“Gravidade” não é um filme sobre o espaço

Gravidade, Alfonso Cuarón, 2013.

(ATENÇÃO! Eu tento evitar, mas escrevo com SPOILERS, então prossiga com cuidado! Não leia se for se frustrar!)

O espaço é dentro da gente.

Minha afirmação não é leviana. Pode ser que a maior parte das pessoas saia da sala de cinema após assistir “Gravidade”, novo filme do Alfonso Cuarón, com a impressão de que viu um grande filme de suspense no espaço. “Eu sinto como se realmente tivesse ido ao espaço”, confessou um de meus acompanhantes. Não que isso retire, de forma alguma, a graça do filme, mas não era essa mesma a premissa? Um filme sobre sobreviver no espaço. Uma médica em missão da NASA (Sandra Bullock), em órbita, tenta sobreviver a uma série de intempéries espaciais infernais que se sucedem com sua nave e seus colegas da tripulação.

Do ponto de vista técnico, sobre o qual me sinto mal preparada para desenvolver, o filme pode ser impressionante. É inovador, é claustrofóbico, é incrível. A sensação de “como ele conseguiu fazer isso?” é acompanhada de planos espetaculares do nosso planeta visto de cima. “O pôr do sol no Ganges é lindo”, diz o personagem de George Clooney, um excêntrico veterano piloto de ônibus espaciais, que está em sua última viagem.

Cuarón constrói uma experiência bonita e realista de espaço. Não, o som não se propaga. Não, não há explosões. Não é novidade, sabemos desde “Alien: o oitavo passageiro” (Ridley Scott, 1979), mas não deixa “Gravidade” menos interessante. As cenas de destruições são tão magníficas quanto assustadoras. O espaço é um lugar de desespero e silêncio absolutos. Cuarón captou como poucos essa nuance.

Eu podia ficar um bom tempo tentando esmiuçar o filme em termos formais. Eu podia, talvez não conseguisse, mas podia. Só que não quero enveredar por aí. Porque eu, que sou pouco impressionável por tomadas tecnológicas e sci-fi, saí do cinema comovida e emocionada. Talvez seja a minha impressão do filme, talvez seja mesmo um bocado pessoal, mas entendi “Gravidade” como uma metafórica jornada de superação do luto.

Aprendemos, ao longo da narrativa, que Ryan Stone, a protagonista, perdeu sua filha de quatro anos em um tão banal quanto trágico acidente na escola. Ela relata se sentir inerte, deslocada, isolada, tensa e sem esperanças. O espaço, nesse contexto, funciona como uma perfeita combinação entre o que se passa dentro e fora de Ryan. No espaço, ela também está só, entregue e inerte. O percurso de perigos e soluções acontece simultaneamente física e emocionalmente para Ryan, com um belo contaste entre o vasto espaço sideral e o íntimo e pequeno espaço dentro de si. Ambos hostis e sufocantes.

Em sua odisseia pessoal, Ryan está sozinha, porque é somente se libertando de auxílios fantasmagóricos e companhias momentâneas, e lidando com a necessidade de sobrevivência – tanto física quanto emocional – que a jornada será cumprida. “Solte-me”, pede Kowalski, personagem de Clooney, “você só vai sobreviver se me soltar.” Todo herói perde aos poucos suas companhias, aprendemos desde os clássicos.

Numa bela cena, Cuarón nos mostra Ryan, ao conseguir entrar na estação russa, recuperar o ar, despir-se da armadura da NASA que a protege e a limita, e flutuar como um feto no útero, ligada por cabos, tal qual um cordão umbilical. Ryan está fragilizada, mas renascendo.

Torcemos, desesperados, para que Ryan sobreviva, para que volte à Terra, para que não se entregue. A tarefa é hercúlea, e ela chega a quase desistir. Quando, enfim, ela toca a terra firme, percebe que precisa reaprender a andar. A ausência da gravidade e a distância do mundo a deixaram desorientada, mas também lhe deram perspectiva e força. Ela se levanta e sua jornada está completa. Ela libertou-se do luto, sem esquecer, é claro, da claustrofobia da dor. Perder sua filhinha será sempre uma tragédia, o mundo nunca mais será o mesmo, mas ela reaprendeu a andar. Por conta própria. Standing on her two feet. Back on the groud. A língua inglesa é cheia de expressões que remetem ao belo momento do reerguer-se de maneira resiliente.

Quando Ryan entra na cápsula chinesa, há uma miniatura do Buda, outro elemento que me reportou a jornadas internas, reflexão e superação. Nesse sentido, o filme também pode ser uma mensagem meio de autoajuda. “Não desista, não se entregue”. Se eu não me engano, esta última é inclusive a frase de apresentação do filme, que os americanos chamam de “tagline”. Pode parecer piegas, mas não tira o brilho da experiência.

Assisti ao filme com algumas pessoas queridas. Todas saíram individualmente impressionadas, mas nenhuma pareceu dividir a minha impressão. Pode ser, então, que eu tenha entendido o enredo de uma forma muito pessoal. Assim como Ryan, considero que lidei com explosões de estações espaciais, perda de tripulação, falta de combustível, chuva de detritos, inabilidade para pilotar cápsulas russas e chinesas. Não sei bem se já voltei à Terra e finquei os pés no chão. Às vezes acho que sim, as vezes acho que não. Sou um tanto menos habilidosa. Ou talvez meu filme não tenha chegado ao final.

No fim das contas, saio de “Gravidade” inspirada. O espaço é uma bela metáfora. “Solaris” (1972), de Tarkovski, pode ser também sobre a perda de lucidez, ou “2001: uma odisseia no espaço” (1968), de Kubrick, uma epopeia sobre a Humanidade e mesmo a bela canção de David Bowie, “Space Oddity” (1969), sobre drogas e depressão.

Por fim, então, me pergunto: não seria o espaço mais interessante quando, além de estar lá fora, ele também está aqui dentro de nós?

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