Capitão Phillips (2013) – Diretor: Paul Greengrass

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Eu gosto bastante da obra do diretor Inglês Paul Greengrass, notabilizada pela edição frenética, câmera na mão, tensão da sua narrativa e a ambição de discutir política para o grande público, mesmo sem usar um discurso direto e estruturado.

Sua forte assinatura vem desde o seu primeiro filme para o cinema (na verdade produzido originalmente para a BBC e que acabou sendo apresentando nos cinemas), Bloody Sunday (2002) onde ele conta a história do massacre de Derry (acontecido em janeiro de 1972), na Irlanda, realizado por forças de repressão inglesas contra uma manifestação pacífica que pedia o fim da ocupação e respeito aos direitos humanos. Se a tragédia era conhecida, assim como o destino de alguns personagens, a estratégia narrativa de Greengrass residia na descrição forense daquele dia, acelerando a edição e a conseguinte tensão até o seu clímax, ou trágica conclusão, onde 14 jovens são assassinados pela polícia e o exército britânico sem qualquer motivo.

A experiência nova e até certo ponto radical do diretor o conduziu para Hollywood, sempre atenta aos talentos mundo afora. Greengrass assume os dois últimos filmes da trilogia Bourne, aplica sua visão e tensão narrativas esperadas e, sob certo ponto de vista, revoluciona o cinema de ação, em especial o thriller de espionagem. Tanto é que essa estética influenciou até mesmo a reconfiguração do desgastado Bond, que sob a interpretação de Daniel Craig torna-se um espião atormentado, cansado, amargo, longe do cinismo Blasé de outrora.

No ano passado (2013), o diretor lança seu novo longa, Capitão Phillips (2013). O repertório de Greengrass está todo ele presente: Edição rápida em forma de crescendo, câmera na mão, mensagem política de fundo. Aqui, vejo outra tendência da sua obra, decorrência natural da sua ambição de discutir política em filmes adultos porém palatáveis para o grande público: O choque, a tensão, a contraposição entre universos tão distintos. No começo do filme acompanhamos o Capitão da Marinha Mercante Richard Phillips (Tom Hanks), deslocando-se do subúrbio onde vive nos EUA até o aeroporto, onde vai pegar o avião para o local onde seu navio está aportado. Discute coisas corriqueiras com a esposa. A grande interpretação de Hanks, que sempre confere credibilidade para os homens comuns que ele interpreta, nos faz entender que ele é um homem relativamente calado e cansado da vida de viagens frequentes. Existe uma pequena tensão ali, adormecida na alienação da vida mecanizada daqueles personagens.

O filme corta para a Pobreza do litoral Somaliano. Uma milícia local alicia pessoas da localidade para sequestrarem um navio mercante. O Ponto de vista do espectador é centrado no personagem Muse (Barkhad Abdi), que embarca com outros homens na desesperada missão de encontrar um barco e saqueá-lo. A precariedade daquela gente, vivendo num país despedaçado e virtualmente sem um estado, oferece o contraponto brutal ao mundo de Phillips. É nessa tensão que se apoia o filme, e nas ótimas interpretações da sua dupla de protagonistas.

O filme tem problemas. Não poderia deixar de sê-lo, uma vez que a história batida entre o ocidental rico e civilizado, confrontado pelo homem subdesenvolvido, seja ele africano, asiático ou latino-americano, é quase um subgênero cinematográfico. O arco dramático dessas histórias é quase sempre o mesmo: a tensão natural entre origens e universos tão distintos, um evento extraordinário (um desastre, uma guerra, uma fuga etc.), a desconfiança oriunda dessa tensão, a conseguinte aproximação dos personagens e a resolução do evento, normalmente com o reconhecimento do ocidental “civilizado” da grandeza ou sofrimento do homem pobre e barbarizado pela pobreza e ignorância. No filme, após o fracasso do sequestro (que demonstra até certa inocência e certamente despreparo dos “Piratas”), os Somalis fogem do navio usando o barco salva-vidas da embarcação, levando Phillips como refém, o que se mostra um erro fundamental.

Em “Capitão Phillips” percebe-se esse arco dramático cliché. No entanto, Greengrass explora toda a violência simbólica dessa diferença entre realidades tão distintas quando mostra o verdadeiro “carnaval” bélico que os americanos lançam sobre 4 assustados Somalis, na operação desenvolvida para salvar “um dos seus”. O filme vai entrecortando o desenvolvimento crescente entre os sequestradores e o Capitão, numa tensão claustrofóbica angustiante, e os miliares americanos e a sua parafernália tecnológica ostensiva, chegando ao ridículo de empregarem três navios para cercar a patética embarcação salva-vidas onde a ação se desenrola. Sobre os militares, especialmente, gostei da caracterização que o diretor os emprega. Longe do heroísmo histriônico e das patriotadas de outros filmes, aqui os militares estão sempre tensos, em decorrência natural do seu profissionalismo, mas sem ufanismos. Numa cena em especial, o capitão de uma das covertas americanas olha para o espelho (e para câmera) com aspecto cansado, pressionado pelos resultados de um possível embaraço geopolítico para o Império.

E mesmo considerando os eventuais escorregões deste tipo de filme, seu final cheio de angústia nos cola na cadeira. Terminamos o filme com um gosto amargo na boca. Um desconforto natural ao acompanharmos o desenrolar de uma história tão cheio de tragédia e símbolos de violência Norte-Sul.

Destaco, novamente, a interpretação arrebatadora de Tom Hanks. Incomparável para interpretar homens simples e comuns em situações extraordinárias. Na cena final, onde seu personagem ainda em choque tenta, entre estribilhos, relatar sua condição para uma enfermeira, até desaguar num choro trêmulo e nervoso, é de engasgar.

Um filme acessível e adulto de um diretor que dialoga com o grande público através de thrillers eficientes e muito bem realizados. E, quando possível, mostra as assimetrias e simbolismos da violência que caracteriza a relação entre dominadores e dominados. Entre o império e seus rincões.

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