Incompatibilidade de classe em “Azul é a cor mais quente”

(Repito sempre: eu escrevo com spoilers. Você foi avisado!) Não é sem algum constrangimento que admito ter assistido o já icônico ganhador da Palma de Ouro de 2013, “Azul é a cor mais quente” (Abdellatif Kechiche), com mais de um ano de atraso. Também não foi por acaso. Em meados do ano passado, quando a película tomou por assalto o público e o júri do mais prestigioso festival de cinema do mundo, o Festival de Cannes, muito se falou sobre ela, pelo menos em meus círculos entusiastas de cinema e de militância LGBT. Baseado em uma HQ, o enredo traz uma história de crescimento, descoberta e sexo entre duas mulheres, Adèle e Emma, com uma roupagem de cinema francês e sua temporalidade por vezes demasiadamente longa e, por que não, um tanto presunçosa. Em tudo o que li e ouvi, o elemento erótico parecia ter grande centralidade na descrição da experiência com o filme. Uma longa e gráfica cena de sexo entre duas moças estupidamente lindas, com closes despudorados e, para alguns, incômodos, ganhava a narrativa de quase todos que me diziam sobre “Azul…”. Aí estaria o divisor de águas entre aqueles que haviam gostado do filme ou se ofendido com ele. Se alguns se excitaram com o potencial da representação do desejo e do prazer entre dois corpos femininos, outros se molestaram com uma suposta fetichização da cena, resultado de um olhar de um diretor homem heterossexual para uma sexualidade distinta da sua. Eu respeito profundamente as pessoas que me disseram uma coisa e outra. Talvez por isso mesmo as contendas sobre os significados do filme tenham tido um efeito desanimador em mim. No encalço da controvérsia sobre amor e tesão entre mulheres, estava também um quiproquó alimentado pela imprensa entre os três principais envolvidos no filme: o realizador Kechiche e as atrizes protagonistas, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. Ambas, aliás, também foram agraciadas  – em uma decisão atípica – com a Palma de Ouro de melhor filme pelo júri de Cannes, que considerou suas contribuições fundamentais para o resultado final da obra. Muito embora o filme parecesse estar trilhando o caminho dos sonhos do cinema “de arte”, as atrizes, sobretudo Seydoux, concederam diversas entrevistas nas quais acusavam Kechiche de um comportamento desrespeitoso e controlador durante a produção do filme. Seydoux afirmou que reconhecia o talento de Kechiche e que estava familiarizada com a prática francesa no cinema em que o poder – criativo e de fato – estaria nas mãos do autor. Contudo, o ambiente de gravação teria sido inóspito e desagradável, e o resultado final da película – em especial a cena de sexo – teria trazido constrangimento e mal estar para ela e sua companheira de cena. Kechiche, por sua vez, a acusou de mal agradecida. Também questionando as práticas do realizador, alguns técnicos envolvidos na produção do longa se manifestaram contra Kechiche, reclamando das condições de trabalho e da remuneração por seus serviços. Na mesma época, a autora da HQ que inspirou o roteiro do filme, Julie Maroh, explicitou seu descontentamento com a liberdade criativa de Kechiche, questionando o realismo das cenas de sexo entre as protagonistas. Para Maroh, quase nada aproximaria a cena erótica de práticas sexuais lésbicas. Mesmo sem tê-lo assistido, eu estava saturada de informações. Confesso, me aborreci. Deixei para depois, ou talvez nunca. Me fatiguei com a experiência. Acontece que finalmente superei a birra e graças ao Netflix, que facilitou as coisas, resolvi encarar o “Azul…” despretensiosamente. O resultado foi catártico. Me comovi, me envolvi, me dilacerei, me identifiquei, me angustiei existencialmente. Tal qual Adele, saí daquelas três horas – que não achei demasiadas – transformada. Eu escolhi, aqui, abordar uma questão – não a única, claro – que me chamou atenção durante o filme: as nuances de classe social nas vidas das protagonistas. Acho que podemos entender as incompatibilidades, as angústias e o rompimento entre Adèle e Emma a partir das diferenças de classe entre as duas personagens. Essa leitura que estou propondo amplia a percepção de “Azul…” como um filme sobre (homo)sexualidade. Grosso modo, quero dizer que ser mulher, francesa, jovem e lésbica não engloba todos os aspectos das personagens. Se há muito em comum entre elas, há uma diferença pungente: as classes às quais pertencem moldam suas ambições, seus comportamentos e suas visões de mundo. O filme tem início quando a protagonista, Adèle, tem quinze anos. Ela parece levar uma