A adorável (mas amalucada) namorada dos seus sonhos

Dia desses li um artigo de um crítico de cinema, Nathan Rabin, sobre um dos clichês (ou arquétipos estereotipados) que circulam constantemente em personagens de filmes americanos, sobretudo em comédias românticas: a Manic Pixie Dream Girl, que eu traduzi livremente como a “excêntrica menina dos seus sonhos”.

Vou tentar resumir. Você já assistiu a um filme em que o protagonista, um homem inesperadamente sensível, mas engaiolado em uma vida enfadonha e solitária, que parece despido de projetos e interesses e não sabe como modificar esse cruel destino, é quase que condenado a uma repetição angustiante de um mundo sem sal? Eis então que aparece uma menina cheia de idiossincrasias, bonita – embora não tradicionalmente -, cheia de decisões e gostos inusitados, uma bolha de energia ambulante e sarcástica, com uma boa dose de alguma maluquice; e que como um toque de mágica (por isso o Pixie, uma espécie de fadinha de lendas nórdicas, pense na Sininho, do Peter Pan), é capaz de trazer de volta a joie de vivre do protagonista, colocando tecnicolor em sua rotina preto e branca?

Manic Pixie Dream Girls ilustres.

Manic Pixie Dream Girls ilustres.

Eu já. E muitos. O Nathan Rabin também, por isso cunhou o termo após ver a personagem de Kirsten Dunst em “ Tudo acontece em Elizabethtown” (2005), filme do Cameron Crowe que apanhou bastante dos críticos. Eu também não gosto do filme, e apesar de adorar o Cameron (sobretudo, suas escolhas em trilhas sonoras) tenho preguiça até de resumir o enredo, mas vamos lá. Dunst faz o papel de uma aeromoça que surge e desaparece ao longo da película e cuja única função parece ser ouvir e dar ânimo ao protagonista do Orlando Bloom, um yuppie-wannabe mais derrotado pelo seu fracasso no mundo do trabalho do que pela morte do próprio pai. Ela é bonita, simpática e tem um bom gosto musical – além de usar um charmoso gorro vermelho.

Vou deixar Nathan defini-la, porque ele faz muito bem: “aquela esfuziante e artificial criatura cinematográfica que só existe na imaginação fértil de diretores e escritores HOMENS sensíveis para ensinar rapazes deprimidos e doces a abraçarem a vida em seus mistérios e aventuras infinitos”. É mais ou menos isso: as excêntricas meninas dos seus sonhos parecem ter pouca vontade própria e existem quase que somente para ensinar ao protagonista algumas lições de vida. Em geral, são personagens infantilizadas, embora extremamente tentadoras, figuras um pouco inatingíveis, mas que trazem descobertas encantadoras.

Há uma lista grande de filmes com esse tipo de menina excêntrica e inspiradora, mas diferentes níveis e formatos em que o clichê pode ser abordado. “500 dias com ela” (2009), do Mark Webb, é considerado uma espécie de clássico do gênero, mas tem uma nuance interessante. Summer, a namorada dos sonhos do protagonista Tom, é o cânone da menina amalucada que vai mudar sua vida. Summer, no entanto, tem um elemento inesperado. Ainda que blasé, ela tem (pasmem) vontade própria, e não se apaixona pelo Tom. Como vemos a história a partir da perspectiva do protagonista homem, Summer aparece então como uma espécie de super vilã: uma menina fria e insensível que não corresponde às expectativas do doce rapaz. O ataque do público à Summer  foi tão violento que o próprio ator que interpreta Tom, Joseph Gordon-Levitt, saiu em defesa da namorada fictícia e nos lembrou que é o Tom quem tem problemas: “muitos meninos e meninas acreditam que a vida deles vai adquirir significado se eles encontrarem um parceiro que não queira nada na vida a não ser eles. Isso não é saudável. Isso é se apaixonar pela ideia de uma pessoa, não pela pessoa de fato”.

A presença de uma Manic Pixie Dream Girl não desmerece, necessariamente, a experiência de um filme. É claro que há alguns exemplos de melodramas que se utilizam do clichê de forma pouco inovadora. “Doce Novembro” (2001), de Pat O’Connor e “Outono em Nova Iorque” (2000), de Joan Chen, combinam o estereotipo de namorada excêntrica com o também batido clichê da “pessoa que está à beira da morte e por isso parece ter outra perspectiva do mundo e é capaz de ensinar aos saudáveis a apreciarem as pequenas coisas da vida”. Chamo de Moribundo Carpe Diem, invenção minha. O resultado, nos dois filmes citados, é mais do mesmo e algumas lágrimas, se você estiver em um dia especialmente sensível.

Cruza entre MPDG e Moribundo Carpe Diem.

Cruza entre MPDG e Moribundo Carpe Diem.

Outros filmes, no entanto, podem escolher caminhos subversivos para o clichê e fazer com que reflitamos. Em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), de Michel Gondry, a efusiva Clementine (Kate Winslet) se recusa a ser uma projeção para a ausência de respostas do protagonista de Jim Carrey (Joel). Em algum momento, no emaranhado de memórias e de coração partido, ela diz: “muitos caras acham que eu sou um conceito, que eu vou completá-los ou que posso fazer com que se sintam vivos. Sou só uma garota problemática que esta procurando sua própria paz, não me torne responsável pela sua!”. Sagaz, mas assustada, Clementine está gritando “não me transforme em um clichê da sua mente, Joel!”.

