As séries de TV e a aflição da indústria do Cinema

O cinema vive uma espécie de crise criativa, mas também uma crise do seu modelo de negócio.  Falo especificamente do cinema estadunidense ou industrial, cuja importância para o cinema é conhecida, pela presença de seus filmes e domínio da cadeia de produção e distribuição em todos os mercados do mundo.

Na verdade essa crise é bem conhecida e facilmente entendida. Com o aumento exponencial dos custos de produção em Hollywood, os estúdios se tornaram mais conservadores do que de costume. Não existe espaço para erro. Um Blockbuster de verão pode custar algo como 200, 250 milhões de dólares. Some-se ao valor investido com propaganda e distribuição, um filme pode custar até 350, 400 milhões de dólares!!!

Na década de 80 ou 90, um filme que atingisse receitas de 200 ou 300 milhões de dólares era considerado um sucesso. Não um grande sucesso, mas bem longe de um fracasso. Hoje, dependendo do projeto, um filme não “fecha” sua contabilidade com uma receita inferior a meio bilhão e dólares. O cinema de estúdio vê-se, portanto, preso em seu próprio labirinto. É cada vez mais forçado pela audiência (especialmente a jovem) por novidades, o que implica em filmes necessariamente caros (pelos aspectos técnicos – efeitos especiais, sobretudo) e, portanto, muito arriscados sob a lógica financeira. Logo, apostam em fórmulas conhecidas ou remakes questionáveis, limitando espaço para diretores e atores autorais, que acabam eventualmente encontrando financiamento e oportunidades no cinema independente ou graças ao poder que possuem na indústria, alavancando projetos mais pessoais e menos mercadológicos.

Esse ciclo emperra a capacidade criativa do cinema americano. Na verdade, juntamente com as novas tecnologias de mídias sociais e a resistência cada vez maior das pessoas saírem de suas casas para assistirem filmes, representam hoje as grandes ameaças dessa indústria.

Mas se o cinema vai mal, ao menos nos seus aspectos criativos, a televisão (especialmente a de programação fechada) irradia em nossos dias algumas das produções mais importantes em audiovisual, sobretudo no cenário americano. Antes desprezadas pelos formatos estético e narrativo, as produções para televisão ganharam respaldo, atraíram a atenção de diretores, roteiristas e atores do primeiro time de Hollywood e estabeleceram uma legião de seguidores. E aqui falo especificamente de duas séries bem atuais e que se conectam nos temas que desenvolvem, mesmo que num primeiro olhar sejam tão diferentes.

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A série “Breaking Bad” de Vince Gilligan, narra a trajetória trágica de um pacato professor de química de uma escola pública em Albuquerque (Novo México) que, após ser diagnosticado com um avançado tumor, e desesperado pela iminência de deixar a esposa grávida e o filho fisicamente dependente sem uma provisão financeira, aventura-se no mercado da metanfetamina. Um argumento inovador e provocativo. E o seriado, em cinco memoráveis temporadas, desconstrói o sonho americano, abusando de recursos narrativos verdadeiramente cinematográficos e composições de personagens críveis e complexas. Para os atores, uma rara oportunidade de desenvolver papéis desafiadores e distantes do unidimensionalismo da maioria dos personagens do cinema de estúdio atual.

Em “Breaking Bad”, filmado numa cidade cercada pelos desertos do Novo México, a aridez do cenário servia simbolicamente como alusão da própria sociedade americana, em especial para sua classe média, assolada por um darwinismo social encubado décadas atrás. No seriado, assistimos pessoas da base social lutando para sobreviver, num universo bastante Scorseseano. A série é hoje dita e reconhecida como das mais importantes da história da televisão americana, colecionando aficionados a cada capítulo apresentado e projetando, definitivamente na indústria, os nomes de Gilligan (dono do argumento e produtor) e Brian Cranston, ator imortalizado pelo papel de Walter White.

Fora dos EUA, a série “explodiu” graças ao NETFLIX, já famoso hub de filmes e seriados, acessível pela internet e cujo modelo de negócio revolucionário promete mudar a regra do jogo dos canais fechados, assim como antes determinou o fim do mercado de locadoras de DVDs.

