O dia que durou 21 anos (2012) – Diretor: Camilo Tavares

 

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O documentário “O dia que durou 21 dias” de Camilo Tavares traz um ângulo diferente sobre os eventos históricos que culminaram no golpe civil-militar, no infame dia de 1º abril de 1964. O documentário utiliza, de forma muito competente, a análise de historiadores estadunidenses, que atestam a interferência de seu país no processo político brasileiro, financiando a oposição ao então presidente João Goulart (Jango), numa clara interferência e desrespeito à soberania nacional. E o interesse vem junto com a certa legitimidade que essas pessoas trazem para o filme, afastando um certo revisionismo histórico que refuta tamanha interferência.

O Financiamento foi, na verdade, a menor das interferências. O embaixador Lincoln Gordon (figura sempre presente em todo documentário) articulou, com os setores golpistas, o plot que liquidaria a democracia brasileira, alimentando a paranoia comunista em Washington, convencendo dois presidentes (Kennedy e depois, L. Johnson) a mobilizar fundos e a própria inteligência militar estadunidense e interferindo, odiosamente, no curso da história Brasileira.

O documentário tem alto valor histórico por revelar arquivos históricos que comprovam a envergadura do complô. Gravações do salão oval (prática comum estadunidense, as gravações são reveladas depois de muitos anos, e disponíveis na biblioteca do congresso) de Kennedy e depois, Johnson, mostram a preocupação do império em lidar com outra nação insurgente, “traumatizados” que ficaram com a revolução Cubana. E o Brasil, pelo tamanho econômico e peso geopolítico, era considerado peça chave no xadrez que os estadunidenses jogavam, à época, com os soviéticos. Prova disso foi preparação de um incrível plano de intervenção militar, chamado de “Operação Brother” e que deslocou a frota do caribe (ou atlântico sul), composta por um porta-aviões, destroieres, corvetas e 20 mil marines prontos para uma eventual intervenção. Caso os golpistas (ou “revolucionários” segundo alguns) fracassassem ou encontrassem resistência de forças legalistas, a força tarefa estadunidense entraria em ação, com reflexos ainda mais brutais para o futuro do país.

O documentário, portanto, trilha um caminho que confirma aquilo que todos sabíamos: os golpistas eram nada mais que entreguistas. Vendilhões . Traidores…

Para os brasileiros registrados em testemunhos pelo filme de Camilo, destaco duas forças antagônicas, ambas militares: o truculento General Newton Cruz e o Brigadeiro Rui Moreira Lima, piloto heroico da FEB. Dois militares que optaram por caminhos distintos e que terão, certamente, tratamento diferenciado da história. Enquanto a retórica histérica e boçal do General Newton Cruz serve como representação “ideal” da caserna golpista, o Brigadeiro, legalista e democrático, é aquilo que a instituição militar poderia ter sido em nossa história.

O filme explora pouco, ao meu ver, a decisão de Jango, de fugir para Brasília (no dia 1º ele se encontrava no Rio de Janeiro, tendo passado a noite anterior no Palácio das Laranjeiras), e de lá, para o Rio Grande do Sul. Seu chefe de segurança de gabinete, num determinado instante do documentário, pergunta: “Por que ele não resistiu?”. Na verdade, essa decisão de Jango é uma questão importante, que poderia e deveria ser melhor tratada. E aqui imagino a dificuldade documental ou mesmo testemunhal de outros oficiais legalistas, pela discrição ou mesmo falecimento dessas testemunhas históricas.

O filme acaba meio que se dividindo entre a articulação estadunidense em busca de sócios para o golpe, e os desdobramentos militares, eleitos para o trabalho sujo. E fiquei com muita vontade de ver um documentário tão bem dirigido como este, mergulhando nos segredos, tensões e equívocos dos militares na vida nacional. E também de um debate que, creio eu, deveria ser debatido em nossa sociedade. Como os nossos oficiais são formados? Como se dá essa formação? Ela é baseada em que linhas filosóficas?

Baseado na relação ainda distante que as forças armadas têm com a própria sociedade que elas supostamente juram defender, questões urgentes como a radicalização democrática, a necessidade de direitos e o combate às iniquidades ainda são assuntos distantes das academias militares brasileiras. Taí um belo argumento para um ótimo documentário…

Destaco a edição bem construída, entre imagens e testemunhos históricos, que confere um tratamento cinematográfico à narrativa do documentário.

Rico em registros históricos, e fornecendo informações imprescindíveis para o conhecimento de um momento tão crítico e importante, “O dia que durou 21 anos” é, nesse sentido, quase obrigatório. E mesmo os eventuais (e poucos) momentos de maior superficialidade, ao interpelar ao menos dois assuntos muito importantes de forma relativamente corrida, o documentário é um feito histórico e jornalístico notável, de uma época que desenhou tragicamente muito dos vícios atuais do nosso país.

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2 pensamentos sobre “O dia que durou 21 anos (2012) – Diretor: Camilo Tavares

  1. Os motivos pelos quais Jango foi induzido a se deslocar para Brasília, assim como o fato de que não tinha como resistir militarmente estão, entre outras fontes, bem colocadas no livro recém lançado d Almino Afonso “1964”.
    Do filme, a única discordância está nos “21 anos”, q pra mim d fato foram 25, contada a derrota da emenda das diretas em ’84 c/a mais do q rápida aceitação do colégio eleitoral pela oposição formal, e a posterior tutela sob o ex líder dos militares no congresso, o indefectível e eternamente governista Sarney, com direitos a surtos do general Leônidas durante a constituinte d ’88, ameaçando novas intervenções militares a todo momento.

    • Marko, valeu pela contribuição. Na minha crítica eu explicitei a necessidade de uma melhor explicação da recusa do Jango em resistir. Entendi que o pouco tempo do filme e a possibilidade das pessoas envolvidas em falar (ou mesmo no registro das mesmas, já que muitas já faleceram) certamente pesaram na narrativa deste momento específico. Mas o filme é muito bom, e como escrevi, necessário até…

      Valeu camarada pelo prestígio…

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