E Robin Williams passou por aqui. A vida é um sopro…

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“A vida é um sopro”. A famosa expressão de Niemayer traz essa urgência da vida. Urgência e brevidade. A vida é breve. A vida é um sopro.

E foi um calafrio que senti quando um sopro anunciou, nas redes sociais, a morte de Robin  Williams.

Confesso que não me lembro do último grande trabalho do ator, que ficou, durante muitos anos, prisioneiro das fórmulas e regras comuns à Hollywood.

Mas para alguém como eu, que ultrapassou a barreira dos 40, a figura de Robin sempre foi presente, principalmente se você é apaixonado por cinema. Descoberto pelo público interpretando o mítico Popeye (1980), de Robert Altman, o ator disparou a filmar incansavelmente durante toda sua carreira. Reputo, no entanto, que os seus melhores filmes situam-se entre os anos 80 e 90. Nesse período trabalhou com diretores importante como Altman, Mazursky, Spielberg, Van Sant, Coppola e Gilliam, dentre outros.

Sempre me tocou seu olhar triste, meio melancólico, que caracterizava suas interpretações. Tinha uma dor ali, um olhar de sentimentos não concretizados, de uma sensibilidade verdadeiramente inocente, incomum para o ecossistema social imediatista e ególatra que é Hollywood.

Lembro-me com carinho de alguns grandes personagens, como o dissidente soviético Ivanoff do filme Moscou em Nova York (Moscow on the Hudson) de Paul Mazursky (1984), onde um músico foge da delegação soviética numa viagem aos EUA e pede asilo. No entanto, a saudade da família e dos amigos acaba se tornando um grande obstáculo para sua nova vida num país estrangeiro, o que me faz recordar, inclusive, do belo filme que Mazursky realizou…

Nunca me conectei com o filme Bom Dia, Vietnan (Good Moorning, Vietnan) de Barry Levinson (1987), mesmo considerando-o um bom filme, ainda que datado. Mas impossível não considerar o filme de Levinson como propulsor da sua carreira.

O seu personagem mais conhecido, mais relembrando, e, tenho certeza, um dos grandes personagens do cinema contemporâneo, pela porta que abriu para o cinema e também para a literatura, o sensível professor Keating do filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir, certamente permanece como lembrança viva do potencial dramático do ator, que mesmo não sendo extraordinário, quando bem dirigido entregava interpretações tocantes e bastante acima da média.

Tenho pra mim, no entanto, que o Robin Williams inesquecível foi sua atuação como o professor de História Parry, no jovem clássico Pescador de Ilusões (The Fisher King), de Terry Gilliam (1991), onde ele interpreta alguém que perde a sanidade (e a própria alma) quando sua família é brutalmente assassinada. Em nenhum outro personagem sua melancolia foi tão bem usada, em pró de alguém que vive uma realidade fantasiosa e tremendamente romântica, mergulhada num universo de imensa tristeza lírica. Último grande filme de Gilliam (diretor que eu adoro), e um dos grandes filmes dos anos 90.

No filme Jumanji, de Jon Johnston (1995), talvez encontremos a sua essência, onde interpreta um adulto que fica durante muitos anos preso num jogo (num universo fantástico). Vemos um homem feito, mas o olhar, indiscutivelmente, é de uma criança. Não é um grande filme, certamente, mas Williams provavelmente nunca foi tão ele.

Nesses filmes, sempre esperávamos um suspiro dolorido de Robin, mesmo depois de uma risada fugaz. Nossos olhos brilhavam. O meu certamente.

Quem frequenta cinema há mais de 35 anos, como eu, já teve vários encontros com o ator. Poderia escrever páginas e páginas sobre outros filmes, e outras emoções sentidas nas viagens que fiz com os seus personagens.

Fico, no entanto, com o brilho triste e promissor de um ator que representou sempre a expectativa de grandes filmes, entre as décadas de 80 e 90, e que vai para a posteridade carregando um pouquinho dos nossos risos e das nossas lágrimas.

A vida é um sopro…mas provoca na gente uma saudade…

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4 pensamentos sobre “E Robin Williams passou por aqui. A vida é um sopro…

  1. Belo texto, pra mim um filme no qual ele atuou e q no tema central d suas pequenas histórias resume bem o dilema da situação é o “Being Human” (não sei se tem título em português), d 1994.

  2. Que melancolia, Rene. Quando a gente vê alguém perder a batalha para a depressão – gente como eu, que não está assim muito convencida de que existe algo além daqui -, nossa, que dor. Fica bem, Robin.

    Só queria acrescentar aqui dois filmes do Robin que me comovem bastante, muito embora ele faça papéis menores: As Aventuras do Barão Munchausen (1988), também do icônico Terry Gilliam; e Desconstruindo Harry (1997), do Woody Allen.

    Também acho a atuação dele em Tempo de Despertar (1990), da Penny Marshall (detalhe, a primeira mulher a dirigir dois filmes que arrecadaram mais de 100 milhões de doletas). Filme pequeno e sensível sobre o que é ser lúcido. A saúde mental parecia ser uma questão para Robin.

    O último filme do Robin que vi foi “O pior pai do mundo” (2009), do Bobcat Goldthwait, comédia de humor negro e de baixíssimo orçamento que, pelo menos para mim, trouxe Robin no que ele sabia fazer melhor, misturar riso com desespero. O filme repercutiu em Sundance, mas não fez muito barulho depois.

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