Liz Taylor morreu

(Escrevi este texto em 2011, quando Liz e alguns outros ainda viviam, embora com a saúde debilitada. Neste domingo, 15/12/13, foram-se Peter O’Toole, eterno Lawrence da Arábia, e Joan Fontaine, protagonista do meu Hitchcock favorito, o obscuro “Rebecca, a mulher inesquecível”. Ressuscitei o texto como homenagem à era de ouro hollywoodiana e suas estrelas, cada vez mais escassas. Que triste é um cinema – e um mundo- sem eles.)

Liz e Monty em algum lugar do passado.

Bom, na verdade Liz não morreu. Ela só está internada. E é claro que eu não desejo que ela morra. Acho que isso é meio subentendido, mas, de qualquer maneira, o que eu quero dizer aqui é, de certo modo, Liz Taylor já morreu há décadas. É uma teoria minha, dessas de botequim, meio intuitivas e charmosas. Sobre o Hollywood star system, a época da produção industrial dos grandes estúdios, a tal era de ouro. Aquele momento da história do cinema norte-americano, entre as décadas de 1920 e 1960, quando você poderia encontrar o Gary Cooper em Mudholland Drive, ler notícias de tabloide sobre a Lauren Baccal, se apaixonar pelo Tony Curtis, desgostar de Humphrey Boggart, ter medo da Bette Davis, bom, vocês entenderam. Essa época aí. De quando atuavam todos aqueles rostos que hoje vemos em peças de decoração para a galera meio descolada em feirinhas de artesanato. Em preto e branco, de preferência.

Esse era um momento, né? Que hoje a gente chama de clássico. E é muito emblemático da indústria. De quando se fazer filmes entrou na lógica fordista e taylorista. E a produção de estrelas atingiu o mesmo patamar. Quando os atores pertenciam de fato aos estúdios, e eram os donos da máquina hollywoodiana que decidiam todos os seus passos.  Os atores e atrizes viviam em constante vigilância. Era essencial para o sucesso comercial dos caríssimos filmes que os chefões da indústria tivessem o domínio absoluto das informações que chegavam ao público sobre seus “astros”. Como as pessoas iam ao cinema assistir ao filme do Clark Gable ou da Greta Garbo, tudo era milimetricamente calculado na imagem pública das “estrelas” para que o público não perdesse a atração e a admiração por estas pessoas. Criava-se, então, uma imagem para aquele determinado artista – galã sedutor, loira burra, mulher estoica, diva egocêntrica, etc – e ninguém podia sair da linha ou desviar, em sua vida pessoal e nos papéis interpretados, da mensagem que deveriam passar aos espectadores.  O risco, para os homens de negócio de cinema, era esse aparente paradoxo: apesar dessas pessoas valerem muito dinheiro, elas não se comportavam, compreensivelmente, como obedientes mercadorias valiosas, então faziam escolhas absolutamente humanas, mas consideradas irresponsáveis e inconsequentes. Humanos fazem mal aos negócios, algo assim, essas des-humanizações que o capitalismo gera.

Para se antever à  humanidade de seus produtos, os estúdios articulavam complexas amarras que questionavam e orientavam as escolhas mais banais (ou mais íntimas) dos atores e atrizes, sob a dura pena de irem parar no limbo hollywoodiano e terem suas carreiras destruídas. Joan Crawford, solteira e quarentona, foi orientada a adotar crianças para atenuar sua imagem durona e insensível. O resultado foi tão desastroso que gerou um livro e um filme de sua filha adotiva (“Mamãezinha querida”, 1991, Frank Perry), que aterrorizou minha infância. Rock Hudson, bem sabemos, para esconder sua homossexualidade foi obrigado a se casar com uma típica esposa americana dos anos 50, causando enorme sofrimento aos dois. A lista é infinita.

Estabeleceu-se, então, uma espécie de dupla atuação por parte dos envolvidos: atores e atrizes interpretando personas cuidadosamente construídas para gerar fascínio e lucro, que por sua vez interpretavam as personagens dos filmes. Dá para entender? Vou dar um exemplo: Rita Hayworth era, na verdade, Margarita Carmen Cansino, exímia dançarina de flamenco e filha de andaluzes, despida de sua origem ibérica e encapsulada na persona de uma arruivada e “caucasiana” femme fatale americana. Margarita fazia Rita que interpretava “Gilda” (1946, Charles Vidor), um dos maiores ícones de beleza feminina do cinema clássico. A construção de Rita era tão complexa que os estúdios ordenaram uma série de intervenções plásticas que “des-etnicizassem” Margarita, como a remoção de parte de sua linha capilar e o afinamento de suas bochechas. O horror. Rita era a persona de Margarita, e é a respeito de Rita que o público se informava: seu casamento com Orson Welles, seus filhos, o dilema do envelhecimento, e por aí vai. Sabemos, via relatos daqueles que viveram aquela época, o quão sufocante era viver dentro dos rótulos forjados por estúdios. O ruiva Norma Jean, orfã de mãe esquizofrênica, tornada loira-objeto sexual Marilyn Monroe, é uma das vítimas mais célebres e dilacerantes da rotulação dos estúdios.

O quão difícil não parece ser ter suas identidades iniciais apagadas ou bastante borradas, nomes novos escolhidos por produtores, esconder a ascendência judaica, ou a sexualidade, viver  uma espécie de encenação teatral, suprimindo aspectos cotidianos da vida? Sabe-se que as atrizes do sistema de estúdio eram proibidas de sair de casa sem maquiagem ou mal vestidas. Sabe-se também que era comum que os estúdios abafassem notícias sobre adultério, consumo de drogas, homossexualidade, etc e tal com suborno ou com notícias fabricadas (Revista Caras, oi?). Tudo isso porque no Star System o foco está na imagem, na persona pública que o ator/a atriz representa e no quê se espera dele/dela. Doris Day é a dona-de-casa rainha do lar, virgem e casta, Greta Garbo a estoica inatingível, Cary Grant o galante conquistador, John Wayne o valente matador de índios.

Esse sistema ruiu no fim dos anos 1960, como muita coisa na sociedade. No caso do cinema, além da contra-cultura, vieram o Método Stanislavski, os filmes independentes, Paccinos, Scorceses e coisa e tal. Mas eu não vou dissertar sobre isso. Só quero dizer que Liz Taylor nasceu e se criou nesse sistema. No auge desse sistema. Ela casou-se e descasou-se com o Richard Burton. Era a melhor amiga do Montgomery Clift. Seus filmes icônicos são todos desse período. Ela ainda transpira a persona construída há mais de cinco décadas, só que esse mundo não existe mais. O movie making adquiriu outra lógica, assim como o sistema das estrelas de cinema. Daqueles que viveram os dias de glória do sistema de estúdio, sobraram poucos, esquecidos, um pouco estranhos, anacrônicos. Acho que é por conta disso que a Liz Taylor gera desconforto. Parece incomodar. Como se ela não coubesse mais.  Eu me lembro de algumas coisas que eu li sobre a morte do Marlon Brando. De como ele teria sido o último a partir. Meio que apagando a luz e fechando a porta. Do Cinema clássico. Mas acho que se esqueceram. Que a Liz Taylor ainda está aqui. Pagando a conta.

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