“A Racionalidade não irá nos salvar” – Os documentários de Errol Morris sobre McNamara e Rumsfeld

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O documentarista norte americano Errol Morris procura, em seus filmes, entender e dar luz aos esqueletos escondidos no armário da história Estadunidense.

E sua abordagem é bem específica. Ele não cobre os grandes eventos históricos com recortes rápidos, emoldurados por cenas documentais e narrados com alguma voz professoral. As decisões pessoais, nesse formato convencional, parecem guiadas por motivos maiores, como se a própria história tomasse rédea dos eventos e conduzisse todo o processo.

A “técnica” narrativa de Morris consiste em dirigir sua câmera para alguém que, efetivamente, tomou decisões que afetaram o processo histórico. Verdadeiros protagonistas da história. Nesse aspecto, seus filmes são relatos preciosos e ricos em nuances e significados. Ao descortinar os protagonistas da cobertura tradicional e distante da imprensa, seus filmes ganham um ar de testemunho, ainda que essa não seja a verdadeira intenção do diretor. E talvez, nem dos seus entrevistados.

Mas suspeito que o diretor também não tenha esse objetivo (por demais documental) para os seus filmes.

Morris quer discutir (penso eu) a irracionalidade das decisões de governo, mesmo quando tomada por homens racionais. E ao fazer isso, deixa claro quão assustador é o mundo atual, onde um poder descomunal é depositado nas mãos de homens que, mesmo cercado de números, infindáveis relatórios, análises e gráficos, decidem a vida de milhões, motivados, muitas vezes, por suspeitas, impressões e palpites…

Além disso, as frivolidades mais obscenas e bobas, o ego, os compromissos, as ciladas mentais…Errol mostra quão “humanos, demasiadamente humanos” são os seus entrevistados. Ainda mais quando despedidos da arrogante armadura do poder.

Aqui, suspeito, o diretor mostra sua quase perplexidade com o mundo concreto. O “mindset” americano (Anglo-saxão, na verdade) acredita profundamente na fria e objetiva racionalidade das decisões. Mesmo quando essas roçam nos limites morais e éticos. Mas quando o jogo do poder deságua em decisões aparentemente destituídas de qualquer razão, o “ruído” assombroso produzido por essa incerteza provoca um desconcertante descrédito em homens como Morris. E desse descrédito, desse pânico, nasce seu inconformismo.

Dois filmes do diretor dialogam com essas questões e inconformismos: “The Fog of War  – Elevem lessons from the life of Robert S. McNamara” (A Névoa da Guerra) – 2003 e  “The Unknown Known” (O Desconhecido Conhecido) – 2013.

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O primeiro, um quase estudo sobre a personalidade do mais poderoso Secretário de Defesa Estadunidense, Robert McNamara, é um fascinante mergulho na personalidade de um homem que, injustamente ou não, foi marcado para a história como aquele que mergulhou os EUA no lodaçal do Vietnã. O filme apresenta a trajetória de McNamara, de um Matemático e acadêmico brilhante na sua juventude, até assumir o posto de Presidente das Indústrias Ford, então o maior grupo industrial do mundo. E, por fim, sua experiência como secretário de defesa (convidado pelo presidente Kennedy) no turbulento período que culmina na intervenção americana no Vietnã.

O filme é pedagógico para entendermos as estratégias da geopolítica estadunidense no tortuoso século XX. McNamara relata, com certo horror e fascínio, pessoas como o general Curtis LeMay, autor dos chamados “Bombardeios Estratégicos”, verdadeiros aríetes das campanhas militares estadunidenses, que consiste em atacar impiedosamente o inimigo até a exaustão, reduzindo a pó instalações militares e civis, evitando assim, pelo desgaste e stress, qualquer disposição do inimigo de resistir. A justificativa desses ataques era a quantidade “de vidas americanas” que seriam salvas ao evitar maiores confrontos em terra.

Um momento memorável do filme é quando McNamara relata os acontecimentos históricos que quase deflagraram a 3ª guerra mundial, resultado da Crise dos mísseis estacionados em Cuba. Sua perplexidade (e a de Morris…e a nossa também) vem do espanto ao não entender como pessoas racionais (Kennedy e Khrushchov) quase levaram o mundo ao apocalipse.

