A juventude em seu hedonismo

O olhar “não-adulto” (infantil, juvenil ou adolescente) como condutor de uma narrativa é uma estratégia adotada recorrentemente no Cinema por permitir a abordagem crítica de situações sobre as quais, de outra forma, resultaria em um trabalho árduo: é o caso de produções centradas em processos ditatoriais cujas máculas são indeléveis nas sociedades a eles submetidas – Machuca (2004), do chileno Andrés Wood e Infância Clandestina (2011), do argentino Benjamín Avila, por exemplo.

A representação do olhar “não-adulto” também possibilita – e aqui adentramos nas duas produções objetos deste post – incutir no espectador a necessária reflexão sobre sua responsabilidade na criação e manutenção do sistema no qual os personagens apresentados: Spring Breakers (2012) e Bling Ring: a gangue de Hollywood (2013).

 Spring Breakersspring-breakers-movie-poster-reelgood narra a história de 4 amigas: Faith (Selena Gomez), Candy (Vanessa Hudgens), Brit (Ashley Benson) e Cotty (Rachel Korine). Recém-   egressas da adolescência e enfastiadas com a vida no primeiro ano na universidade, decidem aproveitar, no limite ou mesmo transgredindo o socialmente aceitável, a semana de recesso universitário que ocorre entre março e abril (o equivalente à nossa semana do saco-cheio) na Flórida. Para custear a viagem, assaltam um restaurante fast-food e, já na Flórida, envolvem-se em festas regadas a álcool, drogas e sexo, culminando em uma associação com um pequeno traficante local, protagonizado por um irreconhecível James Franco. Nas mãos de um diretor mediano, tal como Seth Rogen (Ligeiramente Grávidos) este roteiro redundaria em um filme rasteiro, cujo objetivo principal seria apresentar unicamente jovens atrizes trajando diminutos biquínis em situações cômicas flertando com o erotismo vazio e barato, tendo um final moralista e conservador.

Não é o caso do californiano Harmony Korine, que elegeu como tema principal uma juventude sem perspectiva, sem formação, alienada mas que, não obstante, também é vítima de um sistema concebido para formá-los assim. Foi assim em Kids (1995), por ele roteirizado e dirigido por Larry Clark, Gunmo (1997), sua primeira experiência atrás das câmeras, Ken Park (2002), mais uma vez escrito por ele e dirigido por Larry Clark, e é o caso de Spring Breakers. Sob a ótica de Korine, a juventude é vítima, mas também reprodutora, de um sistema que incentiva e consolida a busca desenfreada da satisthe-bling-ring-posterfação imediata para suas necessidades de consumo – materiais ou físicas. A estética de vídeo-clipe, bem como a fotografia de cores fluorescentes e agressivas, serve de contraponto àquelas existências vazias e desprovidas de objetivo, fazendo com que o espectador se questione, ao final da projeção, qual sua responsabilidade para com aquilo. É aqui, pois, que Korine entrega um filme irritante, sombrio até, mas, sobretudo, provocativo, até pelo fato de ter escolhido como protagonistas atrizes associadas às comédias infanto-juvenis ou musicais da Disney.

A construção da identidade em função da busca irrefreável do prazer e da obtenção material do que nos distingue como indivíduos também é o mote de Bling Ring: a gangue de Hollywood, escrito e dirigido por Sofia Coppola, cuja narrativa centra em um grupo de adolescentes que, entre outubro de 2008 e agosto de 2009, invadiram as casas de seus ídolos (Paris Hilton, por exemplo) para furtar itens por eles utilizados, promovidos e, também, para experimentar de forma efêmera a vida de seus referenciais de estilo. Ao contrário de Korine, que não se preocupa em contextualizar a origem de suas protagonistas, a nova-iorquina Coppola apresenta o ambiente do qual eles emergem, tornando compreensível, ainda que não aceitável, os motivos que os fizeram transgredir; as relações desenvolvidas entre os personagens também são desprovidas de sentido e se constituem somente dentro dos veículos durante o trajeto entre as residências de seus ídolos. Todavia, aquilo que, em As Virgens Suicidas, fez com que Sofia Coppola se destacasse como cineasta, hoje impede que seus filmes tenham o mesmo apelo: ritmo lento, diálogos rápidos mas, não obstante, sofisticados e a fotografia de cores desbotada, faz com que a produção assuma um tom contemplativo e superficial. Em Bling Ring esta superficialidade, principalmente dos protagonistas, é até desejável, mas já não impele o espectador à necessária reflexão sobre como combater esta sociedade do espetáculo em que vivemos – vide o final do filme, no qual a personagem de Emma Watson não aprende nada com sua experiência; muito pelo contrário torna-se, por vias tortas, objeto de idolatria por outros adolescentes. E aqui fica a dúvida: Coppola procurou fazer a crítica ou narrar passivamente a situação sem expor suas contradições?

Talvez por isso, Spring Breakers seja mais pungente no que se propõe mas, indubitavelmente, ambos merecem ser assistidos.

Aventurem-se.

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Um pensamento sobre “A juventude em seu hedonismo

  1. Jorge….assisti, somente agora…spring breakers…..e o filme ganhou outro significado com a sua leitura dele….parabéns!!!!

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