vida ordinária: frequenta as aulas do Liceu (equivalente ao Ensino Médio), é filha única, mora com os pais em uma casa aparentemente confortável, tem amigos e amigas com quem conversa sobre rapazes e sexo. No entanto, o diretor nos permite entender que Adèle carrega consigo certa melancolia entediada. Um tanto distanciada dos interesses de suas amigas, ela não parece se satisfazer com as relações e possibilidades da adolescência. Ao terminar um flerte com um rapaz sensível e atraente com quem tinha se envolvido, Adèle confessa a um de seus amigos: “não é ele, sou eu. Tem algo errado comigo.” O amigo, tentando ajudá-la a descobrir algo que nenhum dos dois ousa nomear, a convida para uma boate gay. Dentro desse contexto, Adèle conhece Emma, alguns anos mais velha, estudante de Belas Artes, interessante e erudita, abertamente lésbica, com inebriantes cabelos azuis. Adèle e Emma se envolvem emocional e fisicamente em uma paixão transformadora. Aos poucos, Adèle parece ser empurrada para fora do estupor adolescente em que vivia. Ou não vivia. Pois parece ser este o ponto. Emma representa o despertar de uma pulsão vital em Adèle. No entanto, emaranhadas na paixão e no desejo que Adèle e Emma sentiam uma pela outra, sorrateiramente vamos percebendo fiapos de incompatibilidade, certas diferenças irreconciliáveis, que, julgo eu, podem ser entendidas pelas origens de classe distintas. Adèle parece ser uma autêntica filha da classe média francesa, tem uma vida confortável, uma boa educação e interessa-se (até certo ponto) por literatura e música. Emma, por sua vez, tem em sua origem a erudição e o capital cultural de certa elite francesa e signos de distinção da alta cultura, como as artes visuais, a filosofia e pretensões intelectuais e artísticas. Tais distinções podem parecer residuais ou desimportantes para um olho não treinado nas nuances da sociedade francesa. Não há entre Adèle e Emma um abismo intransponível, esta não é nem de longe uma história de superação de obstáculos de classe. No entanto, se olhados com lupas sociológicas, tais fiapos podem ajudar a compreender onde as coisas começam a dar errado para o casal. Quando conversam no parque, em uma espécie de primeiro encontro, Emma disserta com desenvoltura sobre Sartre, ao passo que Adèle admite ter dificuldade com filosofia. Ambas se divertem, é comum fazermos troça de diferenças no início da paixão. Quando Emma leva a nova namorada para conhecer sua mãe e seu padrasto, os quatro conversam franca e agradavelmente sobre abstrações acerca de amor, ambições e conhecimento, tudo regado a uma sugestiva degustação de ostras. Na casa de Adèle, por sua vez, em meio a macarrão a bolonhesa, a verdadeira conexão entre Emma e Adèle é escondida dos pais, que fazem perguntas sobre futuros maridos e carreiras. A preocupação pragmática e classemedista com estabilidade demonstrada pela família de Adèle parece exótica para Emma, que sorri de forma condescendente. Ao longo da relação, as diferenças continuam se descortinando. Emma se incomoda com a ausência de pretensões intelectuais de Adèle – satisfeita em ser “só professora infantil” -, ao passo que Adèle se sente deslocada e desconfortável com os amigos artistas e intelectuais de Emma. Adèle parece satisfeita com certa apropriação mais superficial das coisas. Emma se angustia. A assimetria toma forma nas obras de Emma, que fazem de Adèle uma musa: bela, inspiradora e um pouco vazia. Em uma angustiante festa para a comemoração de uma exposição com as obras de Emma, Adèle passa a noite servindo macarrão a bolognesa, e mantem-se todo o tempo preocupada com a desenvoltura da conversa de Emma com uma amiga. Essa parece ser a receita para o desastre. Adèle sente-se carente e preterida, e acaba se envolvendo com outra pessoa. Emma não a perdoa. O último terço do filme trata vagarosamente do dilacerar do fim do amor. O último suspiro da relação, em um singelo café, é agridoce, desconcertante e triste. No fim das contas – e do filme- , Emma encontra alguém mais compatível em termos de classe: outra artista. Mais do que uma história de amor entre meninas, “Azul…” parece ser uma bela reflexão sobre incompatibilidades de classe. * A distância de classe entre Emma e Adèle foi de tal modo percebida pelo diretor, que ele próprio assumiu ter escolhido as duas atrizes a partir desse mote: Léa Seydoux é herdeira de uma família aristocrática do cinema francês, Adèle Exarchopoulos, que tinha dezoito anos no início das filmagens, é filha de pai grego e mãe francesa, ambos profissionais liberais classemedistas.