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Outra série, mais recente, vem chamando a atenção, também pela qualidade do seu roteiro e do tratamento narrativo “cinematográfico”. Produzido com total liberdade pela NETFLIX, “House of Cards” é produzido por Beau Willimon, e tem no diretor David Fincher, a assinatura estética que permeia toda a obra. Todos os recursos de Fincher estão lá, mesmo que ele só tenha dirigido os dois primeiros episódios da série (não é toa que o diretor é um dos produtores da série). A edição nervosa e um roteiro (recheado de bons diálogos) garantem um tratamento artístico acima do comum. Já na abertura dos episódios assistimos tomadas rápidas e assépticas de uma Washington, à medida que a noite envolve a cidade. Tudo, naquele lugar, é decidido nas sombras, nos corredores escuros, no silêncio dos gabinetes. A fotografia fria que Fincher utiliza prova-se óbvia, mas bem empregada. Combina com o tom colossal e impessoal da capital do império, mas também com a emoção (ou falta dela) dos seus personagens principais, principalmente do deputado Francis Underwood (Kevin Spacey) e sua esposa Claire (Robin Wrigth), que juntos formam um dos casais mais assustadores e interessantes do cinema/televisão de que se tem memória.

O seriado acompanha as artimanhas de Francis e Robin na sua ascenção política Estadunidense. No caminho, são implacáveis com inimigos e até mesmo aliados. A lógica é a obtenção máxima de poder, numa alegoria social que serve de painel para toda aquela nação. A decisão narrativa que mostra o personagem Frank Underwood olhando e conversando para a câmera,  tornando o espectador “cúmplice” da trama é batida, mas não compromete o projeto e mostra-se acertada, muito por conta da interpretação inspirada de Spacey. O risco dessa decisão é que podemos nos incomodar com essa cumplicidade, já que o nosso interlocutor é um ser desprezível (diferente do antológico Ferris Bueller de “Curtindo a Vida adoidado). Mas a decisão da equipe do seriado é essa mesmo: provocar incomodo e ojeriza por aquele tipo de gente naquele universo, mesmo que na jornada de Frank não achemos graça do seu humor ácido e corrosivo. Mas a nossa “tolerância” com o personagem em acompanhá-lo em meio a tanta sordidez diz muito sobre a elasticidade moral que vivemos hoje. Ou mesmo despolitização crônica.

E ai estabeleço uma ponte temática entre esses dois grandes seriados: Se as artimanhas palacianas de Washington acontecem impunemente, onde lobistas influenciam votos de congressistas e o executivo se vê cada vez mais paralisado pela ineficiência dos ritos e códigos da política, o reflexo desse universo é exatamente na ponta sociedade, onde a outrora orgulhosa classe média americana luta para sobreviver, em progressivo empobrecimento e infantilização, acentuado pelo escapismo superficial dos meios de comunicação, (que a série “House of Cards” comenta tão apropriadamente), obrigando as pessoas comuns a sobreviver somente, num avançado estado de desesperança alienadora que a série “Breaking Bad” discute tão bem.

Outro aspecto semelhante é que as duas séries produzem extraordinários estudos de personagem de seus protagonistas, ambos cafajestes e sociopatas. Se Walter White se transforma num traficante ardiloso e manipulador e no caminho deixa um rastro de morte que arrasta, no final, até a sua família que ele tanto discursou proteger, Francis Underwood esgueira-se pelos corredores de Washington como uma serpente perigosa e fatal, massacrando quem precisar para o atingimento dos seus objetivos. Ambos viciados em poder, mesmo que ele signifique coisas diferentes em função dos seus universos distintos: Se o poder do primeiro se mostrava num carro esportivo que ele presenteava o filho ou na intimidação de um traficante rival, para o segundo significava ter absoluto poder sobre os outros, usando-os e descartando-os como frutas sorvidas. Em ambos os casos, demonstrando a falta de escrúpulos de uma parte do público, eles acabaram “ungidos” como heróis ou (anti-heróis), quando são na verdade crápulas odiosos, reflexo da doença social que se abate sobre aquela sociedade. Mas não comente sobre ela…

Ambas as série mostram, portanto, uma sociedade que agoniza, mesmo que seu poder global demore ainda décadas para se extinguir (se isso de fato acontecer). Mas também saliento que esse fenômeno não tem tintas unicamente estadunidenses, verificado em estado mais ou menos avançado mundo fora, o que demonstra estarmos vivendo uma profunda e preocupante crise de representatividade e de esperança na política como prática transformadora…

E se a crise num modelo de negócio bilionário (o cinema) provoca oportunidades de inovação verdadeiramente “schumpeterianas” na televisão aberta ou fechada, nos resta torcer para que haja, em algum momento, algum equilíbrio entre elas, para benefício da própria indústria.

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