Mais do mesmo, só que diferente

Mulheres policiais e homens strippers.

Mulheres policiais e homens strippers.

Recentemente assisti a dois filmes que, a princípio, não tem nada em comum, tirando o fato de serem daqueles pelos quais começando nos desculpando por termos assistido. Sabe como é? “Eu já estava no shopping mesmo” ou “ah, peguei passando na TV a cabo”. Só que eu não vou me desculpar. Pelo contrário, vou me propor a explicar o porquê de, muitas vezes, filmes aparentemente banais valerem a pena. Simbora.

“As bem armadas”, de 2013, é uma comédia policial co-capitaneada por Sandra Bullock e pela nova queridinha do humor do cinema americano, Melissa McCarthy. A premissa é básica: uma socialmente-inábil-mas-profissionalmente-competente agente do FBI (Bullock) precisa unir forças com uma excêntrica e desobediente tira de Boston (McCarthy) para prender uma quadrilha de traficantes. O enredo não importa muito, o filme joga todos os holofotes na química entre as protagonistas e na relação disfuncional-mas-adorável que elas estabelecem. O resultado é um clichê industrial, todo trabalhado nos macetes e traquejos que os espertões hollywoodianos estão cansados de conhecer. Foi ‘marketeado’ muito bem e surfou na crista da recente popularidade de McCarthy e no eterno carisma de Bullock. É um filme divertido, realizado de forma eficiente no que se propôs.

Podia ser mais do mesmo, um daqueles filmes dos quais, depois de alguns dias, nos esquecemos completamente. Só que… será que é? A estrutura de filme policial com pitadas de comédia é tão batida. E ouso dizer que é um grande desafio bater a divertida franquia “Máquina Mortífera”. Será que alguém consegue? Será que “As bem armadas” consegue? Acho que não. O único trunfo na manga do filme Bullock-McCarthy é o fato de as policiais serem mulheres. Diferença aparentemente marginal. Só que… será mesmo?

Aqui vão meus pitacos: o fato de se tratar de um filme sobre duas policiais mulheres é justamente o que faz toda a diferença. Mudam as piadas, mudam as preocupações, mudam as possibilidades, muda absolutamente tudo. Tão doutrinados que estamos a ver poucas possibilidades de feminino no cinema americano, somos apresentados a mulheres fortes, divertidas (ainda que problemáticas), que trabalham, brigam, bebem, trepam e xingam, cujas preocupações passam longe do relacionamento amoroso e extremamente cientes da misoginia (esse é o termo usado no filme) presente nas corporações em que trabalham e na sociedade como um todo. E mais: que estabelecem entre si uma sintonia e uma amizade que, em geral, estão restritas ao universo dos homens da ficção. Mulheres, no clichê hollywoodiano, mesmo que melhores amigas, brigam até para casar no mesmo buffet, vide o nojento “Noivas em guerra” (Gary Winick, 2009).

Inverter a lógica não parece ser uma jogada inconsciente. O diretor, Paul Feig, um competente diretor de televisão, se tornou célebre por ter dirigido o inesperado sucesso escrachado “Missão Madrinha de Casamento”, de 2011, que prometia trazer para o universo feminino o humor caótico das comédias masculinas. Não à toa o filme foi comercializado como um “Se beber não case” sobre mulheres. Eu não gosto do resultado final, acho caricato. Contudo, tanto no filme de 2011 quanto no filme de 2013, as roteiristas mulheres trazem elementos inusitados para as histórias, pois nos tiram de nossa zona de conforto. “As bem armadas” tem claramente uma preocupação de brincar com estereótipos. O chefão do FBI é latino, a policial gorda e nada atraente deixa em seu rastro corações partidos. O preconceito leva a uma conclusão equivocada. Só não se salvam os irlandeses, coitados, que continuam com a fama de beberrões histriônicos e desajustados. Coitada da Irlanda.

Sendo assim, se filmes policiais de homens já são clichês antiquados, filmes policiais de mulheres (e em dupla) nem tanto. E, se você não gosta de spoiler pule essa parte, o tiro no saco dado por Bullock no vilão é uma orgasmática experiência cinematográfica. Para mim, pelo menos, foi.

O outro filme sobre o qual quero falar é o esquisitíssimo “Magic Mike” (2012), dirigido pelo respeitado Steven Soderbergh, que tem no currículo “Erin Brokowich”, “Traffic”, a franquia dos Homens e o Segredo e o incrível “Sexo, mentiras e videotape”. O filme foi feito como plataforma para Channing Tatum (o homem mais sexy do mundo, segundo a revista People)  exibir seu talento e “carisma” (isso está aberto a debates) com uma história semi-autobiográfica. Assim como Mike, Channing foi stripper no início de sua carreira e fez do filme um projeto pessoal.

Truncado, o filme tem um enredo maçante em vários momentos. Os diálogos desinteressantes cabem na vida das personagens, mas perdem nossa identificação. Pouco simpatizamos ou antipatizamos com os personagens, eles não comovem tampouco sensibilizam, nem quando acertam nem quando fazem escolhas equivocadas. Não acho que fosse essa a pretensão de Soderbegh, ou de Channing. A fotografia é um caso a parte. Clichê nas cenas da boate e esquisitas nas cenas diurnas, passadas na Flórida, chegou a me lembrar bizarramente o game GTA San Andreas. Entendo que, para quem vive a noite, o dia possa parecer claustrofóbico e inconveniente, mas não gostei do resultado. Um lance estético pessoal, talvez. Por fim, não liguei a mínima para a crise de consciência de Mike, que busca uma vida menos vazia, violenta e problemática, afinal o mundo do “entretenimento adulto” também aparece mergulhado em sexo desconfortável, consumo de drogas e outras atividades ilícitas.

Entretanto, assim como “As bem armadas”, “Magic Mike” tem como um trunfo inverter o óbvio. É Channing que, objetificado, tenta se libertar da prisão de seu próprio corpo e do lugar que lhe foi reservado na sociedade: o das mulheres. São angustiantes as tentativas de Mike de estabelecer vínculos fora do mundo das boates e de travar diálogos minimamente relevantes com as pessoas a seu redor. Ele quer deixar de ser um produto, um passatempo para o consumo alheio, quer ser levado a sério, ser reconhecimento como alguém inteligente e de sucesso. Suas tentativas naufragam repetidamente. É uma estudante de psicologia, com que Mike tem relações sexuais casuais, quem resume bem o que é esperado dele: beleza e silêncio.

Mike, no fim, consegue deixar a vida de stripper e iniciar um relacionamento monogâmico, e seu passado obscuro gera poucas repercussões para avaliações acerca de sua promiscuidade sexual e ambiguidade moral. Fosse Mike uma mulher, acho que o final seria bem diferente. Para um homem é uma fase. Para uma mulher é o mesmo?

No fim das contas, inverter os gêneros, nos dois filmes, fez toda a diferença.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s