Monstros (Monsters), 2010 – Diretor: Gareth Edwards

0,2

“tan lejos de dios y tan cerca de estados unidos”

 

Na expectativa pela estreia de Godzilla, é oportuna a visita ao primeiro filme do jovem diretor Britânico Gareth Edwards: Monstros (Monsters), realizado em 2010 com pouquíssimo dinheiro e muita criatividade. Como o próprio nome do filme escancara, sim, o primeiro filme de Gareth é sobre…monstros. Ao menos é o que parecerá para os mais incautos.

E imagino que sua abordagem diferente sobre o tema, misturando temas fantásticos e geopolíticos numa trama bem narrada, serviu de currículo para a oportunidade de oferecer uma “nova” abordagem do mítico monstro Japonês.

No filme, de forma provocativa, a história conta que um satélite americano supostamente contendo formas de vida colhidas numa missão exploratória, ao se aproximar da órbita terrestre, se acidenta. Os destroços caem sobre o México e outras partes da América Central. Em contato com o ambiente terrestre, os micro-organismos tomam a forma de gigantescos monstros. Na tentativa de contê-los, o exército americano se engaja numa luta que, seis anos depois do acidente, parece estar perdendo.

“tan lejos de dios y tan cerca de estados unidos” a cínica e ácida frase do povo Mexicano, quase um lamento identitário, lema de resistência e estoicidade ante o vizinho expansionista do norte. Lembro-me dessa frase ao comentar o filme, já que a alegoria criada pelo diretor (que também escreveu e o produziu o filme) é perfeita para representar as muitas intervenções americanas no subcontinente, muitas vezes de forma violenta e abusiva, ainda que justificadas pelos mais nobres princípios. Ou, mesmo de forma indireta, o estilo de vida do vizinho do norte arrasta o México para conflitos não imaginados no passado recente, como é o caso da quase Guerra civil entre os Cartéis e o Governo, outra grave consequência da dura e militarista campanha Estadunidense antidroga, levando de roldão o país numa espiral crescente e desconcertante de violência.

Por isso é tão inteligente a decisão de Edwards de construir uma realidade que, mesmo tomada pelo fantástico, conforma-se numa estranha e tensa normalidade, onde a vida comum segue o seu curso, ao lado de choques entre os militares e monstros, exatamente como na Guerra às Drogas. O Homem e sua aparente capacidade ilimitada de adaptação às mais inóspitas situações.

O filme companha o jornalista Andrew (Scoot McNairy), cético e desiludido com todo bom jornalista “de campo”, em escoltar Samantha (Whitney Able), filha de um magnata da mídia e em férias (num país tomado de monstros??) no México, até a fronteira com os EUA. Aqui o filme atravessa quase todos os clichês de filmes que mostram americanos erráticos vagando pelo México: das festas na cidadezinha com elementos típicos e fantásticos da cultura popular Mexicana até o corrupto funcionário público local, que num determinado momento da trama inflaciona uma tarifa de transporte. E se a trama não consegue evitar situações esquemáticas e estereotipadas, das relações históricas entre Norte e Sul, essas mesmas situações transformam-se em trunfo do roteiro original escrito por Gareth, conseguindo oferecer, num mesmo coquetel, um combinado de crítica política e suspense, já que o casal passa grande parte da trama num errático “road-movie”, atravessando a área contaminada até alcançar a fronteira Estadunidense.

A maior fraqueza do filme é na relação entre os dois protagonistas, que é sempre distante, demorando a engrenar. A inevitável tensão sexual entre os personagens é conduzida de forma fria e distante, não contribuindo necessariamente para o desenvolvimento da história.

A cena que mostra um grande muro dividindo os países é particularmente feliz, na sua concepção e alusão política da realidade. Mas, no filme, o Muro tenta conter os Monstros (e refugiados, claro), expressando o desejo Estadunidense de evitar a exposição de tudo o que vem do Sul (palmas novamente para o engenhoso roteiro), ainda que isso se mostre inútil, como narrado no último ato do filme.

Outro aspecto positivo do filme é o seu desenho de produção, utilizando-se de prédios abandonados ou em demolição de forma criativa para criar o rastro de destruição. Os efeitos especiais são competentes, usados com parcimônia e inteligência: os monstros não são revelados nunca na sua totalidade (ao menos até o final do último ato), usando a fotografia das cenas noturnas para introduzi-los organicamente na ação, e não revelando suas possíveis fragilidades em função do pouco orçamento. Uma regra que Spielberg usou com maestria em Tubarão (1975) e que Gareth segue a risca.

Mas o filme não é somente sobre Monstros, ao menos no seu arco dramático. O que Gareth quer mostrar é outra coisa. Como escrevi neste mesmo texto, quer contar as relações conflituosas entre Norte e Sul. Neste sentido, os Monstros servem como elemento catártico para expor, gritar na verdade, essa relação assimétrica.

Um filme engenhoso, criativo e que conduz, com certa ambição, uma história que quer contar muito mais que um simples filme do seu gênero.