ELYSIUM (2013) – Diretor: Neill BlomKamp

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A Ficção científica sempre possibilitou ao cinema a oportunidade de discutir o mundo real, seus dilemas e significados, através de um futuro distópico e ou fantasioso. Se lidar com a complexidade do presente possa representar uma posição política clara e dura, e por isso mesmo hostil ao “Status Quo” (e à indústria de cinema hegemônica, por definição), através do universo fantástico de um filme, assuntos vistos como delicados e ou sensíveis ganham espaço. Para isso, evidente, conta-se com a alienação do público médio, e mesmo com a tentativa da produção de firmar uma posição política, ela raramente é compreendida claramente, sendo a mensagem e a reflexão perdidas entre efeitos especiais e criaturas fantásticas, que por vezes se parecem mais como uma intromissão do estúdio para dar mais “popularidade” à obra, violentando-a em seus propósitos. Obviamente, essa tensão eclode quando o diretor tem ambição artística suficiente para “incomodar” os executivos dos grandes estúdios.

E desde Mad-Max (1979) e suas continuações, passando por Blade Runner (1982) até o recente Elysium (2013), percebemos o cinema, de forma artística ou mesmo oportunista, interessado em discutir esse futuro. E o ponto de partida óbvio é o nosso castigado presente, com suas iniquidades e imperfeições.  E se os filmes da década de 80 olhavam o futuro sob a desconfiança da tecnologia e os efeitos do seu uso indiscriminado sobre os humanos, além do horror da destruição nuclear (e o filme Matrix encerra um ciclo temático em Hollywood por tratar de ambos), os filmes de ficção atuais claramente se debruçam sobre a crescente tensão social que eclodiu após a crise financeira de 2008 e que ainda está longe de terminar. E o cinema sempre foi uma expressão artística célere em suas respostas aos assuntos do nosso cotidiano (por isso mesmo o cinema, mesmo por vezes subvertendo a história factual, serve como registro das preocupações e dilemas de toda uma geração). A crise, que grassou no centro nervoso da economia mundial (e não em sua periferia, como ocorrera durante quase todo o século passado) e que ainda faz vítimas no norte, serviu como uma espécie de terremoto social, escancarando tensões e contradições num sistema que, até pouco tempo atrás, dizia-se perfeito (ou quase). No imaginário do americano ou mesmo Europeu médio, as chocantes lembranças do furacão Katrina e a população pobre literalmente deixada para trás, e os desempregados de ambos os continentes que, não suportando o peso da hipoteca, são sumariamente expulsos de suas casas, trouxe para a agenda política ocidental as lembranças das lutas sociais e de classe. Os ricos, vistos em vários filmes de hollywood, são avaros, inescrupulosos, corruptos e desumanos.

O novo Filme de Neil BlomKamp, Elysium (2013), jovem diretor Sul-africano, que apareceu para o cinema com o promissor “Distrito 9”, traça um painel devastador dessa tensão de classes. O futuro apresentando no filme é a exposição crua de um modelo social e econômico radical, a partir das bases do modelo capitalista atual: concentração de renda, desumanização da burocracia estatal e criminoso descaso ambiental. Por isso é tão crível o universo de Elysium, ao menos em sua primeira metade. A terra, neste contexto, torna-se um lixão estéril (e numa cena particularmente bonita e cruel, o Planeta é visto como um contraste entre o Azul e a cor ocre dos continentes, sem qualquer registro de verde). A Los Angeles do filme não passa de uma favela onde milhões sobrevivem apinhados. Os edifícios da cidade transformados em cortiços. A ausência quase absoluta do estado, que só se faz presente pela força repressora. A classe trabalhadora explorada em fábricas sujas e inseguras.

O filme dispara sua crítica à forma como Elysium se “protege” dos emigrantes ilegais, violenta e desumana, como alias ocorre hoje em qualquer praia do mediterrâneo ou mesmo na fronteira ao sua do rio grande.

Já a elite terrestre, reunida e segura numa grande estação espacial na órbita terrestre, vive num lugar protegido, limpo (ou será asséptico), governando a malta do planeta fétido à distância. Alguns poucos descem aos infernos terrestres, exatamente para comandar ou gerir os interesses da classe dominante. Numa cena, o empresário vestido de forma impecável, pergunta para o gerente da fábrica o que havia acontecido (um acidente na fábrica importante para a trama), e quando este começa a explicar, o empresário rispidamente ordena que ele “ponha a mão na boca”, preservando-o das pústulas e bactérias de alguém que convive com o povo…

Chama a atenção como o filme aborda o poder tecnológico, quase milagroso, que a medicina possui neste futuro. Uma medicina que funciona quase como um eletrodoméstico, sem a necessidade de médicos, mas que é exclusiva para os cidadãos de Elysium. Odiosamente exclusiva e elitista, como os nossos Einsteins e Sírios da vida…

E o diretor, pelo fato de nascer numa sociedade estratificada e onde a violência social e racial se confundem, sabe bem utilizar esse olhar crítico e construir, para o benefício do longa, um ambiente realista e funcional. Infelizmente, no desenvolvimento do projeto, ele falha em construir uma trama à altura das expectativas que criou e a última meia hora do filme, na sua correria típica dos filmes de ação mais pobres, é particularmente decepcionante.

O Desenvolvimento dos personagens também é superficial, e mesmo Matt Damon (Max) e Wagner Moura (Spider) segurarem bem seus papéis em interpretações seguras, os arcos dramáticos não se desenvolvem a contento. As personagens femininas são estereotipadas, superficiais; Alice Braga (Frey) faz uma mãe que, mesmo forte no início da trama, passa o resto filme pedindo socorro e correndo desprotegida, ao passa que Jodie Foster (Secretária Rhodes) interpreta uma cruza de bruxa e executiva fria e calculista, unidimensional e nada criativa. Uma pena, em se tratando de uma atriz com o porte de Jodie.

Elysium, no entanto, vale a pena ser visto. Mostra o talento do diretor em tratar de temas do cotidiano (sociais, fundamentalmente) para o universo do cinema. No entanto, deve se esforçar para encerrar melhor as tramas que constrói. Seu estilo cru e violento lembra-me um pouco o grande Paul Verhoeven, que difere do estilo asséptico e coxinha dos estúdios no cinema atual.

Nos próximos posts, darei minha opinião sobre o universo cético e violento de Blomkamp, em contraposição ao futuro harmonioso e civilizado do universo de Star-Trek. Em minha opinião, longe de significar um contraponto ou mesmo uma posição frontal, esses universos são até complementares em sua visão civilizatória. Basicamente, onde termina o caos e o Horror de Elysium é exatamente onde se inicia o sonho quase utópico do mítico universo de Gene Roddenberry…

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