomaram para si as rédeas do feitio cinematográfico, à mise en scéne. Somente por meio desta, enquanto “forma” precisa de construção da encenação dentro do plano, a única possibilidade de legar ao cinema o prestígio e respeito que lhe é devido. Inegavelmente a Nouvelle Vague, desde então, resultou em produções que, com o perdão do neologismo, “evolucionaram” a linguagem do cinema mundial.

Até certo ponto, todavia. É possível desenvolver análises sobre se, e como, efetivamente, a Nouvelle Vague conseguiu aliar “meio e mensagem” por meio de um olhar aguçado sobre o mundo, visto como aquilo que percebemos enquanto evidência sensível da existência – nossa e do outro. De que mensagem estaria a se falar, qual conteúdo efetivamente fora apresentado?

Enfim, após esta caudalosa introdução digressiva, que adentramos no tema deste post: Frances Ha (idem, 2012), dirigido por Noel Baumbach.

Interpretada por Greta Gerwig (também co-roteirista), o filme relata a trajetória da personagem-título a partir do rompimento com o namorado – do qual ela nem gostava tanto assim, a bem da verdade – quando ele a convida para darem um passo – grande, pequeno, irrelevante? – na relação, representado pelo ato de irem morar juntos. Vivendo com sua amiga Sophie e indisposta a cortar seus vínculos com esta, Frances declina, sem saber que, por sua vez, Sophie decide dar este mesmo passo com seu companheiro. E, então, sua vida segue rumos outros, em descompasso com seus interesses (se é que ela os conhece, efetivamente), rumo a desencontros fortuitos e encontros nem tanto assim. Frances persiste, sem muitas certezas, com seu olhar hedonista e desprendido sobre a vida buscando, sobretudo, ser livre, exorcizando experiências, amargando o dissabor de testemunhar passados gloriosos transformados em patéticos presentes (parafraseando a expressão que tanto adoro, cunhada por minha amiga e companheira deste blog, Bia). Frances é adorável, deslocada, vivendo em um universo ao qual não pertence. É impossível não simpatizar com ela, torcendo para que consiga, dentro destes parâmetros de inadequação, encontrar seu espaço.

Realizado em preto e branco – opção puramente estética ou indicativa de como a vida da personagem se encontrava naquele momento? – Frances Ha é uma homenagem aos franceses da Nouvelle Vague, em especial François Truffaut (o travelling no qual a personagem corre despreocupada pelas ruas de Manhattan, ao som de Modern Love, de David Bowie, poderia ser uma atualização bem menos angustiante do plano final de Os incompreendidos) e Éric Rohmer (este, aliás, teve seu filme O raio verde citado como referência pelo próprio Baumbach) e um retrato levemente crítico de uma geração que teria se recusado a amadurecer, a cortar seus vínculos com uma adolescência que fora prolongada até o limite.

Aqui, a digressão apresentada no início deste post dá origem a uma provocação. Frances é estadunidense, branca, oriunda da classe média. Não trabalha em subempregos, não perde 05 horas  de seu dia no transporte publico precário e aviltante, consegue morar de aluguel em uma das cidades mais caras do mundo. Seus amigos são descolados, alocados no mercado financeiro, editorial ou mesmo vivendo em função exclusiva de sua arte. Logo, o filme nada teria a nos dizer podendo, inclusive, ser classificado como uma mera seqüência de desventuras de uma moça burguesa e alienada, ainda que em busca de desvincular sua identidade destes valores. Seria, pois, um cinema realizado de forma magistral, mas atrelado a um conteúdo que em nada definiria a maioria de nós, brasileiros.

Seria, pois, um filme ruim?

A pergunta é meramente retórica. Frances Ha, em momento algum, se propõe a uma retratação plena e completa da geração nascida nos anos 1980; pelo contrário: o corte de classe é preciso e restrito a um determinado perfil sócio-econômico que nos remete a valores e identidades específicos, independentemente da nação na qual se reproduzem. E, justamente por se reportar a esta especificidade, atenderia ao princípio de que um filme fascinante é aquele que consegue arrebatar nossas consciências pelo tempo de sua duração, fazendo-nos relegar ao segundo plano nossas próprias existências.

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