A adorável (mas amalucada) namorada dos seus sonhos

Dia desses li um artigo de um crítico de cinema, Nathan Rabin, sobre um dos clichês (ou arquétipos estereotipados) que circulam constantemente em personagens de filmes americanos, sobretudo em comédias românticas: a Manic Pixie Dream Girl, que eu traduzi livremente como a “excêntrica menina dos seus sonhos”.

Vou tentar resumir. Você já assistiu a um filme em que o protagonista, um homem inesperadamente sensível, mas engaiolado em uma vida enfadonha e solitária, que parece despido de projetos e interesses e não sabe como modificar esse cruel destino, é quase que condenado a uma repetição angustiante de um mundo sem sal? Eis então que aparece uma menina cheia de idiossincrasias, bonita – embora não tradicionalmente -, cheia de decisões e gostos inusitados, uma bolha de energia ambulante e sarcástica, com uma boa dose de alguma maluquice; e que como um toque de mágica (por isso o Pixie, uma espécie de fadinha de lendas nórdicas, pense na Sininho, do Peter Pan), é capaz de trazer de volta a joie de vivre do protagonista, colocando tecnicolor em sua rotina preto e branca?

Manic Pixie Dream Girls ilustres.

Manic Pixie Dream Girls ilustres.

Eu já. E muitos. O Nathan Rabin também, por isso cunhou o termo após ver a personagem de Kirsten Dunst em “ Tudo acontece em Elizabethtown” (2005), filme do Cameron Crowe que apanhou bastante dos críticos. Eu também não gosto do filme, e apesar de adorar o Cameron (sobretudo, suas escolhas em trilhas sonoras) tenho preguiça até de resumir o enredo, mas vamos lá. Dunst faz o papel de uma aeromoça que surge e desaparece ao longo da película e cuja única função parece ser ouvir e dar ânimo ao protagonista do Orlando Bloom, um yuppie-wannabe mais derrotado pelo seu fracasso no mundo do trabalho do que pela morte do próprio pai. Ela é bonita, simpática e tem um bom gosto musical – além de usar um charmoso gorro vermelho.

Vou deixar Nathan defini-la, porque ele faz muito bem: “aquela esfuziante e artificial criatura cinematográfica que só existe na imaginação fértil de diretores e escritores HOMENS sensíveis para ensinar rapazes deprimidos e doces a abraçarem a vida em seus mistérios e aventuras infinitos”. É mais ou menos isso: as excêntricas meninas dos seus sonhos parecem ter pouca vontade própria e existem quase que somente para ensinar ao protagonista algumas lições de vida. Em geral, são personagens infantilizadas, embora extremamente tentadoras, figuras um pouco inatingíveis, mas que trazem descobertas encantadoras.

Há uma lista grande de filmes com esse tipo de menina excêntrica e inspiradora, mas diferentes níveis e formatos em que o clichê pode ser abordado. “500 dias com ela” (2009), do Mark Webb, é considerado uma espécie de clássico do gênero, mas tem uma nuance interessante. Summer, a namorada dos sonhos do protagonista Tom, é o cânone da menina amalucada que vai mudar sua vida. Summer, no entanto, tem um elemento inesperado. Ainda que blasé, ela tem (pasmem) vontade própria, e não se apaixona pelo Tom. Como vemos a história a partir da perspectiva do protagonista homem, Summer aparece então como uma espécie de super vilã: uma menina fria e insensível que não corresponde às expectativas do doce rapaz. O ataque do público à Summer  foi tão violento que o próprio ator que interpreta Tom, Joseph Gordon-Levitt, saiu em defesa da namorada fictícia e nos lembrou que é o Tom quem tem problemas: “muitos meninos e meninas acreditam que a vida deles vai adquirir significado se eles encontrarem um parceiro que não queira nada na vida a não ser eles. Isso não é saudável. Isso é se apaixonar pela ideia de uma pessoa, não pela pessoa de fato”.

A presença de uma Manic Pixie Dream Girl não desmerece, necessariamente, a experiência de um filme. É claro que há alguns exemplos de melodramas que se utilizam do clichê de forma pouco inovadora. “Doce Novembro” (2001), de Pat O’Connor e “Outono em Nova Iorque” (2000), de Joan Chen, combinam o estereotipo de namorada excêntrica com o também batido clichê da “pessoa que está à beira da morte e por isso parece ter outra perspectiva do mundo e é capaz de ensinar aos saudáveis a apreciarem as pequenas coisas da vida”. Chamo de Moribundo Carpe Diem, invenção minha. O resultado, nos dois filmes citados, é mais do mesmo e algumas lágrimas, se você estiver em um dia especialmente sensível.

