Capitães de Abril (2000) – Direção: Maria de Medeiros

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No aniversário de 40 anos da Revolução dos Cravos, que destronou o carcomido regime Salazarista através de um levante militar, realizado, sobretudo, por oficiais de média patente das forças armadas Portuguesas, é importante lembrar o belo filme da diretora e atriz Maria de Medeiros.

O Regime de então, liderado pelo professor Marcello Caetano (herdeiro político de Salazar), conduzia o pequeno e empobrecido pais europeu por uma guerra colonial em terras Africanas, claramente fadada ao fracasso. Portugal, aprisionado pela lógica Salazarista, que mergulhou o país num orgulhoso ostracismo político e econômico, era uma aberração política (juntamente com a Espanha e a Grécia), numa Europa que florescia politica e economicamente após a destruição provocada pela II Grande Guerra.

Restou aos Capitães, cansados das Guerras coloniais e cada vez mais relacionados com setores oposicionistas da sociedade Portuguesa (dos liberais aos comunistas), iniciar um levante militar (sem apoio dos chefes militares – generais e brigadeiros) que pusesse fim ao triste regime. E o que é lindo nessa passagem da história portuguesa é perceber que jovens (na sua maioria), sem apoio dos grandes agentes políticos e sociais do País, ousaram sonhar, mesmo contra os traumas históricos de um país tragicamente preso à saudade de tempos passados, em transformar uma sociedade decadente numa outra, moderna e aberta para o futuro, ainda que sem um plano político claro. E esse despreparo imediatista dos insurgentes, adicionado de um insuspeito romantismo, mostrar-se-ia fatal para as pretensões transformadoras e radicais de muitos dos Capitães, e de grandes parcelas da população, momento muito bem retratado pela Diretora.

Maria de Medeiros desenvolve um projeto muito pessoal. É possível perceber o grande carinho com o qual a Diretora retrata os protagonistas do 25 de Abril, acompanhando de perto o sonhador Capitão Maia (Stefano Accorsi), que desde a primeira aparição estabelece uma conexão imediata com os espectadores. Ao seu lado, o imprevisível, cínico e cético Oficial Gervásio (o ótimo Joaquim de Almeida), que funciona na narrativa como um Grilo falante, provocando a todo momento o jovem Maia, instigando-o a pensar o quão intrincado é o jogo Político, quão nebulosas são suas decisões e como o povo, normalmente, é conduzido por uma consciência produzida e artificial. “O Povo é formado por um bando de ovelhas. Querem ser conduzidos”, diz num certo momento, com arrogância certeira. Na verdade, por trás de personagens tão clássicos de qualquer trama política, somos sempre inclinados a torcer pelos Maias, mas, por vezes, deixamo-nos esquecer dos Gervásios, mesmo que saibamos das suas presenças.

E mesmo que o primeiro ato do filme se mostre esquemático e talvez burocrático demais na apresentação de tantos personagens, a energia da narrativa altamente emotiva de Maria de Medeiros nos transporta para aquele dia.

Outro aspecto marcante da obra, que denota segurança e habilidade de sua diretora, é a capacidade de intercalar momentos dramáticos e outros, de verdadeiro alívio cômico. Impagáveis são momentos onde militares insurretos não conseguem entrar no próprio carro cheio de armas, no que são ajudados por um bonachão guarda de ronda, ou quando um comboio militar para subitamente num semáforo, “para não arriscar a segurança dos civis”. A montagem de Jacques Witta é particularmente feliz ao dar fluidez narrativa a três pontos geográficos distintos da trama: Os militares que marcham rumo a Lisboa, outros, responsáveis por tomar uma rádio para, a partir dali, irradiar nacionalmente o golpe e a esposa de um dos miliares, Antónia (a própria Maria de Medeiros), jornalista que passa a madrugada mergulhada na angústia ao saber da prisão de um de seus alunos.

Não posso negar: ao ouvir a canção de Zeca Afonso, “Grândola Vila Morena”, escolhida pelo Movimento das Forças Armadas como código para o levante e ouvida em muitos momentos no filme, senti a energia emocional do filme, e o propósito da Diretora em homenagear aqueles jovens. E as cenas da Lisboa tomada de gente, na manhã do dia 25 de abril, clamando por direitos, gritando palavras de ordem por décadas proibidas (e é particularmente lindo o momento que várias mulheres, de todas as idades, de braços dados – dentre elas a própria Maria de Medeiros, clamando por mais “liberdade sexual”). Adultos chorando, se abraçando, e aqueles garotos derrubando, com botinas e alguns tanques, o resíduo apodrecido dos anos de chumbo na Europa.

Filme tocante por retratar um dia fundamentalmente belo na sua essência, ele também mostra os limites políticos do próprio movimento, quando este se vê encurralado nas exigências de Marcello Caetano, desejando entregar-se somente ao Generalato, de forma que “as ruas não decidam quem fica com o poder”. E, sendo aqueles capitães impulsionados por um desejo genuíno de mudança e abertura, não lhes ocorreu essa cilada política, bem ao gosto de uma nação cuja história institucional está farta de decisões tomadas pelo estamento de sua burocracia estatal. E esse final, onde Maria de Medeiros filma a maneira arrogante com que o General Espíndola assume o controle político da situação, e destacando o jovem Maia para “escoltar” Caetano e seu staff para o aeroporto, é um sorvo amargo que contrapõe um movimento quase  romântico, incensando pelo povo nas ruas de Lisboa.

Hoje, 14 anos depois do lançamento de “Capitães de Abril”, Portugal está, novamente, às voltas com um poder opressor. A temida “troika”, junção sinistra do Banco Central Europeu, FMI e Mercado Financeiro, impõe um pacote terrível de cortes financeiros em áreas sensíveis da sociedade, destruindo todos os avanços sociais dos últimos anos, em nome da tal responsabilidade fiscal. E, num momento que o mercado sequestra a democracia (não só em Portugal), ficamos imaginando a marcha cínica do mundo, que não mais precisa de ditadores teatrais para submeter toda população às vontades de outrem. Essa lembrança, somadas às reflexões finais do filme, tornam a experiência ainda mais amarga.

Resta-nos assobiar “Grândola…” e lutar por um mundo mais fraterno…

 

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