Invocação do Mal (The Conjuring) – 2013, Diretor: James Wan

Image

 

No meu post anterior procurei discorrer como o cinema se aproveita do universo, por vezes fantasioso e farsesco, da Ficção Científica para tratar temas do nosso cotidiano, principalmente os mais espinhosos, como o Racismo, a Violência e a Luta de Classes. Por vezes o cinema nos impõe associações alegóricas claras, até mesmo grosseiras. O Roteiro e a direção escancaram para o espectador os alvos do projeto. E, quanto mais orientado para o espetáculo, mais diretas as referenciais, o que por vezes significa oferecer construções mal sucedidas de boas ideias, narrativas apressadas e grosseiras que, desafortunadamente, comprometem a qualidade de muitos filmes.

Mas se a ficção tematicamente nos faz olhar para fora de nossas existenciais para propor cenários sociais mais amplos, é, muitas vezes, o cinema de horror quem endereça os reflexos desse mundo líquido e inconstante para dar tintas aos nossos medos mais básicos e terrenos. Logo, quanto mais desconhecido o futuro, observado sob a perspectiva do presente aterrador, mais propenso à insegurança é o espectador. E insegurança é despertada, na sua causa raiz, pelo medo do desconhecido, pela falta de previsibilidade e incapacidade de projetar qualquer cenário confortável de futuro.

Não é de se espantar, portanto, o “boom” dado pelos filmes de horror, tanto no volume de produções do gênero quanto na qualidade de alguns filmes, a partir do final dos anos 60, em plena revolução cultural e agitação política que trepidava o mundo de então. Filmes como O Bebê de Rosemary (1969) e O Exorcista (1973) são exemplos contundentes dessa época. E o estilo narrativo aplicado nessas produções dialogava com o novo cinema feito em hollywood, que primava por uma aspereza narrativa e estética (fotografia dessaturada e escura, montagem nervosa, interpretações realistas, etc), imprimindo um ar sufocante e original, o que significou uma renovação extraordinária num gênero que, até poucos anos antes, apostava na teatralidade dos seus argumentos estéticos e narrativos.

E hoje, o que tanto assusta as pessoas? Enclausurada em seus casas e escritórios, sufocadas pela urbanização impessoal e expostas aos choques econômicos e culturais de nossa atualidade, o presente se mostra bastante assustador para o público médio. E essa realidade é campo fértil para o cinema de horror. Ele se alimenta dessa realidade…

Não sem motivo, tem se verificado uma explosão de filmes de horror, com temáticas muito próximas: Possessões, casas mal-assombradas, eventos sobrenaturais, que normalmente afligem famílias fragilizadas, seja por uma mudança geográfica e ou psicológica.

Esse é o exemplo do belo filme de horror “Inovacação do Mal” (The Conhuring), do jovem cineasta James Wan, diretor de Jogos Mortias (2004) e Sobrenatural (2010). Todos os elementos críticos deste universo estão lá: uma antiga casa, cheia de cantos escuros e rangidos de suas portas e janelas, ambiente sombrio, de arvores grandes, secas e retorcidas, fora dos centros urbanos, uma história violenta ocorrida tempos atrás na casa, uma família cercada de expectativas e angústias, adolescentes inseguros, etc.

No entanto, tudo isso é posto de forma harmônica na tela, sem maneirismos tolos, deixando um tempo razoável na tela sem som algum para que a casa fale, através dos estribilhos, silvos e outros sinais perturbadores, e, por conseguinte, acabe atraindo a atenção (e a angústia) do espectador.

Somos atraídos para a história e é absolutamente indispensável que façamos isso. De outra forma, fracassa a proposta do filme que é nos assustar. O Bom diretor de filmes de horror entende isso, e investe tempo e cuidado na preparação do Mise-en-scène. Uma vez na cilada, o resto do filme se desenvolve a contento. Portanto, nada de efeitos especiais cintilantes, de uma trilha sonora discursiva e apelativa (que antecipa o susto) e uma montagem previsível. A liturgia do horror aproveita-se das sombras, do mobiliário velho, do silêncio. Muito mais importante sentir a presença do mal do que vê-lo…

O Diretor faz isso de forma admirável. E, de quebra, mostra um filme elegante em seus planos e composições de cena. Logo no começo da projeção a câmera atreve-se num eficiente plano-sequência, acompanhando a família que acabara de se mudar para o casarão. A câmera segue os integrantes da família, e somos apresentados à geografia espacial da trama, de forma orgânica e funcional. E de quebra, um plano virtuoso e que agrada ao cinéfilo mais exigente.

O argumento do filme não é propriamente original, mas curioso: acompanha as aventuras do casal Warren que, durante mais de 40 anos , estudou, investigou e enfrentou espíritos malignos em casas mal-assombradas, em todos os cantos dos Estados Unidos. E o fato desse casal de fato existir, e, em tese, ter documentado os eventos mostrados no filme, confere um ar mais “realista” à projeção, e um leve desconforto pelo testemunho da família no ocorrido, usado, inclusive, como peça publicitária do filme.

O elenco funciona muito bem, sendo uma das forças do filme. Patrick Wilson e Vera Farmiga como Ed e Lorraine Warren roubam a cena. Todos os atores (sobretudo as meninas) que interpretam os membros da família Perron também seguram bem e passam bem a sensação de perplexidade e terror de todos pelos ataques sobrenaturais.

A última meia hora do filme entrega uma cena de exorcismo forte e caprichada, e mesmo que possamos prever o desenrolar da história, em hipótese nenhuma ficamos frustrados como que vemos, já que a “forma”, a resolução da trama é feita com competência, respeitando o investimento emocional do espectador.

O sucesso inesperado do filme encorajou o estúdio a pensar numa continuação, onde o casal Warren seria obviamente o primeiro plano da história.

Num ano de boas surpresas no cinema de horror, “Invocação do mal” se destaca, e mesmo seus pecados (quando obedece certas convenções do gênero) em hipótese nenhuma atrapalha ou empobrece a experiência.

Obs.: Tomem cuidado, muito cuidado, se o relógio de casa parar as 3:07 da manhã…

 

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s