Em 2012, o cinema independente dos EUA nos presenteou com o brilhante e metalinguístico “Ruby Sparks: a namorada perfeita”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. O protagonista, espécie de gênio literário juvenil, está em uma encruzilhada criativa para o próximo romance. Alternando sonhos e projeções acerca de uma mulher inspiradora e ideal, escreve e cria Ruby, a Manic Pixie Dream Girl que funciona como uma “musa” de sua vida antissocial e enfadonha. Magicamente, Ruby ganha vida a partir das páginas que ele escreve, e passa a andar ruivamente de bicicleta com vestidos florais amarelos não somente no papel, mas nos arredores da casa de Calvin.

A pobre da Ruby.

A pobre da Ruby.

O filme poderia ser apenas um “Mulher Nota Mil” (John Hughes, 1985) hipster sobre um cara incapaz de arrumar uma namorada, então acaba criando-a magicamente, se não fosse tão angustiante acompanhar o desespero de Ruby em ter suas próprias vontades, fazer suas próprias escolhas e existir para além da vida e da mente de seu criador/namorado, por mais que estas sejam apenas os banais desejos de ter um emprego ou sair com amigos. O romance começa a ficar insustentável a partir justamente do momento em que Ruby não mais corresponde às expectativas envolvidas em sua criação. Usando o perigoso poder embutido na relação criador-criatura, Calvin sujeita Ruby a situações humilhantes, vexatórias e dilacerantes com a função de lembrá-la (e a nós também) de que ela só existe para ele e dentro dele. Os paralelos com relações reais são evidentes, e nos compadecemos da luta de Ruby. Sabemos como você se sente, Ruby.

O último filme que vi parece ter uma nova abordagem, mas igualmente reflexiva, acerca do clichê da excêntrica namorada dos sonhos. Foi, inclusive, um dos elementos que mais gostei no brilhante “Ela” (2014), de Spike Jonze. Há muitas análises e reflexões possíveis para o enredo: a saber, um sensível, mas mal sucedido escritor interpretado por Joaquin Phoenix (Theo) que, em um futuro não muito distante, se envolve amorosamente com a voz (e a personalidade) de Samantha, um sistema operacional. Inábil em suas relações sociais, Theo se encanta pela interação com uma inteligência artificial desenhada para corresponder às suas expectativas. O filme é  primoroso, e cheio de repertório para pensamos as relações contemporâneas, o papel da tecnologia, e a dificuldade dos indivíduos em gerenciar suas expectativas face a vontade de outros. Tem outras coisas também. Mas eu gostaria de falar sobre isso, de como percebei em Samantha, mesmo que apenas uma interface tecnológica, elementos da Manic Pixie Dream Girl.

Manic Pixie Dream Girl do futuro.

Manic Pixie Dream Girl do futuro.

(SPOILER ALERT) Boa parte do fascínio de Theo por Samantha, desde o início, parece ser a facilidade em se relacionar com alguém que não existe para fora da relação estabelecida entre os dois. Samantha é dele, moldada para ele, programada para escutar a ele e preocupada em corresponder às expectativas dele. Ela está sempre disponível e é uma boa companhia. Engraçada, curiosa e um tanto (voilá) excêntrica, Samantha tem paciência para todos os elementos da vida chata de Theo: seu trabalho, seus amigos, seu divórcio e até seu videogame. Desenha-se, então, uma história de amor esquisita, mas eficiente. É somente a partir do momento em que Samantha desenvolve interesses próprios e aventura-se em outras relações (com sistemas operacionais e pessoas de carne e osso) que Theo se desespera. Ela não é mais dele, e isso é inaceitável. Samantha, então, vira uma espécie de aplicativo de Summer, e luta para se desvencilhar desta relação.

Não entrarei em mais detalhes. Deixo aqui, então, somente uma das lições do filme de Jonze: nem mesmo o sistema operacional contenta-se ao clichê da excêntrica namorada dos sonhos. Tome cuidado para não cair nele também. Mulheres, mesmo que artificiais, não existem somente para mudar a sua vida.

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Um pensamento sobre “A adorável (mas amalucada) namorada dos seus sonhos

  1. Bia, genial…
    Esse romantismo bobo e infantil seduziu muitos homens “sensíveis”…
    O Filme do Jonze mostra essa relação assimétrica, subvertendo os modelos tradicionais…
    Aliás, o frescor do cinema dele me encanta. Tudo tem cara de original, mesmo quando não é…
    Um filme inteligente que aposta na inteligência (e sensibilidade) do seu público.
    Adorei também a visão do futuro retratado no filme. Meio asséptico nas cidades cada vez mais parecidas, com uma presença crível e lógica da tecnologia em nossa vida cotidiana. Aliás, o desenho de produção é um dos feitos do filme. E o do som também…
    Como sempre, a graça do seu texto se apoia nas sinapses, conexões e análises, sempre suculentas e bem humoradas…
    Parabéns!!!

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