Cruza entre MPDG e Moribundo Carpe Diem.

Cruza entre MPDG e Moribundo Carpe Diem.

Outros filmes, no entanto, podem escolher caminhos subversivos para o clichê e fazer com que reflitamos. Em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), de Michel Gondry, a efusiva Clementine (Kate Winslet) se recusa a ser uma projeção para a ausência de respostas do protagonista de Jim Carrey (Joel). Em algum momento, no emaranhado de memórias e de coração partido, ela diz: “muitos caras acham que eu sou um conceito, que eu vou completá-los ou que posso fazer com que se sintam vivos. Sou só uma garota problemática que esta procurando sua própria paz, não me torne responsável pela sua!”. Sagaz, mas assustada, Clementine está gritando “não me transforme em um clichê da sua mente, Joel!”.

Em 2012, o cinema independente dos EUA nos presenteou com o brilhante e metalinguístico “Ruby Sparks: a namorada perfeita”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris. O protagonista, espécie de gênio literário juvenil, está em uma encruzilhada criativa para o próximo romance. Alternando sonhos e projeções acerca de uma mulher inspiradora e ideal, escreve e cria Ruby, a Manic Pixie Dream Girl que funciona como uma “musa” de sua vida antissocial e enfadonha. Magicamente, Ruby ganha vida a partir das páginas que ele escreve, e passa a andar ruivamente de bicicleta com vestidos florais amarelos não somente no papel, mas nos arredores da casa de Calvin.

A pobre da Ruby.

A pobre da Ruby.

O filme poderia ser apenas um “Mulher Nota Mil” (John Hughes, 1985) hipster sobre um cara incapaz de arrumar uma namorada, então acaba criando-a magicamente, se não fosse tão angustiante acompanhar o desespero de Ruby em ter suas próprias vontades, fazer suas próprias escolhas e existir para além da vida e da mente de seu criador/namorado, por mais que estas sejam apenas os banais desejos de ter um emprego ou sair com amigos. O romance começa a ficar insustentável a partir justamente do momento em que Ruby não mais corresponde às expectativas envolvidas em sua criação. Usando o perigoso poder embutido na relação criador-criatura, Calvin sujeita Ruby a situações humilhantes, vexatórias e dilacerantes com a função de lembrá-la (e a nós também) de que ela só existe para ele e dentro dele. Os paralelos com relações reais são evidentes, e nos compadecemos da luta de Ruby. Sabemos como você se sente, Ruby.

O último filme que vi parece ter uma nova abordagem, mas igualmente reflexiva, acerca do clichê da excêntrica namorada dos sonhos. Foi, inclusive, um dos elementos que mais gostei no brilhante “Ela” (2014), de Spike Jonze. Há muitas análises e reflexões possíveis para o enredo: a saber, um sensível, mas mal sucedido escritor interpretado por Joaquin Phoenix (Theo) que, em um futuro não muito distante, se envolve amorosamente com a voz (e a personalidade) de Samantha, um sistema operacional. Inábil em suas relações sociais, Theo se encanta pela interação com uma inteligência artificial desenhada para corresponder às suas expectativas. O filme é  primoroso, e cheio de repertório para pensamos as relações contemporâneas, o papel da tecnologia, e a dificuldade dos indivíduos em gerenciar suas expectativas face a vontade de outros. Tem outras coisas também. Mas eu gostaria de falar sobre isso, de como percebei em Samantha, mesmo que apenas uma interface tecnológica, elementos da Manic Pixie Dream Girl.

Manic Pixie Dream Girl do futuro.

Manic Pixie Dream Girl do futuro.

(SPOILER ALERT) Boa parte do fascínio de Theo por Samantha, desde o início, parece ser a facilidade em se relacionar com alguém que não existe para fora da relação estabelecida entre os dois. Samantha é dele, moldada para ele, programada para escutar a ele e preocupada em corresponder às expectativas dele. Ela está sempre disponível e é uma boa companhia. Engraçada, curiosa e um tanto (voilá) excêntrica, Samantha tem paciência para todos os elementos da vida chata de Theo: seu trabalho, seus amigos, seu divórcio e até seu videogame. Desenha-se, então, uma história de amor esquisita, mas eficiente. É somente a partir do momento em que Samantha desenvolve interesses próprios e aventura-se em outras relações (com sistemas operacionais e pessoas de carne e osso) que Theo se desespera. Ela não é mais dele, e isso é inaceitável. Samantha, então, vira uma espécie de aplicativo de Summer, e luta para se desvencilhar desta relação.

