A mais bela Trilha Sonora da história do cinema

Image

Eu já escrevi neste espaço do meu interesse por trilhas sonoras. E de como alguns diretores, utilizando-se de trilhas originais (ou não), radicalizam a estrutura narrativa do filme, utilizando a música como elemento central e protagonista da Trama. Como não se lembrar de Tubarão, de Spielberg, e das cordas em acordes ameaçadores de John Willians, ou mesmo a abertura do poema sinfônico de Strauss, “Assim falou Zaratrusta”, que nas mãos de Kubrick torna-se um quase hino da aventura humana na terra e do mistério fundamental da existência, numa ressignificação maravilhosa da obra para o clássico 2001?

Bem, a composição original para o cinema é uma obra de arte. Cabe ao compositor, em função do seu gênio, das suas referenciais musicais e artísticas e, acima de tudo, da sua sensibilidade, estabelecer um recurso narrativo para o filme. A contribuição criativa se dá também pela parceria estreita com o próprio diretor do filme, que compartilha sua visão da trama, da ambientação, dos personagens, e da própria estratégia narrativa. Logo, se um filme trata um tema histórico e épico, a trilha normalmente deve ser sinfônica e com recursos polifônicos, ao passo que um filme noir, que ambienta a trama nos becos escuros de uma Nova York sitiada pelo crime, tem na sua trilha sonora quase a imposição de um jazz com seus característicos solos de saxofone…

Dentro dessa arte segmentada e muitas vezes pouco conhecida, destacam-se alguns mestres. Gênios criadores e inventivos, que serviram o cinema com a fronteira do pensamento musical e da sensibilidade artística. Gênios como Morricone. Maestro Morricone…

Escrever um resumo da obra do mestre é desnecessário. Com mais de 500 obras no currículo (entre filmes e seriados para a TV) e com trabalhos ao lado de cineastas como Sergio Leone, Brian de Palma, Malick, Bertolucci e tantos outros, o mestre italiano é o compositor preferidos da maioria dos cinéfilos. Todos conseguem solfejar alguma composição sua, assoviando as bem humoradas trilhas do período dos Western Spaghettis, ou mesmo aquelas de imenso lirismo melódico, que o caracterizam, principalmente após “1900”, de Bernardo Bertolucci.

Esse post, portanto, é uma espécie de declaração de amor ao mestre, à sua música e sua decisiva contribuição para a minha própria formação de cinéfilo. Eu já preenchi espaços de dias tristes da minha existência com as suas músicas… Já adotei composições suas como trilha sonora não original para os meus dramas e felicidades.

E aqui resgato uma das suas obras mais memoráveis: a trilha sonora composta para o filme “A Missão” (1986), de Roland Joffé, com Robert de Niro e Jeremy Irons. O filme, mesmo conquistando a Palma de Ouro deste ano, possui claros problemas. Eu adianto em afirmar que gosto do filme, ainda mais pela bela reprodução histórica do período das missões na américa do sul. Mas, indiscutivelmente, a força maior do filme está na trilha sonora de Morricone, que faz uma poderosa e sensível combinação de estilos musicais, dialogando o rigor clássico das formações orquestrais do estilo barroco (concerto grosso) com os instrumentos e vozes indígenas. Essa experiência proporciona ao filme o caráter épico necessário à trama, ao mesmo tempo em que combina a tristeza lírica do Barroco (e de certa forma, dos próprios Jesuítas, algozes e vítimas do processo histórico que acabaria por liquidá-los) e os cânticos indígenas, naturais e puros ante a opressão dos Europeus.

Morricone consegue a fusão de duas civilizações tão distintas, que unidas no drama histórico através de sua música, produz a trilha sonora mais bela e lírica já composta para o cinema.

Destaco algumas passagens. Na trilha “Oboé de Gabriel”, Morricone assume a narração da ação. O belo solo de oboé tocado pelo Jesuíta (Jeremy Irons), no início do filme para atrair os índios Guaranis, serve também para apresentar o personagem, acompanhando-o durante a Trama, feita de forma elegante, o que deve também entrar na conta do diretor (Joffé).

Em outras passagens, como “Assim na terra como no céu”, que encerra a película, podemos apreciar puro concerto, com a fusão da música Sacra, sua arquitetura musical barroca, entremeados com atabaques e sopros indígenas. Ficamos ali, ao término do filme, observando os caracteres técnicos do filme enquanto a composição se desenvolve…

Nesta trilha singular, Morricone nos apresenta todo o seu grande e vasto conhecimento de composição, e de como sua música é equilibrada, utilizando todos os recursos da orquestra. Compositores como o John Willians ou mesmo James Horner, importantes para a história da música no cinema, utilizam-se, em excesso diria, das cordas e dos metais graves, o que diz muito sobre os filmes (ou a maioria deles) que eles trabalharam: épicos e filmes de ação…

Morricone, mesmo nas cenas de ação, adicionava suas madeiras, lindos solos de clarineta e oboé, que emolduram a cena e a própria experiência do espectador. Homem que carregou a tradição de Boccherini, Palestrina e Corelli, mas sem ignorar o som dos novos tempos (o saxofone por ele utilizado em “Os intocáveis” e “A lenda do Pianista do Mar”, por exemplo) tem a sua importância compreendida e celebrada por todos aqueles que amam o potencial artístico do sincretismo único entre o cinema e a música.

Anúncios

Um pensamento sobre “A mais bela Trilha Sonora da história do cinema

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s