“Você que ouve e não fala/Você que olha e não vê”

Durval Discos, 2003, Anna Muylaert. 

durval

A tonga da mironga do kabuletê.

Uma possível órfã de cinco-seis anos de idade, um quarentão que vive com a mãe e vende discos de vinil na “era do CD” e uma senhora idosa aposentada e viúva dançam alegremente ao som do samba-escárnio de Vinícius e Toquinho em uma sala de estar dentro de um desgastado sobrado paulistano. “Eu saio da fossa xingando em nagô”. Um plano sequência charmoso pelas ruas de Pinheiros antes da especulação imobiliária jorrar edifícios em tons pastéis para a elite neoclássica que gosta de estacionamentos e espaços gourmet. Uma relação desfuncional e de co-dependência entre um filho anacrônico – escondido em montanhas de discos raros do Tim Maia (“eu achei o Racional, 1 e 2”) em conversas fugazes com as garçonetes da doceria ao lado – e uma mãe solitária e dominadora a quem o senso do real aos poucos parece escapar. Uma trilha sonora de cortar e acalantar o coração (Jorge Ben, Elis, Gil, Caetano, Rita Lee, Luiz Melodia, Novos Baianos, Gal, Sá, Rodrix e Guarabira).

Esta não é uma crítica, mas uma declaração de amor a um filme impecável.

(Cuidado, eu escrevo com SPOILERS! Prossiga com cuidado.) Tudo começa com um retrato ácido e sagaz de faceta de um Brasil que, oxalá, não exista mais.  Durval, dono de uma tão psicodélica quanto antiquada loja de discos em São Paulo; e sua mãe, uma genuína matrona descendente de imigrantes, discutem a necessidade (ou seria possibilidade?) de contratarem uma empregada doméstica para ajudar nas tarefas da casa, realizadas todas pela idosa. Durval menciona que “está se pagando setecentos, oitocentos”, mas a mãe se recusa (“onde já se viu?”). Cem reais por mês, e é preciso cozinhar e dormir no quarto dos serviçais. Esta é a oferta que eles fazem à baiana negra que se recusa, com razão. Durval e sua mãe, encastelados (ou seria “ensobradados”?) em suas egoístas e autocentradas vidas de classe média, não suspeitam quando uma mulher, imediatamente, aceita a proposta. Quando a esmola de menos, o santo também devia desconfiar… Mas, olha só, até fazer o doce de ovo ela sabe… Que benção! Pouco tempo depois, os dois se vêem sem empregada, mas com uma criança, abandonada pela mulher, que – aparentemente – desapareceu.

Solitários e tristes, Durval e a mãe logo se afeiçoam à criança. Seguem-se cenas de passeios de charrete por uma Av. Faria Lima (onze anos depois está irreconhecível), lojas de brinquedo  e bicicletas. A menina, Kiki, traz alegria para a rotina pasmacenta dos dois. No entanto, um instante muda o cenário lúdico (ainda que esquisito) da vida com a criança: ao assistirem um jornal televisivo, Durval e a mãe descobrem que a menina, na verdade, foi vítima de um sequestro e que sua rica família, no interior, está em busca incessante para reencontrá-la.  A partir daí, uma sequência de momentos sensíveis, surreais e dantescos sobre desespero, falta de lucidez e dependência emocional. Todos nos levam em uma jornada desesperadora dentro daquele sobrado, dentro daquelas pessoas. A mãe, tão controladora quanto em delírio, o filho, bem intencionado e inerte, a criança – como de se esperar – sem entender muita coisa, assim como nós. Talvez seja fácil sair de “Durval…” e julgar todos os envolvidos. Eu entendo todos, e sofro por e com eles. 

 E, por fim,  como moradora de Pinheiros, termino a experiência vendo o sobrado demolido, sendo substituído por outra São Paulo, onde Durval e sua mãe são cada vez mais descabidos e caricatos. O sobrado tomba na tela, e o sobrado tomba ao lado da minha janela. Por conta dos dois, durmo com o coração pesado. 

PS. A boa notícia, contudo, é que o sebo utilizado como set – e inspiração, suponho – ainda está por aqui, em um sobrado mais psicodélico e impressionante do que o do próprio Durval. Não sei até quando…

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