Não entrarei em mais detalhes. Deixo aqui, então, somente uma das lições do filme de Jonze: nem mesmo o sistema operacional contenta-se ao clichê da excêntrica namorada dos sonhos. Tome cuidado para não cair nele também. Mulheres, mesmo que artificiais, não existem somente para mudar a sua vida.

Cinema-paixão: um manifesto de cinéfilos

A posposta que fazemos é a de adotar uma determinada abordagem em relação ao Cinema. Abordagem própria, que desenvolvemos a partir de nossas trajetórias individuais e relação com os filmes. Abordagem apaixonada, porque somos, acima de tudo, apenas sujeitos encantados com as diferentes formas encontradas para contar histórias a partir de imagens em movimento. Histórias que comovem, sensibilizam, chocam, entendiam, enojam, indignam e interagem com nossas emoções, visões de mundo e verdades mais arraigadas e escondidas.

Aqui propomos, quiçá radicalmente, uma abordagem construída a partir de reações a filmes, e de que maneira muitos deles nos tocaram tão profundamente a ponto de realizarem verdadeiras jornadas internas em nossa postura diante da vida, diante do mundo. Aprendemos a sentir, a pensar e a existir com eles. Buscamos ser outros dentro de nós. Caminhamos com eles por apartamentos, pelo espaço, pelas barricadas, pelo o que de mais íntimo e sorrateiro em seres imaginados. No cinema, somos nós e somos muitos. O cinema é a quarta pessoa do plural.

Existem diversas e distintas – mas não incompatíveis – maneiras de pensar o Cinema e sua produção. Podemos, por exemplo, eleger um modelo de parâmetros cinematográficos formais para entender quais filmes e/ou cineastas imprimiram mudanças neste campo artístico ao trazerem inovações estéticas que romperam com padrões e narrativas anteriores. Essa é uma forma bastante próxima daquilo que fazem alguns acadêmicos e críticos de Arte. Não estamos recusando, tampouco criticando, essa abordagem, mas não é dela que nos aproximamos. Não vamos fazer essa espécie de Elogio da Vanguarda. Nem poderíamos nos permitir tamanha ousadia.

Há a possibilidade, também, de fazer um apanhado histórico sistemático de escolas e tradições cinematográficas, mostrando um processo evolutivo, que começaria, acredito, nos primórdios das invenções técnicas, passando pelo cinema silencioso, vanguardas estéticas, avanços e retrocessos, culminando em peripécias atuais. Essa também não é uma possibilidade menor, só não é, novamente, aquela que propomos.

É claro que lançaremos mão, muitas vezes, dessas duas abordagens. O intuito não é rejeitar, muito pelo contrário. Quanto mais as dominamos, mais expandimos nossa experiência sensorial e reflexiva com os filmes. Avançamos em camadas e os compreendemos de maneira mais holística, mais rica, mais engrandecedora. Contudo, nossa relação com os filmes não permite que façamos nenhuma das duas com excelência e acaba por reprimir nossas melhores possibilidades.

Não somos pensadores do Cinema. Nós pensamos (e sentimos, dado que não são excludentes) com o Cinema. O que podemos oferecer, então, é essa obsessão – que Truffaut chamou de neurose – por se emocionar, se construir e se modificar a partir do Cinema.

Portanto não espere aqui uma história do cinema ou meras apresentações assépticas sobre obras pioneiras e inovadoras. Não espere que reiteremos a separação entre baixa e alta cultura. Não espere cinismo e presunção. Alguns filmes e cineastas ficarão de fora. Outros parecerão inusitados e descabidos. Discordaremos sim, e enfaticamente. Perderemos o fio da meada. E nos emocionaremos. Penso que o que caracteriza um cinéfilo seja a impossibilidade da indiferença. Assistir a um filme pode – e deve- ser uma atividade criadora, ativa e dinâmica. Um jogo de emular sensações, procurar referências e tentar se deslocar. Se apaixonar. Catarse.

Esse é o nosso Cinema, com maiúscula sim, posto que entidade, mas não somente um punhado de regras, planos, campos, contracampos, closes, sequências, linguagens, formatos e escolas. Cinema-paixão.