Sobre Sessão da Tarde, John Hughes, anos 1980 e Brat Pack

“Porque cada um de nós é um nerd, um atleta, um maluco, uma princesa e um criminoso. Isso responde sua pergunta? Sinceramente, o Clube dos Cinco.”

Outro dia desses eu estava pensando sobre a influência da Sessão da Tarde na construção da minha identidade. Porque, veja, ela é grande. Além das questões de caráter, de referencial estético e cinematográfico, tem coisas concretas mesmo. Por exemplo, eu escolhi o nome da minha priminha por causa de um filme da Sessão da Tarde. Eu sou beatlemaníaca por causa da Sessão da Tarde. Então esse é um texto pouco elucubrativo, sem grandes pretensões, é só um desabafo.

Inicialmente, esse post sobre a Sessão da Tarde era para ser uma homenagem ao John Hughes (1950-2009), icônico cineasta pop hollywoodiano dos anos 1980. Era um post para falar de “Curtindo a vida adoidado” (1986), “Mulher Nota Mil” (1985)  e “O Clube dos Cinco” (1985) e de uma entrevista que eu li do Hughes sobre o cinismo que ele identificava na geração do fim da Guerra Fria: os jovens que ele estava abordando com seu cinema, quem tinha entre quatorze e vinte anos no início dos anos 1980. O Hughes se angustiava com o que ele achava ser uma juventude vazia. Sem perspectiva mesmo. E de como era tão diferente dos jovens de maio de 1968, tanto em números absolutos (afinal, em 1960 eram os numericamente relevante oriundos do babyboom), quanto em orientação, postura e possibilidades. O próprio Hughes foi um jovem dos anos 1960 e aquilo significava revolução e rebelião contra o status quo. E os anos 1980 criaram essa cultura jovem desmiolada e hedonista. Do video-game, do videoclipe, do tédio e tal. Que vigora até hoje, se pararmos para pensar. (Embora eu ache que a juventude sinaliza um pouco para uma guinada cada vez mais conservadora, talvez.) Então que os filmes do Hughes, veja você, tinham esse elemento de crítica intergeracional. Era uma cutucada. No sentido de dizerem, “olha, vocês jovens só pensam em si próprios, não são mais propulsores de mudanças”. A gente não percebia isso. Eu, que era criança, achava tudo muito divertido.

No meu post, eu ia usar o Brat Back como exemplo dessa cultura desmiolada e autocentrada que o Hughes mencionava. Brat Pack é utilizado para se referir aos atores desses filmes jovens dos anos 1980. Não só os filmes do Hughes. Tinha também, por exemplo, “O primeiro ano do resto de nossas vidas” (1985), do Joel Schumacher.  O termo faz referência ao mais respeitado e conhecido Rat Pack, grupo de cantores/atores célebres dos anos 1950 e 1960, e liderados pelo Frank Sinatra (eternizados na primeira versão de “Onze homens e um segredo”, de 1960). Como já cantou Raulzito, os anos 1980 foram uma charrete que perdeu o condutor, o Brat Pack era formado por gente que hoje não goza lá de muita credibilidade. Vou citar alguns. Emilio Estevez, que viveu o jogador babaca do Breakfast Club, Molly Ringwlad, a garota de rosa shocking que sumiu dos holofotes, o Mathew Broderick, eterno Ferris Bueller, hoje meio ostracizado, etc.Em 2010, a cerimônia do Oscar fez uma homenagem ao recém-falecido Hughes e juntou uma boa parte do Brat Pack no palco. Foi tão triste vê-los, eu achei. Essa geração entrou pelo ralo. Porque não tem conteúdo nenhum. E virou uma coisa deprimente.

Uns meses depois daquele Oscar, o Corey Haim (1971-2010) morreu. Embora ele não fosse oficialmente um membro do Brat Pack, ele estava lá, bem naquele momento. Foi um ídolo adolescente dos anos 1980. E, por causa dele, o post pegou outro rumo. O Corey Haim era o irmão mais novo em “Os garotos perdidos” (1987). E o menino sem “Licença para dirigir” (1988).  Para mim, ele sempre será o Lucas (“A inocência do primeiro amor”, 1986), o esquisitão que gostava da namorada do Charlie Sheen, e era meio perseguido pela Wynona Ryder. Era um filme tão triste. Ainda mais para quem, em algum momento, se sentiu deslocado na escola, sozinho e incompreendido.

Conheço um cara que sempre fala, quando ele vai citar um cineasta meio gênio, do Clint Eastwood. Ele fala assim, “nossa, em Menina de Ouro, o Clint Eastwood entendeu de fato. Quando a Hillary Swank diz, ‘eu vi o mundo’ e pede para morrer, você consegue entender mesmo o desespero de alguém que viu coisas, lugares, pessoas e de repente não pode mais.” Engraçado que a gente falou disso durante a homenagem do Oscar ao John Hughes, quando os atores do Crepúsculo assistiam seu futuro no fracassado e deprimente Brat Pack.

Então, é isso, eu acho. A história do Corey Haim. E de tantos outros. Em um mundo que prega o progresso, a busca pelo sucesso e o reconhecimento, imagina você ser alçado, aos quatorze anos de idade, às melhores oportunidades, aos excessos, à beleza, à luxúria, ao estrelato. Agora, imagina você aos vinte anos se tornar algo risível, um ‘has been’, um fracassado. É o suficiente para querer perder a lucidez. Para perder o rumo. Para morrer de overdose acidental aos 38 anos.

Um daqueles longos suicídios hollywoodianos.

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