O filme mostra o retrato corajoso de um homem em seu último ato de vida, que olha para alguns dos seus fantasmas no passado, assumindo erros de julgamento, dúvidas (como a do episódio – até hoje mal esclarecido – de um suposto ataque de lanchas Norte Vietnamitas contra um destróier da marinha estadunidense) e lamentos. Longe de mim achar McNamara uma figura admirável. Ele foi a própria quintessência da arrogância fria e tecnocrática do aparato bélico e econômico estadunidense, levando ao cabo uma guerra covarde contra um povo que lutava pela sua autodeterminação. Mas a sua disposição de encarar o passado de forma crítica dignifica sua biografia. E assistimos ali um homem alquebrado pelo tempo (mas muito lúcido) que procura jogar alguma luz sobre a sua humanidade e legado.

É um documentário extraordinário. McNamara compartilha “11 lições” que ele aprendeu em sua vida. Distribui conselhos e alertas contra as ciladas da racionalidade e do próprio ego. Uma das Lições do filme é simplesmente: “A Racionalidade não irá nos salvar”…

Ao lembrar-se da expressão de Clausewitz sobre a “Névoa da Guerra”, ele chora. A expressão foi usada pelo estrategista prussiano para relatar a condição de incerteza e confusão que cercam os senhores da guerra durante um conflito, e de como cada decisão esconde uma hipótese, que pode ser, nem de longe, a mais indicada ou verdadeira.

Acredito que sua emoção carrega em si muito mais o peso da história do que, simplesmente, arrependimento. É um choro que vem do cansaço…

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Já o segundo filme interroga Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa de Bush Jr., protagonista maior do embuste que convenceu a opinião pública americana sobre a posse de Armas de Destruição em Massa por Saddam Hussein.

Conceitualmente, ambos os filmes possuem elementos estéticos e narrativos parecidos: fundo preto, o entrevistador olhando para a câmera, imagens estilizadas e simbólicas que definem a narrativa. Até as trilhas sonoras se prestam ao mesmo papel narrativo. Mas, enquanto no primeiro filme o minimalismo de Glass oferecia um recurso sonoro que corroborava para a narrativa de um homem lógico e cerebral, a trilha que Danny Elfman compõe para o segundo mostra-se uma simples cópia de escrita e propósitos que Glass, magistralmente, consegue produzir para o 1º filme.

As diferenças, no entanto, mostram-se abissais quando comparamos os entrevistados e, logicamente, o objetivo de ambos os filmes.

Enquanto McNamara é um personagem que se utiliza dos seus erros para compor um retrato trágico de si mesmo, Rumsfeld soa como um personagem caricato e velhaco. Com risinhos jocosos e enervantes, e fazendo uso de uma retórica inexplicável (“existem coisas que não sabemos que sabemos” e coisas do tipo), o entrevistado tenta justificar o injustificável.  E, se com McNamara, Morris mostrava-se contundente, mas respeitoso, aqui ele solta, num determinado momento, um “what??” incrédulo e espantado, exatamente quando o ex-secretário diz que, mesmo recebendo relatórios da inteligência que demonstravam que Saddam não possuía Armas de Destruição em Massa, “era necessário entender que não é porque o relatório dizia que o Iraque não tinha tais armas, que elas de fato não existiam…”

O espanto do documentarista é também o nosso. Morris não gasta muito tempo entendendo as raízes do “pensamento” de Rumsfeld. Assumindo partido e clara reprovação pelo sujeito que entrevista, o diretor edita uma série de declarações do secretário, em contraponto às desculpas ou explicações que ele oferece ao espectador sobre pontos polêmicos de sua administração (como as técnicas de tortura usadas na “Guerra os Terror”), claramente procurando retratá-lo como alguém muito próximo de um mentiroso.

Aqui não existe a tal crise da racionalidade. A administração Bush arrebanhou o que de mais sinistro existia na máquina burocrática do partido republicano, operando dois mandatos que se mostraram trágicos em termos humanos e estratégicos.

Ao final, Morris pergunta para Rumsfeld: ”Por que você concordou em ser entrevistado?”. Se o primeiro filme traz luz e humanidade para a complexa figura de McNamara, o segundo atesta a barbárie inescrupulosa e patética de um homem que empenhou sua triste figura num mar infindável de mentira, tortura e morte.

Para a glória e fortuna da Democracia ocidental…

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