Retrato de um artista enquanto jovem…

63187_f4Dizem que uma obra, por mais original que se apresente, sempre contém traços biográficos de seu criador. Seja enaltecendo virtudes ou exorcizando medos e traumas, elementos da vida de seu autor estão ali, inseridos, de modo que, com isso, seja sempre possível estabelecer uma relação mais direta com o espectador, de forma apologética ou crítica. É por isso que há filmes que calam fundo em nosso íntimo, nos cantos mais recônditos de nossa alma, mesmo que jamais nos recordemos de ter dado a seus realizadores a devida permissão para fazê-lo.

Ingmar Bergman. Tendo nascido em família protestante e em conflito com seu progenitor, fez do indivíduo e suas relações com as instituições basilares da sociedade – a família e a religião – o tema principal de sua obra. O indivíduo somente se entenderia como tal quando rompesse as amarras com estas instituições em decadência moral e material. Sua obra é composta por mais de 50 filmes, sem nunca ter aberto concessões em seu modo elegante e rigoroso de contar uma história.

Um barco para a Índia (Skepp till Indialand, 1947) foi seu terceiro filme, baseado na obra de Martin Söderhjelm, tendo seu argumento rigidamente desenvolvido por um Bergman ainda em amadurecimento, sem o improviso que permeou suas obras que o consagraram mundialmente anos depois. Trata-se de um clássico melodrama – atores representando no limiar do exagero, trilha sonora a enaltecer as situações retratadas, personagens femininos em situação de risco. Trata de um jovem capitão de navio – Johannes Blom – que, ao retornar para sua terra natal, reencontra seu grande amor, Sally, e é informado que seu pai, com quem já não falava desde que partira em viagem, havia sete anos, falecera. Mágoas existem entre Johannes e Sally e, embriagado, adormece a beira-mar, não sem antes nos apresentar, em flashback, o que gerou aquelas vidas fraturadas.

Sua família vive em um barco de resgate de embarcações naufragadas, mas que, por sua vez, também está fazendo água. Alexander Blom é seu comandante: rígido, ríspido, egoísta, em processo irreversível de perda da visão e que decide levar a prostituta Sally, sua amante, para viver com sua esposa, Alice, a despeito do casamento de 25 anos. Bergman, aos 29, já demonstrava a falência moral do casamento, mas, sobretudo, do homem em sua figura patriarcal, supostamente de moral irrepreensível e austera. A embarcação familiar, a fazer água sem que sejam tomadas quaisquer providências para corrigir o problema, solidifica a analogia da família como uma instituição falida e decadente.

Alexander vive em conflito violento e permanente com seu filho, agravado por Sally ter se apaixonado por ele, conferindo a Johannes o ímpeto necessário para romper com a dominação à qual era submetido mas, principalmente, com as humilhações constantes de seu pai em função de sua condição física – Johannes era corcunda, o que, nitidamente, representa o quão pesadas eram a Johannes esta relação e, sobretudo, a culpa que carregava sobre os ombros por não conseguir, por conta própria, romper com este ciclo de violência do qual sua mãe também era vítima. Não causa estranhamento, pois, que no início da projeção as amigas de adolescência de Johannes – Selma e Sofia – constatem que ele já não apresenta mais este problema, estando ereto, impávido, belo.

Filmado em preto e branco, a fotografia é utilizada tão somente para iluminar os espaços e relações ao quais Bergman quer conferir evidência: nada mais importa a não ser a história narrada. A câmera é estática, são os atores que se movimentam pelo plano e nele se mantêm, inexoravelmente: não cabe ao dispositivo que registra a história interferir na narrativa por meio de seu movimento. O olhar bergmaniano é preciso: a dramaticidade das relações se dá por elas mesmas, os médios planos apresentados, retratando as locações e os ambientes, não têm nenhuma outra função a não ser de servirem de ligação entre os momentos testemunhados e de pano de fundo para os personagens. Bergman, ao prescindir em alguns momentos do estatuto do “campo / contracampo” para apresentar as relações em desenvolvimento (vide a imagem que ilustra este post), já prenunciava sua influência em cineastas modernos (Francis Ford Coppola, em The Rain People, de 1969).

É sempre temerário escrever sobre qualquer Bergman, de qualquer fase. Por vezes, não há nada que já não tenha sido escrito, dito e concluído de seus filmes que não torne qualquer análise subseqüente desnecessária.

Espero não ser este o caso, salientando que Um barco para a Índia é uma boa porta de entrada à obra do cineasta mais cultuado de todos os tempos e reverenciado unanimemente por seus pares.

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